XV Legislatura. "São tantos os deputados do PS..."

O deputado do PSD Alexandre Poço sintetizou num desabafo o medo que a oposição tem que a maioria absoluta bloqueie as propostas dos outros partidos. Mas o PS mantém que defende o diálogo.

São tantos os socialistas..." O desabafo do deputado social-democrata e líder da JSD, Alexandre Poço, retrata o sentimento que reina na oposição sobre a maioria absoluta do PS e que vai marcar os próximos quatro anos. Os novos deputados, muitos estreantes mesmo - que esta terça-feira no arranque dos trabalhos parlamentares esperavam em fila pelo registo do seu mandato no Salão Nobre - expressavam esse desejo que esta Assembleia da República não fique só dominada pelo tom rosa.

"A última maioria absoluta do PS não deixou boa memória, enquanto português faço votos que esta tenha resultados diferentes para os portugueses", afirma ao DN Alexandre Poço. Admite que o seu próprio partido, que tem eleições para uma nova liderança em finais de maio, precisará de "ser criativo" para ultrapassar o facto de não ir ter o líder entre os deputados. "Já aconteceu no passado, mas o que importa é que o partido fale a uma só voz e faça uma oposição combativa ao governo".

Nos quinze minutos que durou a tomada de posse dos novos deputados, ainda durante a manhã, Rui Rio, ainda líder social-democrata, não esteve no hemiciclo e a bancada ficou por sua conta e risco. Um deputado estreante do partido, Joaquim Sarmento, que é presidente do Conselho Estratégico Nacional do PSD e fez uma pausa sabática para assumir o seu mandato, não vê "desvantagem" em não ter uma futura liderança do partido na AR porque, diz, será o tempo "do próximo líder restabelecer a ligação do partido com o país. E à bancada competirá bater-se pelas propostas e evitar que "a maioria absoluta do PS seja uma tentação para o poder absoluto e servir para ser reformista e voltar a pôr a crescer um país que está estagnado há 20 anos".

Além do frenesim do primeiro dia, de entrevistas e conversas em catadupa, há outras imagens que ficam gravadas. Como a da antiga sala do grupo parlamentar do CDS ocupada pelo do Chega, que tem agora 12 deputados. É aqui que o líder parlamentar da bancada de André Ventura, Pedro Pinto, promete que "será uma legislatura de combate" - a mensagem esteve nas máscaras com a bandeira portuguesa que todos os deputados usaram na tomada de posse - e em que o Chega voltará à carga com propostas que não vingaram na legislatura anterior, como a reforma do sistema judicial e até o polémico projeto de castração química de pedófilos.

Outro estreante, de uma bancada da Iniciativa Liberal que passou de um deputado para oito, Rui Rocha, eleito por Braga, admite que o PS com maioria absoluta poderá bloquear muita coisa à oposição. Mas, garante, "vamos usar todos os mecanismos democráticos para fazer valer as nossas propostas de transformação profunda da sociedade portuguesa". A "criatividade" é a arma da IL, assume este deputado de 52 anos, que trocou um cargo de diretor de recursos humanos num grande grupo económico por um lugar em S. Bento.

Esquerda combativa

A esquerda perdeu lugares no hemiciclo, vê-se à vista desarmada, mas não a garra no que defende. Os antigos parceiros da geringonça. PCP e BE, prometem fazer frente ao governo. A deputada bloquista Joana Mortágua afirma que "há uma necessidade absoluta do PS não se converter numa força de bloqueio e numa força inexpugnável de proteção ao governo". Por isso, a primeira iniciativa entrou já, uma proposta de mudança do Regimento da AR para que retornem os debates quinzenais com o primeiro-ministro. A que se seguem duas prioridades do BE: o projeto da eutanásia - "faz todo o sentido recuperar o processo que foi interrompido e o consenso que se formou neste debate", diz a deputada - e outro "mais polémico" que visa a discussão dos vistos gold. E perante os novos partidos à direita, sobretudo o Chega, Joana Mortágua é taxativa: "Não deixaremos passar nenhum discurso de ódio ou racista". O mesmo disse o novo presidente da Assembleia da República, o socialista Augusto Santos Silva, eleito esta terça-feira pelos pares.

A nova líder parlamentar do PCP, Paula Santos, assegura que o seu partido continua determinado a procurar soluções com o governo para os problemas nacionais. A deputada que já vai na 5.º legislatura destaca sobretudo "o aumento do custo de vida", a valorização dos salários, o reforço do SNS e a aposta na produção nacional.

Do Livre, Rui Tavares rejeita a ideia de se sentir "deputado único" porque, assegura, não foi eleito sozinho e sente-se a "voz de uma esquerda verde e europeia". Também ele admite que o PS terá uma "tentação para uma maioria absoluta hegemónica", visto que é regra das maiorias absolutas "fecharem-se sobre si mesmas".

Além de fiscalizar a ação governativa, Rui Tavares diz que o Livre apostará em propostas alternativas e concretas para os problemas dos portugueses. E se não for possível levá-las por diante na Casa da Democracia, "saímos para a sociedade civil para alargar o espectro do próprio Livre".

A bancada do PS, que cresceu para 119 mandatos, também tem os seus "novatos". Bem, "não sou bem um novato", diz Francisco César, apesar de estar pela primeira vez na Assembleia da República. Isto porque o filho do antigo presidente do governo regional dos Açores e deputado do PS Carlos César já cumpriu 13 anos na Assembleia Legislativa Regional, onde foi líder parlamentar. "Mas esta é uma experiência nova e interessante. É um parlamento com mais esteroides (no bom sentido), com mais desafios", admite. Francisco César defende que mesmo com maioria absoluta o PS "no que for possível deve dialogar com a oposição".

Mais nervoso e totalmente inexperiente nas lides parlamentares - "eu que não sou advogado como vou conseguir falar...", confessa o seu medo - é outro deputado estreante do PS José Carlos Barbosa, mas acumula experiência autárquica. Presidente da Junta de Beire, Paredes, leva por missão dar continuidade ao seu trabalho como diretor de engenharia da CP. Lê-se nas suas palavras a paixão pela ferrovia e por todos os projetos que aí vêm neste setor. Neste terreno move-se com desenvoltura, já no primeiro dia de Parlamento regista que "é como chegar pela primeira vez à escola, numa casa de protocolo em que a integração entre 119 deputados é difícil. Mas é uma responsabilidade e uma honra."

paulasa@dn.pt

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