Carlos Silva: "Se a esquerda queria condicionar o executivo, tivesse ido para o governo"

A UGT abre hoje o XIII congresso, no Porto, com o crescimento o emprego no topo da agenda. Carlos Silva, secretário-geral da União Geral de Trabalhadores, promete manter o acento no diálogo e no compromisso. As dúvidas sobre a atual solução de governo já lá vão e elogia agora a "responsabilidade" dos partidos que sustentam o executivo. Não sem reparos ao PCP e BE, que "se esquecem" dos custos financeiros que as medidas têm para o país. Mas Carlos Silva acredita que a esquerda fará "tudo" para que o PS se mantenha no governo.

O que é que podemos esperar deste XIII congresso da UGT?

Espero que seja um momento de valorização do movimento sindical e de enaltecimento daquilo que é o espírito de compromisso da UGT. E que seja também um reforçar da aproximação aos trabalhadores depois de anos e anos de crise, anos difíceis, com grandes sacrifícios para muitos milhares, milhões mesmo, de trabalhadores portugueses.

Esses anos de crise provocaram algum afastamento dos trabalhadores em relação aos sindicatos?

Não. Uma coisa é as pessoas afastarem-se por não acreditarem em determinados projetos ou organizações, outra coisa é haver uma crise que atravessa de forma transversal a sociedade, que ataca sobretudo os mais frágeis, que vivem do seu trabalho, e que perante o aumento do desemprego, o aumento da carga fiscal... As pessoas têm que fazer opções e, naturalmente, cortam nas despesas que consideram menos essenciais para a sua vida. Os sindicatos ressentiram-se disso. Com o enorme desemprego destes últimos anos, com um a emigração galopante, naturalmente as organizações de trabalhadores ressentiram-se.

A UGT vai para este congresso com menos 20 mil sindicalizados que há quatro anos. Atribui esta situação à crise, ou estamos a falar de uma tendência que até é anterior?

A tendência é mundial, devido a fatores como a globalização, relações de trabalho cada vez mais individualizadas, a precariedade dos mais jovens, a extrema segmentação do mercado de trabalho. Há um conjunto de fatores que não permite que haja um crescimento exponencial em Portugal. Temos cerca de 20% de trabalhadores sindicalizados, a maior parte deles são da Administração Pública, mas também há muitos no privado, sobretudo nas grandes empresas. Mas estamos consolidados na posição de que, tendo ainda cerca de 450 mil filiados, não deixa de ser um número muito importante para a UGT, embora reconheçamos que perdemos nos últimos oito/nove anos cerca de 60 mil sindicalizados. Contra isto há que arregaçar as mangas.

Este congresso acontece num ambiente político muito diferente do anterior. Que avaliação faz desta solução de governo?

Faço uma avaliação globalmente positiva. Há cerca de um ano e meio, na iminência deste acordo à esquerda, afirmei que tinha algumas dúvidas. Porque à esquerda do PS está uma organização, para não dizer duas, mas essencialmente o PCP, que sempre foi muito crítico da criação e da existência da UGT. Nunca o escondeu, sempre olharam para nós com grande desconfiança e até com vontade de que fossemos extintos. Mas nós somos teimosos e continuamos a existir. Mas aquilo que no primeiro momento foi uma dúvida acabou por se transformar numa surpresa que registamos com agrado. Porque a verdade é que o governo, no primeiro ano, em 2016, reverteu um conjunto de cortes e este ano está a cumprir com o acordo de concertação social - nas portarias de extensão, deu o pontapé de saída para se discutir a idade da reforma, não penalizar as longas carreiras contributivas, discutir a sustentabilidade da Segurança Social...

Já acredita no futuro desta solução?

Acredito. O PS, o PCP, o BE têm dado um exemplo ao país de responsabilidade e temos que enaltecer o esforço de todos, sem exceção.

A maioria que apoia o governo anda a duas velocidades nas questões laborais. Não acha que podem ser precisamente estas matérias a causar problemas?

Não me parece. Por duas coisas. A esquerda que apoia o governo no parlamento, se há coisa que não quer voltar a ver é a direita no poder. Portanto fará tudo, tudo, para que o PS continue a ser governo. Em segundo lugar, a mesma esquerda tem percebido que o governo não apostou na desvalorização da concertação social, pelo contrário...

O que não agrada nada à esquerda...

Pois, mas agrada ao PS e ao governo. E à UGT, que tem uma maioria socialista que se revê claramente nesta forma de governar. Se a esquerda queria condicionar o executivo, tivesse aceitado ir para o governo. Não quis, não esteve lá, não deu a cara pela governação. Então, negoceia até onde pode, mas quem tem a última palavra é o governo.

Os partidos da esquerda querem ir mais longe, e mais rápido, nas medidas de alteração às leis laborais...

