"A arte é uma terapia. Até é mais, abre a porta para o mundo"

Pintura, escultura, teatro, música e dança ajudam a melhorar a capacidade de concentração, a criatividade e a autoestima

Quando se senta em frente à tela e agarra o pincel, Maria M., de 59 anos, sente que está a entrar numa terapia. "A pintura é diálogo, é interação. Estar atenta à pintura dá-me traquejo para a leitura e para a a escrita, que são portas para o mundo", diz ao DN. É doente bipolar e sofre de "depressões muito grandes", o que levou ao seu internamento, há um ano e meio, na Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, uma unidade gerida pelas Irmãs Hospitaleiras. "Entretanto fiz um curso de pintura de Coimbra do século XVII, que foi ótimo. Deu-me mais certezas de que é esta via que quero seguir. A arte é uma terapia. Até é mais do que isso".

Trabalhos como aqueles que são realizados por Maria estiveram em exposição no Parque das Nações, no XIII Congresso São João de Deus, que este ano teve como tema "Psiquiatria e Saúde Mental 100 (sem) tabus". Um evento organizado pelo Instituto Hospitaleiro de São João de Deus e pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, onde foram abordados temas como patologia psiquiátrica, abordagens terapêuticas, estigma, prevenção e reabilitação.

Helena Silva, terapeuta ocupacional na Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, explicou ao DN que "a arte é usada como um recurso terapêutico, nas suas mais diversas formas, como a pintura, o desenho, a música, a escultura, a literatura, a dança e a representação". É facilitadora "da expressão de sentimentos e emoções". E funciona como "mediadora".

Os ateliers estão abertos todos os dias, mas os utentes só os usam quando "acham que é benéfico". Há pessoas que já tinham contacto com a arte antes do internamento, mas para muitas é algo totalmente novo. "O objetivo não é que façam grandes obras de arte, mas que se consigam expressar", sublinha a terapeuta, destacando que é usada em doentes com "depressão, esquizofrenia, perturbação bipolar". E também em pessoas ansiosas e com dificuldade em controlar os impulsos. "Ajuda muito a melhorar a capacidade de concentração, de controlar o pensamento. Algumas pessoas têm delírios e alucinações, e com a arte conseguimos redirecionar a atenção para o momento".

Pessoas que chegam à instituição deprimidas, com uma grande tendência para se isolarem, conseguem "exprimir-se através de uma pintura, de um desenho". Foi o que aconteceu com A., agora com 46 ano, a viver na Casa de Saúde há dez. "Inicialmente fazia desenhos no quarto, depois passou a ir pintar para o atelier. Foi uma forma de se expressar e de interagir com os outros", conta Helena Silva. A. pinta sobretudo autorretratos. "No início fazia um semblante triste, com cores escuras. Depois começou a usar cores alegres, outra postura".

A terapeuta recorda o caso de um outro utente, um homem, de 48 anos, que usa a música como terapia. "Sofre de esquizofrenia. Já tinha contacto com a música antes do diagnóstico da patologia. Aqui, compõe e canta as próprias músicas, o que lhe permite expressar-me e ajuda-nos a compreender melhor como se sente", refere, destacando que "está comprovado que a arte tem benefícios no tratamento das pessoas com doenças mentais".

Arte-terapia

A arte não substitui o tratamento psiquiátrico, mas pode ser usada como mais uma ferramenta de intervenção. Embora a utilize como recurso terapêutico, Helena Silva diz que o que faz não é a arte-terapia, já que "esta requer uma intervenção mais estruturada, com características muito específicas".

Contactada pelo DN, Daniela Martins, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia, explica que este método de tratamento psiquiátrico implica "uma intervenção estruturada com expressão artística com pacientes com doença mental, que frequentam hospitais ou estão em internamento". Pode ser individual, mas geralmente existe uma dinâmica de grupo. "É uma atividade continuada, mas não há exposição das criações. Não é um trabalho artístico, é criativo", indica, destacando que é aplicada a qualquer faixa etária.

Segundo a arte-psicoterapeuta, esta é uma forma "de trabalhar a autoestima, a autoconfiança". E não há a preocupação de interpretar o trabalho do utente. "O objetivo é que a pessoa encontre significado para a sua criação. A arte estimula o imaginário simbólico da pessoa". Pode começar com "um boneco de palito", mas vai-se desenvolvendo à medida que o processo avança.

Com a arte, há um recurso à imaginação, ao simbolismo, às metáforas. Daniela Martins conta que "o desenvolvimento criativo permite encontrar significado para a vida, saídas mais criativas para os problemas". A criatividade, frisa, é muito importante para a saúde mental. "Se a pessoa não consegue resolver problemas, surge a depressão". Nesta intervenção, avança, prevalecem as artes plásticas.

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