"Portugal não nos conhece. O país não está preocupado com quem vive fora"

Nathalie Oliveira, deputada do PS, nasceu em França, tem 44 anos, é "filha do salto" e quer reconciliar "quem está dentro e quem está fora" do país. Mudança essencial? Alterar a lei eleitoral.

Nathalie ou Natália?
Os meus pais quiseram e registaram na certidão de nascimento o meu nome: Nathalie. O que aconteceu é que até 1983 todas as crianças, filhas de pais portugueses, que nasceram no estrangeiro, como eu em França, quando iam fazer o registo no consulado não podiam ter o nome do país de acolhimento, o que estava na certidão de nascimento. Tinha que ser tudo traduzido para português.

Por isso é que na sua ficha no Parlamento é Natália.
Para já, sim. Ainda pedi, aqui aos serviços, se podia aparecer Nathalie Oliveira, mas disseram que não, que não podia ser. Tenho que resolver isso na conservatória. Sabia que há milhares e milhares de portugueses de segunda geração com este problema? Pessoas a quem traduziram o nome? Esta é uma das coisas que gostava de ver resolvida, que a lei fosse alterada e que os trâmites para ficar com o nome de nascimento fossem gratuitos porque são muito caros. E isso não faz sentido. Desde criança até agora o meu nome de nascença, o que está na certidão de nascimento, sempre foi Nathalie. Mas com a tradução no cartão de cidadão está Natália. Há que mudar a lei e tornar os trâmites legais gratuitos porque é caro.

Por que razão é militante dos dois PS, o francês e o português?
O meu relacionamento com a história e causa dos portugueses no estrangeiro antecedeu a filiação aos partidos, ao PS francês e ao PS português. E isto apesar de sempre ter havido em minha casa um grande fascínio por Mário Soares, uma das grandes figuras políticas que trouxe a liberdade a Portugal. O primeiro convite que recebi de Portugal ainda foi no mandato do José Cesário [então secretário de Estado das Comunidades Portuguesas], em 2003, para participar num encontro, na plataforma de lusodescendentes, em Lisboa. Filiei-me no PS francês quando chegou a Sególène Royal, já tinha trabalhado com eles em 2004, nas eleições europeias, mas foi quando ela chegou que começou essa história com o PS francês. E fiquei adjunta [do presidente da câmara] com a vitória nas autárquicas, em 2007, a primeira vez em 200 anos que Metz, uma terra democrata cristã, uma terra de direita, mudou para o PS. E foram dois mandatos: de 2008 a 2020.

E agora, aqui?
Fisicamente foi um tsunami. Foi uma emoção do tamanho do mundo, não apenas da Europa. Isto é um grande desafio. Senti o peso das pedras, da história, pensei no meu pai. Fiz um paralelo entre a caminhada dele e a minha. É uma forma de conciliação, uma forma de continuar a escrever a história, mas de forma institucional. Estar aqui é a realização de um sonho, a realização da minha pertença ao ideal europeu. O meu pai é muito típico dos homens do salto e de uma vida construída em França, mas com uma ligação tão forte ao país. E eu estar, agora aqui, a representar essa geração toda e as segunda e terceira gerações é um orgulho. Mas se entrei aqui foi por causa da segunda geração e de uma imigração muito mais recente que votou mais do que aquilo que nós pensaríamos. Sinceramente pensei que o nível de votação fosse bom, estava à espera de uma votação boa para o PS. Eu fui procurar a segunda geração. Sabia que a diferença poderia estar aí. E estava.

Qual é sua grande obrigação?
O meu papel mais importante é de conciliar, reconciliar porque, de facto, Portugal não nos conhece. A sociedade portuguesa, a que nunca deixou o país, tem um conhecimento bastante vago da história da emigração que tem muito de dramático. Portugal não nos conhece. Sinto que o país não está preocupado com quem vive fora, sente-se esse afastamento. É meu dever, além da representação democrática, garantir os direitos da segunda e terceira geração.

E isso é?
É garantir o futuro. O meu papel político é, além de contar essa história, ligar quem está dentro e quem está fora, tentar alterar umas leis, em particular a questão da lei eleitoral.

Mudar o quê na lei eleitoral?
O voto por correspondência tem que ser melhorado. A segurança deste voto pode ser melhorada. O importante é uniformizar as modalidades de voto, harmonizar o voto. E tinha de ser tudo: presencial, por correspondência e voto eletrónico. E em todas as eleições. Acredito que Portugal está em situação de ser vanguardista e de não ter medo de progredir rapidamente nesta matéria. Aliás, sinto que há vontade política para mudar esta lei.

A lei muda-se, mas e o ensino do português que se vai perdendo? Isso não afasta a ligação que tanto defende?
Vai-se perdendo o português, sim. Não se pode ter o ensino do português só nas escolas. Precisamos do ensino digitalizado, precisamos das associações para alargar o acesso ao ensino do português, principalmente chegar à terceira geração. Eu na escola só tive quatro anos de ensino e a seguir a isso nunca mais tive português. Tive inglês, espanhol, italiano, aprendi um bocado de romeno, mas português nunca mais tive.

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