Rui Tavares: "Estaremos sempre a apresentar propostas de futuro, ideias novas"

As diferenças entre o Parlamento de Estrasburgo e o de Lisboa são muitas. A sensação de falta de autonomia e responsabilidade individual dos deputados é o que mais desagrada ao estreante. O futuro? A crença de que as pessoas já sentem no Livre um "partido viável".

Quais as principais diferenças entre ser eurodeputado e deputado?
Sinto falta de uma coisa que aqui não me parece ser habitual, que é ver entregar projetos de resolução ou propostas de lei entre deputados de vários partidos ou grupos políticos. Aqui, quando temos um tema que é altamente consensual há lutas de conjunto. Aqui, a lógica é mais cada partido entregar por si coisas que são pouquíssimo diferentes ou que andam à procura de ter uma diferença, ou então são matérias consensuais.

E em Estrasburgo?
No Parlamento Europeu acontece muito haver um deputado dos verdes, um deputado dos socialistas, um deputado dos liberais, que têm algum assunto que é do seu interesse comum e entregarem uma proposta conjunta. Foge-se um pouco à coreografia a que assistimos aqui em que é raro ver os partidos concordarem.

Aqui é mais "tribal"?
Tem esse lado, mas não é um tribal de agressividade, mas é ritualizado, por assim dizer. Já há muitos anos, antes de chegar aqui, falei com o presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, na altura Artur Santos Silva, e dizia que tinham feito um enorme trabalho sobre o SNS, que tinham falado com todos os grupos parlamentares e que todos tinham concordado numa série de princípios que a Fundação Calouste Gulbenkian queria juntar numa espécie de carta que todos assinassem. Quando chegou a altura de fazer isso público, toda a gente disse que concordava, mas que não queriam assinar nada. Ou seja, o tabu era serem vistos a concordar.

"Um historiador e cronista trabalha principalmente em casa, tenho saudades de escrever tanto como escrevia nessa altura."

O que é que lhe desagrada nesta casa?
Tenho a sensação de que aqui os deputados estão mais inseridos na hierarquia partidária e têm menos autonomia e responsabilidade individual, em comparação com o Parlamento Europeu. Para o Parlamento Europeu vão, muitas vezes, deputados que já são um pouco fora da caixa nos seus partidos, nomeadamente nos partidos maiores e depois, lá, estão integrados noutros grupos parlamentares ou partidos europeus que têm outra cultura parlamentar ou que, pela dimensão das coisas, são obrigados a delegar.

O que é que espera ao fim dos quatro anos aqui?
O Livre faz a sua trajetória e vai ser sempre construtiva e clara nos princípios, independentemente da configuração deste Parlamento. O tipo de coisas que o Livre quer fazer, que é trazer ideias novas, algumas concretizá-las e outras promover o debate acerca delas, porque é assim que tiramos o debate público do monopólio dos populistas. Isso já está a acontecer, estamos a falar da semana de quatro dias, estamos a falar e a implementar o alargamento do subsídio de desemprego às vítimas de violência doméstica. Estamos sempre a apresentar propostas que são propostas de futuro. Há umas que passam, outras não, mas é assim que se abre o debate.

Como é que projeta o futuro do Livre?
É de crescimento e de estabilização. As pessoas hoje sentem que o Livre é um partido viável, sentem que esta esquerda verde europeia tem representação, mas precisa de ser alargada. Creio que os próximos anos vão servir para isso. É muito curioso que acreditar nas alterações climáticas, acreditar na ciência e promover a cultura científica, aceitar e tolerar estilos de vida diferentes, orientações sexuais diferentes, nestes temas Portugal aparece muito alinhado nestes valores com os países escandinavos.

Onde é que há diferenças?
Na confiança na política, confiança na participação cívica, confiança nos partidos políticos, aí estamos lá em baixo com os países do Cáucaso. O que provavelmente também não é justo, mas isso significa que as propostas de uma ecologia política progressista, que é o que trazemos, têm todo o espaço para crescer.

Consegue perceber, agora que está aqui dentro, porque é que os portugueses têm essa perceção dos partidos e da política?
Portugal é um país que saiu de 48 anos de ditadura e passou, na estabilização democrática, para uma política um pouco rígida, estruturada só à volta dos partidos. É preciso em Portugal, não só na política, mas também na Educação, por exemplo, valorizar mais a responsabilização individual e a autonomia das pessoas. E há boas surpresas aqui no Parlamento, há colegas com excelentes percursos, pouco conhecido dos portugueses, o que, como cidadão, me deixou agradavelmente surpreendido. Até diria que me deixou descansado saber que há aqui deputados que não são os que aparecem mais, mas que têm excelentes percursos do ponto de vista profissional, técnico, e que têm sentido de causa pública. Pergunto-me porque é que os partidos, nomeadamente os grandes, não deixam essa qualidade aparecer mais, dando mais autonomia a esses deputados.

O que é que mudou na sua vida?
Um historiador e cronista trabalha principalmente em casa, tenho saudades de escrever tanto como escrevia nessa altura. Curiosamente, às vezes estar no centro institucional é a maneira mais certa de não estarmos tão informados quanto estávamos fora. Quando estava fora tinha tempo de ler o jornal todos os dias e aqui temos estas pilhas de papéis para ler.

Consegue orientar-se bem aqui dentro ou ainda se perde?
Oriento-me bem, o meu principal problema é ter má memória facial, algo muito chato para quem vê dezenas de pessoas todos os dias. Lembro-me dos nomes das pessoas e às vezes até da última conversa que tivemos, mas tenho dificuldade em lembrar-me de caras.

artur.cassiano@dn.pt

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