É tempo de escolhas para 50 mil jovens. Curso já não garante profissão para a vida

Da credibilidade do curso e da universidade às saídas profissionais, são muitos os fatores que os jovens têm de ponderar na hora de preencher o boletim de candidatura ao ensino superior

Arranca no próximo dia 20 de julho o concurso nacional de acesso ao ensino superior 2016-17. No ano passado, abriram mais de 50 mil vagas, distribuídas por mais de mil cursos. A oferta é grande. E a indecisão também. Falta pouco mais de um mês para começarem as candidaturas, mas ainda há muitos finalistas do 12.º ano que não sabem exatamente como vão preencher o boletim. São muitas as dúvidas que os atormentam. Devem escolher o que mais gostam ou o que tem mais saídas profissionais? Se são maus alunos a Matemática, devem fugir das Ciências? O DN falou com três especialistas - a vice-reitora da Universidade de Coimbra para a Comunicação e Cultura e duas psicólogas -, que dão dicas para que os jovens façam as escolhas mais informadas.

O paradigma mudou. "Um curso superior não é o que era há 20 ou 30 anos. Nessa altura significava uma profissão para o resto da vida", frisa Clara Almeida Santos, vice--reitora da Universidade de Coimbra. A variedade de cursos é enorme, destaca, pelo que os jovens "devem perder tempo a informar-se. Não é uma escolha que se faça de ânimo leve". Há plataformas "como a Design for Future que têm pessoas a explicar o que fazem e que cursos podem seguir para chegar lá." Clara Santos lembra que o primeiro ciclo de estudos do ensino superior deve ser visto como "uma porta de entrada que dá acesso a muitas outras opções."

As saídas profissionais e a empregabilidade são fatores que pesam cada vez mais na hora de preencher o boletim. "Quando um jovem escolhe um curso, normalmente visualiza-se a desempenhar determinada profissão. Além das aptidões, interesses, valores e personalidade, estes fatores também devem ser tidos em conta, por forma a prevenir futuras frustrações", diz a psicóloga Catarina Barra Vaz, da área da orientação vocacional da Psinove.

Se por um lado estas preocupações devem estar presentes, por outro, não devem condicionar a escolha. Inês Afonso Marques, responsável pela área infantojuvenil da Oficina de Psicologia, exemplifica: "Um aluno pode gostar muito de jornalismo e saber que não há muito emprego na área. No entanto, se for pró-ativo e tiver uma grande criatividade, pode até conseguir criar o seu próprio emprego." Mas se o jovem não tiver essa possibilidade - se tiver mesmo de ter emprego no final do curso - se calhar o melhor será escolher outro.

Importante mesmo, dizem as duas psicólogas, é ter em contas as aptidões e os interesses. "Pensar no que gosta de fazer, no que sabe fazer, no que aprende com mais facilidade, nas suas experiências e em como visualiza o futuro", explica Catarina Vaz. Além de conciliar as aptidões com os interesses, Inês Afonso Marques sugere que pondere o que dá mais valor: "Se à remuneração, satisfação, empregabilidade ou saídas profissionais."

E um mau aluno a Matemática deve fugir de um curso de Ciências, por exemplo? "Há cursos que têm Matemática no primeiro ano e às vezes isso é uma barreira que parece difícil de ultrapassar. Mas se for mesmo a área que o jovem quer seguir vai conseguir. Uma ou duas cadeiras não o devem fazer desistir do sonho", diz Clara Almeida Santos.

A credibilidade do curso e da instituição de ensino aos quais o aluno se candidata são, segundo Inês Afonso Marques, fatores a ter em conta. "Também é importante que o aluno conheça o plano curricular e o confronte com as suas aptidões", refere. Fazer miniestágios na área, participar nos dias abertos das universidades e visitar feiras de emprego e formação também é uma boa ajuda para perceber o que o futuro em determinada área lhe pode reservar.

Se não for possível fazer estágio, os finalistas devem procurar conversar com pessoas que tenham a profissão com que sonham. "Perguntar-lhes pelo percurso que fizeram até terem essa profissão, pelo seu dia-a-dia, condições de trabalho, atividades e instrumentos da profissão", propõe Catarina Vaz. Participar nas universidades de verão, que hoje em dia são promovidas por muitas instituições de ensino superior, também pode ser uma boa opção. "Podem servir para despistar enganos", diz a vice--reitora da Universidade de Coimbra, que oferece esta opção a estudantes a partir do 9.º ano.

As expectativas dos pais

Nas vésperas da candidatura ao ensino superior, a ansiedade não toma só conta dos jovens, mas também dos pais. "O papel dos pais deve ser o de orientar, não o de exigir ou impor. Devem dar condições para que os filhos se informem e façam escolhas conscientes", sugere Inês Afonso Marques. Se a escolha for imposta, "há maior probabilidade de haver desmotivação e desinteresse". Em consultório, a psicóloga recebe muitas vezes jovens de 20 anos com várias cadeiras por fazer e, por vezes, "isso acontece porque a escolha do curso não foi deles".

Catarina Barra Vaz explica que "além da expectativa do jovem quanto à sua vida futura, existe também a expectativa familiar. Os pais depositam desejos, sonhos, e fantasias nos filhos desde o momento em que eles nascem, o que é normal." Contudo, diz a psicóloga, "muitos jovens chegam a sentir-se obrigados a seguir determinada carreira porque este é o sonho dos pais, o que poderá gerar frustração e revolta dificultando o processo de autonomia".

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