Rio acena com saída. "Não vejo como posso ser útil com maioria absoluta do PS"

Líder do PSD assumiu por inteiro a responsabilidade da derrota, que atribuiu a um "fenómeno esmagador de voto útil à esquerda". E com a sombra de uma maioria absoluta de António Costa, assumiu que é desta que pode atirar a toalha. mas "o partido decidirá"..

As projeções das televisões gelaram a sala. Não havia muitos notáveis, mas os militantes que acompanharam ontem num hotel de Lisboa a noite eleitoral do PSD ficaram em silêncio. E mais silêncio. Nos écrans dos canais generalistas o PS aparecia sempre à frente do partido e até com margem para ter maioria absoluta. Alguém do canto da sala ainda gritou "PSD, PSD". As mãos com os dedos em "v" ergueram-se e o cântico durou escassos segundos.

Mas palmas calorosas receberam Rui Rio quando entrou na sala pelas 23.15. O líder social-democrata assumiu por inteiro a derrota eleitoral, apesar da "excelente campanha que fizemos". O resultado, disse "é muito longe do que entediámos que íamos ter. Mas se fizesse outra campanha não teria forma de dizer as coisas de forma diferente", assegurou, depois de e enumerar as seis grandes bandeiras do partido na corrida às legislativas.

Rio sublinhou aos militantes que o PSD até teve mais votos em todos os distritos do que em 2019 - quando conseguiu 27,76% dos votos. Mas, "houve um fenómeno de voto útil à esquerda absolutamente esmagador", disse. Argumentou que o mesmo não aconteceu à direita, onde houve dispersão de votos pelo Chega de André Ventura e pela Iniciativa Liberal de João Cotrim Figueiredo.

O presidente social-democrata insistiu na ideia que o PS e António Costa - a quem felicitou pelo telefone - foi eficaz a a movimentar a esquerda para a votação no partido convencendo o eleitorado que "era a única forma de evitar que o PSD nomeasse um primeiro-ministro".

Ainda sem assumir, mas com a sombra a pairar, Rui Rio apontou para o desfecho da sua liderança caso se confirmasse que o PS conseguiu a maioria absoluta: "A minha função aqui é a de prestar serviço ao PSD e a Portugal. Se se confirmar que o PS tem maioria absoluta, tem um horizonte de governação de quatro anos. O partido decidirá. Mas não estou a ver como posso ser útil com mais quatro anos em cima."

"A minha função aqui é a de prestar serviço ao PSD e a Portugal. Se se confirmar que o PS tem maioria absoluta, tem um horizonte de governação de quatro anos, não estou a ver como posso ser útil com mais quatro anos em cima."

Um jornalista insistiu na pergunta: "Mas demite-se?". Rio respondeu-lhe em alemão, o que usou algumas vezes quando quis fazer perceber aos jornalistas que estavam a pedir-lhe para repetir o que já tinha dito. O jornalista protestou pela resposta "em língua desconhecida". "Eu antes respondi em português...", argumentou Rio.

As suas palavras são transparentes sobre a vontade de continuar a comandar o PSD se o PS, com maioria, não necessitar de dialogar com os outros partidos, nomeadamente com os sociais-democratas para levar por diante o seu programa e os Orçamentos de Estado. "Não é preciso fazer um drama", frisou ainda, apesar de ter sido eleito há menos de dois meses e depois de uma luta acesa com Paulo Rangel.

Mas ao seu estilo, o líder do PSD não quis encerrar este capítulo, de duas eleições legislativas em que perdeu para os socialistas, sem puxar pela sua costela de gestor e economista. "Fizemos resultados substancialmente abaixo do que pensávamos que íamos ter, mas não há qualquer défice ou qualquer dívida por culpa desta campanha eleitoral.

Expectativas goradas

Rui Rio chegou "com tudo em aberto", com a mulher a a filha, e montou quartel-general no 10.º andar do hotel, onde esteve toda a noite com a sua gente de confiança, entre os quais David Justino, Joaquim Sarmento, Salvador Malheiros e José Silvano. Demorou a descer, mesmo quando o país já estava muito pintado de rosa. Esteve à espera de saber se PS conseguia mesmo a proeza da maioria absoluta.

Durante toda a noite os telemóveis serviram para ir fazendo contas aos votos. O desapontamento foi crescendo. "A gestão das expectativas...", disse ao DN o antigo deputado Jorge Paulo Roque da Cunha, o médico sindicalista que tem feito forte oposição ao governo, numa clara alusão ao facto de todos esperarem pelo menos um resultado muito próximo do PS ou até a vitória.

"Rio não conseguiu o mesmo que Costa, cativar o voto útil à direta, foram votar no IL e no Chega", argumentava mesmo ao lado um militante. "E o facho ficou em terceiro?", questionava outro, ainda com muito do país para apurar.

A vice-presidente do PSD Isabel Meirelles assegurou aos jornalistas que "Rui Rio é muito resiliente", ou seja, que não se demite, mas "não estamos satisfeito", até porque "não percebemos porque os portugueses preferiram o PS.

O líder da JSD, Alexandre Poço. que não apoiou Rio nas diretas do partido aligeirou o peso da derrota. "Sabemos da tendência de voto útil no PS".

Até ao discurso do líder do partido, as conversas de corredor giraram sempre em torno dos tombos da esquerda, que deram renovado fôlego aos socialistas e a António Costa e as subidas da direita, que rivalizou com o PSD. "Foram os jovens que votaram IL e é preciso não esquecer que o Chega teve na corrida um candidato presidencial", digeriam outros dois militantes em conversa reparadora.

O vencedor autárquico do partido, Carlos Moedas veio até ao hotel para dar um abraço a Rio e ao PSD. "Estarei em todos os momentos. Nos momentos bons e nos mais difíceis. O PSD fez uma campanha muito digna." A imagem do presidente da Câmara de Lisboa nas televisões desencadeou um mais vigoroso "PSD, PSD" na sala que esperava pelas palavras de Rio.

paulasa@dn.pt

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