Mariana Vieira da Silva. Da "sombra" de Costa a superministra 

Foi Fernando Medina quem a apresentou a Costa. Desde 2015, quando entrou no Governo, tem galgado degraus na hierarquia do Executivo até chegar agora a número dois.

"Sou uma pessoa irritantemente cumpridora. Se é para fazer, é para cumprir". Aos 43 anos, Mariana Vieira da Silva leva já sete anos de Executivo e, ao XXIII Governo - que toma posse na próxima quarta-feira -, toma as rédeas do ministério mais poderoso na orgânica governativa.

Não são 12, mas são três trabalhos de Hércules. Às funções de coordenação política do Governo, que já desempenhava, Mariana Vieira da Silva soma agora duas áreas que, por si, davam uma pasta ministerial - o Planeamento, que vai gerir o maior pacote de fundos europeus de sempre, nomeadamente o Plano de Recuperação e Resiliência; e a Administração Pública, que neste executivo perde também o estatuto de ministério e passa para a alçada da ministra da Presidência.

Metódica, disciplinada, com uma forte intuição política e, sobretudo, uma enorme capacidade de trabalho são algumas das características que lhe apontam os mais próximos e que explicarão o percurso que, de degrau em degrau, a levou à condição de número dois de António Costa no Governo. "Braço direito" do primeiro-ministro desde 2015, Mariana Vieira da Silva contou há anos, ao Observador, que até debaixo de água - a natação é um hábito que mantém, depois de ter sido nadadora de alta competição - mantinha o relógio ligado para poder atender o primeiro-ministro.

Foi Fernando Medina, agora ministro das Finanças, quem a apresentou a António Costa. "Conhecendo-os, já sabia no que ia dar", contou o ano passado à Notícias Magazine, quando Mariana Vieira da Silva assumiu as funções de primeira-ministra em exercício, durante o período de férias de Costa. Desde então o primeiro-ministro deu sucessivos sinais de confiança na socióloga - uma das ministras mais jovens do Governo -, não só em funções governativas, mas também chamando-a consecutivamente à elaboração dos programas eleitorais do PS ou das moções de estratégia que apresentou aos congressos socialistas. Longe vão os tempos da polémica com a presença de Mariana Vieira da Silva no Executivo, numa altura em que se sentava no Conselho de Ministros ao lado do pai. Em 2019, com José Vieira da Silva ainda no cargo de ministro do Trabalho e da Segurança Social, a presença de pai e filha no Governo foi um dos focos da polémica sobre as relações familiares entre os os membros do Executivo. Vieira da Silva - pai - disse então: "Se a minha filha é membro do Governo não é por ser minha filha, é apesar de ser minha filha". Também Mariana já disse que gostaria de ver chegar o dia em que a filiação já não fosse tema.

Os trabalhos de Mariana

O dia parece ter chegado. O percurso de Mariana Vieira da Silva já a fez entrar no reservado lote de pré candidatos à futura liderança do PS, ao lado de Pedro Nuno Santos, Fernando Medina e Ana Catarina Mendes. Uma porta que a própria nunca fechou, embora dizendo que não faz parte dos seus planos. Face à anunciada concorrência, Mariana Vieira da Silva não tem, no aparelho socialista, o peso do ministro das Infraestruturas ou mesmo da antiga líder parlamentar e futura ministra dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, que foi também secretária-geral adjunta do partido. Mas, em termos executivos, é Mariana Vieira da Silva quem já surge destacada dos seus pares.

Mas esse é um caminho que também passará pelo desempenho nos próximos quatro anos e meio, com pastas potencialmente mais polémicas do que aquelas que liderou até agora. A começar pela gestão política dos dos fundos europeus (que serão executados pelos vários ministérios) e a execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com verbas que deverão ultrapassar os 17 mil milhões de euros, a executar até 2026 - um período coberto, em grande medida, pela vigência do próximo Governo.

Também a Administração Pública passa agora para a alçada de Mariana Vieira da Silva, que ficará responsável pelas negociações com os sindicatos. Uma área que se pode revelar particularmente difícil depois do fim da "geringonça", com os partidos da esquerda sem amarras, novamente na condição de oposição. Na nova orgânica do Governo, o ministério da Presidência perde duas pastas de menor peso: a Cidadania e Igualdade e a Integração e Migrações, que passam para a tutela dos Assuntos Parlamentares.

Uma indefetível sportinguista

Reservada, de Mariana Vieira da Silva sabe-se que é uma indefetível sportinguista - desafiada a assobiar o hino do PS numa participação no programa 5 Para a Meia-Noite (o mesmo onde disse que se é para fazer "é para cumprir"), admitiu que não o conhecia, mas trauteou de cor o do Sporting.

Nascida em Lisboa a 8 de maio de 1978, Mariana Vieira da Silva licenciou-se em sociologia pelo ISCTE, concluindo depois a parte curricular do doutoramento em Políticas Públicas na mesma instituição. Entre 2005 a 2009, a primeira legislatura de José Sócrates, foi assessora da então ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. Já a partir de 2009 passou a adjunta do secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, João Almeida Ribeiro, funções que manteve até 2011.

O percurso governativo de Mariana Vieira da Silva começa em 2015, quando é chamada ao cargo de secretária de Estado adjunta do Primeiro-Ministro, que mantém até ao início de 2019, altura em que substitui Maria Manuel Leitão Marques (que sai para se candidatar ao Parlamento Europeu) como ministra da Presidência e da Modernização Administrativa.

Já depois das legislativas de 2019 é um dos quatro membros do Governo que fica com título de ministro de Estado (que agora desaparece), consagrando assim o seu papel no núcleo duro do Executivo.

susete.francisco@dn.pt

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