"A transição do governo para a oposição está a ser traumática"

Pedro Duarte, ex-lider da JSD e diretor de campanha de Marcelo nas Presidenciais, vai falar no Congresso, mas defende que "o PSD não pode viver permanentemente à espera de que o governo caia na semana a seguir"

Acredita que o líder do PSD vai enfrentar oposição no congresso?
Espero que não. O congresso pode ser uma oportunidade interessante para discutir ideias e a estratégia do partido para o seu futuro e para o país e - se misturarmos isso com considerações de índole pessoal ou de protagonistas - pode prejudicar-se a liberdade para serem discutidas ideias sem daí haver qualquer consequência do ponto de vista da disputa de poder.
Um dos desafios do PSD neste congresso é a capacidade de renovação?
Defendo mais uma renovação de ideias e de estratégia. Julgo que os rostos são irrelevantes. O essencial é renovar a estratégia. Prefiro que haja uma revitalização de alguns órgãos que têm estado moribundos no partido, como o gabinete de estudos ou o Instituto Sá Carneiro, do que propriamente ver alterações de fachada noutros órgãos nacionais.
Um gabinete-sombra era um bom caminho para o PSD ser dinâmico?
A questão de operacionalizar tem de ser muito à imagem do líder e, portanto, é a forma como o líder achar melhor. Não me parece que seja crucial que se institucionalize um governo-sombra, mas é importante que o PSD crie um grupo alargado de pessoas que possam ser protagonistas.
Estaria disponível para integrar a direção deste líder?
Estou totalmente disponível para contribuir com ideias e com uma participação cívica na vida política. Mas nesta fase da minha vida estou indisponível para regressar à política ativa.
É apontado como potencial cabeça de lista ao conselho nacional. Parece-lhe mais adequado?
Sinceramente, estou fora desse campeonato.
Marques Mendes disse no domingo que tinha dúvidas se Passos era um líder transitório ou definitivo. Partilha desta dúvida?
Que os tempos são difíceis para o PSD não há qualquer dúvida. Todas as mudanças de transições de governo para a oposição foram traumáticas no PSD e esta não foge à regra. Mas o líder do partido tem todas as condições para encetar esta nova fase. Assim queira perceber que, de facto, é uma fase diferente.
Vamos a uma questão mais ideológica: o slogan "social-democracia sempre", acha que o PSD nos últimos cinco anos tem sido social-democrata?
Com exceção de Cavaco Silva, nenhum primeiro-ministro do PSD teve até hoje a liberdade para executar o seu programa da forma que desejaria. Não estou muito preocupado em olhar pelo retrovisor e perceber o que se passou nos últimos anos, estou mais preocupado com o papel que o partido pode desempenhar nos próximos anos. E penso que há uma visão social-democrata para o país que deve ser assumida pelo partido.
Disse recentemente que o Passos Coelho de há cinco anos precisava de um upgrade. O líder já iniciou o upload?
O partido, desde as legislativas, tem vivido uma fase de transição e portanto o congresso é o momento-chave para se perceber se há efetivamente uma inversão estratégica. Espero poder contribuir para que haja, de facto, um refrescamento de ideias e principalmente que o partido olhe menos para trás e mais para o futuro. E tenha capacidade de pensar o país num prazo razoável, de dez a 15 anos, se for preciso. O PSD não pode viver permanentemente à espera de que o governo caia na semana a seguir.
E que ideias são essas?
O país tem de ter ambição de ser melhor do que os outros em várias áreas. A qualificação das pessoas e encontrar novos modelos de crescimento económico é fundamental. O modelo de governação do Estado e de reforma não pode ser mais do mesmo. E tem de ser alterado de forma radical.
Passos foi eleito com 95% dos votos, mas fala-se de sucessão. Sente-se confortável por ser um dos nomes apontados para o pós-Passos?
Nesta fase da minha vida está completamente fora do meu horizonte. Mas esta minha posição de princípio, que hoje é completamente convicta, pode um dia vir a ser reequacionada.
No partido há outras personalidades que possam ser bons líderes?
Em tese, não tenho dúvidas de que teria. Mas esse não deve ser um assunto. Um dos grandes ativos que o PSD tem hoje é a credibilidade, a preparação, até técnica, e a seriedade intelectual do seu líder. Estas três características são um extraordinário ativo para o partido, são uma base excelente.
Já foi pré-anunciado um confronto para o congresso. José Eduardo Martins disse que irá ao congresso criticar a atual direção.
Tudo o que seja discussão de ideias parece-me muitíssimo importante, e era o que faltava que estivéssemos à espera de unanimismos ou de vassalagens no congresso. E por isso, independentemente de eu em relação ao passado não ter a mesma posição de José Eduardo Martins, acho que é muitíssimo valiosa a sua participação no congresso.
Foi diretor de campanha de Marcelo Rebelo de Sousa. Que avaliação faz deste início de mandato?
O Presidente Marcelo tem cumprido todas as melhores expectativas que os portugueses dele tinham. Está encontrado o registo adequado para a função presidencial.
Mas alguns setores PSD estão zangados com uma alegada aliança com António Costa?
Admito que haja alguma emoção partidária que por vezes não consiga ter o discernimento suficiente para perceber o que se está a passar. Se alguém estava à espera de que o professor Marcelo fosse assumir o lugar de Presidente a olhar para o interesse do PSD, enganou-se rotundamente.
E como avalia, já agora, os primeiros meses de António Costa?
Com muita preocupação, porque os sinais que são dados são num sentido muito negativo. Vejo muitas semelhanças com a ilusão socrática que tivemos nos anos que nos levaram a uma bancarrota. Há ainda outro problema de fundo na sociedade portuguesa que é a forma como PS dobrou a espinha perante partidos que não se reveem na democracia ocidental que adotámos em Portugal.
O congresso também pode definir a relação com o CDS?
Parece-me claro que o CDS decidiu, com toda a legitimidade, seguir o seu próprio caminho e isso deve fazer com que o PSD decida seguir também. O que não significa que um dia mais tarde não venham a reencontrar-se.
O partido parece passar por momentos complicados também nas autárquicas, com dificuldades a ter candidatos para Lisboa e Porto.
Como estou fora da política ativa tenho dificuldade em medir as questões locais. Mas o congresso deve criar uma ideia forte de aposta do poder local do próprio PSD, olhar para o país como um todo e defender um esforço sério de descentralização. Diria até uma descentralização regionalizadora, que deve dar poder político efetivo a outros órgãos que sejam gerados em termos locais e regionais. O PSD deve liderar também essa agenda.
A regionalização pode ser uma bandeira do PSD saída do congresso?
A regionalização dita dessa forma, admito que assuste algumas pessoas, mas um caminho de aumento de competências e de legitimidade política por parte de órgãos supramunicipais parece-me fundamental para o futuro do país. Provou-se nos últimos anos que um sistema profundamente centralista, macrocéfalo, como o que o país tem, não tem resultado do ponto de vista da eficácia. Nem para controlar as execuções orçamentais serve.
E não haverá resistência por parte da ala "sulista, elitista, liberal"?
A minha experiência tem mostrado que pior do que os lisboetas são aqueles que veem de fora e se sentam nesses mesmos gabinetes de poder aqui em Lisboa. Portanto, não é um problema de Lisboa contra o resto. É um problema de poder central.

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