Costa e Marcelo vão formar "bloco central de palácios"

Já foram aluno e professor e "dão-se bem". Agora têm tudo para cooperar até que o Parlamento ou a popularidade os separe

Preveem-se núpcias prolongadas entre o novo Presidente e o primeiro-ministro. Muito para além da "cooperação estratégica" Sócrates-Cavaco, na última vez que em Belém esteve um militante de cor política do governo. Marcelo Rebelo de Sousa segura Costa quase de forma incondicional: o governo é para a legislatura, fará o "possível e o impossível" para que o Orçamento para 2016 seja aprovado e vai promulgar tudo o que venha do Parlamento.

Já negociaram importantes dossiês políticos, foram aluno-professor e nas palavras dos que os rodeiam "dão-se muito bem". Com tudo a favor, a resposta pública do primeiro-ministro - perante o "costismo" de Marcelo - não podia deixar de ser na mesma moeda: prometeu "máxima lealdade" ao Chefe do Estado.

O próprio ex-presidente do PSD Luís Marques Mendes - que era líder parlamentar do PSD quando Costa era ministro dos Assuntos Parlamentares de Guterres e negociou com Marcelo Rebelo de Sousa como líder do PSD - conta ao DN que já nessa altura "a relação de Costa com Marcelo foi sempre boa, as conversações foram positivas e frutuosas em matérias europeias e orçamentais".

Quanto às conversas entre ambos, Marques Mendes define-as como "sempre frutuosas, cordiais e fáceis", embora os dois tenham "personalidades muito diferentes".

O comentador político acredita que, "no essencial, eles vão entender-se bem, porque é do interesse de ambos". Isto porque "nenhum Presidente acabado de entrar em funções tem algum tipo de interesse em não ser visto como um referencial de estabilidade".

Ainda assim, o socialista precisa mais desta cooperação do que Marcelo. "António Costa tem um interesse vital em que haja uma boa relação com Marcelo porque tem uma solução governativa muito frágil, muito instável, e como já tem um combate no Parlamento, não lhe interessa um conflito institucional."

Por partes, a relação tem tudo para correr bem. Marcelo não alinha na tese da "geringonça", pois o governo "deve durar a legislatura". Quanto ao Orçamento do Estado para 2016, o Presidente até já disse que tudo fará para que seja viabilizado, até - se for preciso - convencer Passos Coelho. O que pode esfriar a relação é uma eventual crise política à esquerda. Mas aí Marcelo já disse que não se vai encolher.

Os poderes presidenciais, diz, "reforçam-se em tempos de crise". Porém, como diz Marques Mendes, "uma crise política nunca terá origem em Belém, mas no Parlamento". Ou seja: Marcelo só deverá avançar para eleições antecipadas se houver um consenso nacional nesse sentido.

O comentador político e ex-dirigente do PS Pedro Adão e Silva acredita que entre Costa e Marcelo "se vai formar um bloco central de palácios", numa "coligação entre Belém e São Bento".

Para Adão e Silva, esta coligação surtirá "efeito a curto prazo porque ambos têm interesses convergentes: Costa porque tem um apoio frágil à esquerda, Marcelo porque quer demonstrar que é o Presidente de todos os portugueses e distanciar-se de Cavaco Silva".

Porém, se o governo de Costa "se tornar impopular", acredita o comentador, "Marcelo vai querer descolar e aí vai haver uma recomposição da direita". Quanto ao fim desta relação, por via de uma crise, Adão e Silva afirma que "tenderá a ser no Parlamento", possivelmente "por altura das autárquicas de 2017".

Políticos à Maquiavel

E depois ainda há a relação pessoal. Costa e Marcelo conhecem-se há anos: o primeiro-ministro foi aluno do professor na Faculdade de Direito. Além do mais, veem ambos a política da mesma maneira, cultivando o lado lúdico, intriguista e manobrista, às vezes quase infantil, pela crueldade que pode envolver.

Quando Marcelo ascendeu à liderança do PSD, em 1996, o primeiro-ministro era o seu velho amigo António Guterres (conheceram-se nas militâncias católicas apadrinhadas pelo padre Vítor Melícias).

Para escândalo de grande parte do PSD, Marcelo prometeu logo à cabeça viabilizar todos os Orçamentos do Estado até ao final da legislatura (o governo de Guterres não tinha maioria na Assembleia da República). Fê-lo alegando que o PSD tinha de ajudar o governo no processo de adesão à moeda única.

Mas precisava de fazê-lo apresentando ganhos de causa, para sossegar o partido. E aqui entra Costa, que era o ministro dos Assuntos Parlamentares - portanto o "pivô" principal de todas as negociações de legislação entre o governo e os partidos com assento parlamentar.

Perante o que conhecia do anteprojeto do OE 1998, Marcelo percebeu que tinha um problema: não tinha nenhum ganho de causa a apresentar ao seu partido. Se já era difícil viabilizar a proposta, mais difícil estava a ficar.

E assim reuniu-se com Guterres e Costa e apresentou o problema. Foi em conjunto com o agora primeiro-ministro que se arquitetou uma solução: o governo incluiria no OE 1998 uma proposta, depois o PSD berraria muito pela sua revogação, e no final o governo cederia, deixando-a cair, a bem da nação e dos consensos e da aprovação do Orçamento do Estado.

E assim se fez: a proposta foi de cariz fiscal, a chamada "coleta mínima", uma espécie de pagamento especial por conta. O trabalho foi tão apurado, que Costa e Marcelo até inventaram logo na altura o slogan que o PSD usaria na sua campanha contra a medida: "Pena máxima para coleta mínima." E assim se fez e passadas umas semanas Guterres deixaria "cair" a proposta e Marcelo cantaria vitória, ganhando mais um balão de oxigénio no PSD.

Pelo meio houve uns contratempos. Na redação do (já encerrado) jornal Semanário soube-se que o governo iria deixar "cair" a proposta. Só que se soube antes do tempo definido entre o Guterres e Marcelo. Aí Costa foi encarregado de, oficialmente, negar ao jornal que o executivo estivesse para "ceder". E assim conseguiu travar a notícia. Depois, quando a proposta efetivamente caiu, o jornal percebeu que Costa o tinha enganado. E sem meias-palavras chamou-lhe "mentiroso", com destaque de primeira página. Os jornalistas envolvidos estiveram anos sem falar com o agora primeiro-ministro

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