Mas nós também queremos. Eles não são mais rápidos que a UGT a querer o aumento do salário mínimo, o combate à precariedade, a integração dos precários no Estado, não querem ir mais depressa do que nós. Mas há uma coisa de que se esquecem, de que não querem saber: quanto é que isso custa ao país, se aqueles que criam emprego, que são as empresas, estão preparados para acomodar essa exigência e essa rapidez. Quem está no poder tem de perceber - o governo percebe, e se um dia o PCP e o BE estiverem no governo também vão ser obrigados a perceber - que uma coisa é o discurso e outra é a prática. Aliar uma à outra é ter um discurso de responsabilidade e não de demagogia nem de populismo. O governo tem revelado responsabilidade, para não dar uma imagem de negligência na Europa, porque nós ainda devemos dinheiro e temos que ter uma posição de responsabilidade. Acho que esquerda, apesar de tudo, tem percebido isso.

O movimento sindical tem sido acusado de se ter silenciado com este governo. Admite que há aqui umas tréguas?

Admito que a CGTP está num low profile e que tem permitido a governação com paz social. A UGT nunca alinhou nos combates gratuitos ao governo, a qualquer governo. Com o mérito ou demérito que lhe é atribuído - cada um faz a sua leitura - teve uma atitude, na minha opinião de grande responsabilidade. Embora não tenha sido eu assinar o acordo de 2012, defendo-o. Está por provar o que é que custaria aos portugueses a aplicação pura e dura do memorando da troika. Só a história é que fará este julgamento à UGT.

A assinatura desse acordo teve custos para a imagem da UGT?

Claro que teve. Mas acho que uma parte da sociedade portuguesa já percebeu o que é que isso custou à UGT. E percebeu que é preciso inverter esta tendência de a UGT ser o parente pobre, o bombo da festa desta situação. A UGT deu o corpo às balas num momento difícil da sociedade portuguesa. Pode escrever isto: se a UGT não tivesse assinado o memorando não tinha havido empréstimo de 78 mil milhões de euros e o país estava na bancarrota.

A convergência entre centrais sindicais era um dos objetivos do seu mandato. Mantém para o futuro?

Tenho que reconhecer que esbarrei contra um conjunto de preconceitos e de formas de pensar e de estar muito consolidadas no tempo e, acima de tudo, numa determinada ideologia. O PCP controla claramente a CGTP, ninguém diz que isso é mentira, a maior parte dos dirigentes são militantes do PCP e até são membro do Comité Central - o que não é pecado nenhum, eu também sou dirigente nacional do PS. Mas há partidos onde uma certa fidelidade às orientações ideológicas é mais profunda e há outros em que a liberdade de pensamento e de atuação é visível. É o caso daqueles que estão na UGT e, de uma forma geral, noutros sindicatos independentes. Agora, em Portugal pergunta-se muito porque é que não há convergência das centrais. Da mesma forma que não há convergência entre as centrais em toda a Europa Ocidental.

A própria UGT não tem tido uma posição mais dura? Por exemplo, em relação ao último acordo de concertação?

Havia aqui um esvaziamento evidente da concertação social em detrimento dos partidos que estão no parlamento, houve uma tentativa de desviar [da concertação social] para o parlamento um conjunto de matérias. E quando foi encontrada uma solução para resolver o problema da TSU [o Pagamento Especial por Conta], a CGTP preparava-se para assinar o acordo. E nós demos um murro na mesa. Mas o que é isto?! A CGTP ia ficar com o lombo e nós com os ossos. Nós é que andámos a dar o corpo às balas no país a defender o acordo de concertação social, e a CGTP, quando houve acordo, com luz verde dos partidos, "ah, agora também vamos assinar". Não, não é aceitável do ponto de vista ético e institucional.

Há um clima de maior animosidade?

Não. Às vezes é preciso pôr os pontos nos is. Eles fazem-no com regularidade. O que é hábito é a CGTP atacar a UGT, ou porque é divisionista, ou porque é amarela, ou porque faz o jeito aos patrões ou porque é muleta do governo. O que não era habitual, o que foi talvez atípico, foi a reação da UGT.

O governo apresentou um primeiro esboço nas reformas antecipadas. Era o que estava à espera ou ficou aquém?

Está um pouco aquém. Estava à espera dos 60 anos e dos 40 anos de descontos. Mas o governo disse que isto é um pontapé de saída, foi uma primeira reunião. O ministro mostrou-se a aberto a discutir e o que ficou combinado é que iremos apresentar os nossos contributos.

Numa entrevista ao semanário Expresso, no ano passado, queixou-se da vida difícil que tem um secretário-geral da UGT, das dificuldades de conciliação com a vida pessoal. Mantém essas reservas?

Mantenho. Tentei encontrar alternativas, no seio da minha central sindical, para que alguém se posicionasse para este próximo mandato. Não consegui. Tive azar. Olhe, é a mesma coisa da convergência com a CGTP, não consegui. Tenho consciência plena de que estas coisas não são fáceis, não se tira o chapéu e vem aí um candidato. Mas vai ter que acontecer. Preferia que fosse agora, não foi, vamos preparar o futuro de uma forma calma.

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