Marcelo: "Acredito que ainda vou assistir ao nascimento de uma alternativa de direita"

Presidente da República diz SNS e pensões marcaram os debates das legislativas e que a "especulação sobre a guerra influenciou as legislativas", uma vez que o povo prefere a "estabilidade".

Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu, numa entrevista transmitida esta quinta-feira pela CNN Portugal, que a maioria absoluta do Partido Socialista não o surpreendeu. "Era plausível", vincou, sobre os resultados das legislativas de janeiro.

"Dois temas marcaram os debates: SNS e pensões são dois pontos essenciais na sociedade. Um pequeno aumento das pensões significa muito para uma sociedade envelhecida e para as classes mais pobres", analisou, considerando que a "especulação sobre a guerra influenciou as legislativas", uma vez que o povo prefere a "estabilidade".

O Presidente da República revelou ainda que vai ao Brasil a 7 de setembro, a fim das comemorações do Dia da Independência do país sul-americano, e "está certo" que se vai encontrar com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

"O problema com Bolsonaro foi um não problema", afirmou, acerca do cancelamento do encontro entre os dois chefes de Estado no início de julho, após Marcelo ter decidido encontrar-se com o ex-presidente e atual candidato Lula da Silva. "As eleições no Brasil são imprevisíveis", admitiu, quando a jornalista Anabela Neves o questionou sobre as mesmas.

Marcelo Rebelo de Sousa falou ainda de como mantém a saúde física através de caminhadas nas proximidades do Palácio de Belém ou da sua casa em Cascais, admitindo que, durante as mesmas, chega a falar com "200 ou 300 pessoas" a cada passeio.

Questionado sobre a existência ou não de um racismo estrutural em Portugal, o PR admitiu que "há imensos traços relativos ao império na sociedade" e que "mudar a cultura cívica demora imensas gerações", mas mostrou-se otimista, considerando que as "crianças e jovens repudia totalmente o racismo e discriminações doutro género, como as de cariz sexual".

Marcelo admitiu que fala "à vontade" com quase todos os líderes partidários e que os imigrantes ainda têm uma representação diminuta na Assembleia da República, assim como as mulheres. "Temos uma percentagem baixa de deputadas. Como é possível não haver um protagonismo maior das mulheres na sociedade portuguesa?"

Marcelo Rebelo de Sousa falou ainda do pai, ministro da Saúde durante o Estado Novo, que "sempre foi um defensor do Serviço Nacional de Saúde". "É preciso pôr de pé o quadro jurídico para a reforma do SNS", vincou.

O chefe de Estado diz que a sua proximidade ao público tem que ver com a sua "maneira de ser", até porque foi professor, mas também por ter feito comentários na televisão entre 2000 e 2015. "As pessoas habituaram-se a ver-me como um parente, não como um político", explicou, esperando que seja encontrada uma solução para o novo aeroporto de Lisboa ainda durante o seu mandato.

"Líderes de direita descolaram ostensivamente de mim"

Marcelo Rebelo de Sousa considerou que "os sucessivos líderes de direita" cometeram "um erro" ao descolarem-se "ostensivamente" de si e disse que António Costa percebeu que podia beneficiar da proximidade do Presidente da República.

"Também a direita cometeu um erro que eu nunca percebi. É que os sucessivos líderes de direita, em vez de se colarem em mim, descolaram ostensivamente de mim. E quem é que colava a mim? O primeiro-ministro e o PS", defendeu o chefe de Estado, numa entrevista à CNN Portugal transmitida esta quinta-feira à noite.

Marcelo Rebelo de Sousa disse ainda que "o primeiro que dá alguns sinais de perceber isto é o atual líder do PSD", Luís Montenegro.

"Percebeu que se podia, de alguma maneira, estar ali próximo de alguém que, sem estar a fazer nenhum frete partidário, no entanto, abria espaço. É o que faz o primeiro-ministro desde sempre", continuou.

Segundo o chefe de Estado, António Costa percebeu que havia eleitorados diferentes e que depois "podia cavalgar mais ao centro, beneficiando da proximidade do Presidente [da República]".

"E eu não percebi porque é que o PSD deu de barato, 'olhe, este está perdido. Não dissolveu o parlamento e deixa o primeiro-ministro governar... Vamos ver como isto acaba muito mal para ele e para o primeiro-ministro e tal'", completou.

Marcelo Rebelo de Sousa deixou ainda algumas considerações sobre o primeiro-ministro, dizendo que "ele é muito rápido a sugar as coisas". "Tem-se uma ideia e ele é um mata-borrão. Um bom mata-borrão, porque é rápido", disse, acreditando que, "com alguma sorte", ainda vai ver o "nascimento de uma alternativa de direita" durante o seu mandato.

"Acho que ao fim de x anos é natural que haja uma alternativa que venha a emergir, e que essa alternativa venha a emergir num tempo em que eu já não seja Presidente da República, mas de qualquer maneira assisti à pré-história, ao fazer progressivo dessa alternativa, que começou de facto com o dr. Rui Rio, mas agora tem uma nova face e uma nova oportunidade".

"O centro-direita para chegar ao poder precisa de ter 45%, mas esses 45% têm de ter um motor fundamental. E esse motor tem de ter uma liderança e um discurso que sejam o mais abrangentes possível. Porque isso é que lhe dá força para ter um efeito federador".

O Presidente da República lembrou ainda a época dos incêndios de 2017, numa altura em que Portugal está novamente a atravessar uma crise de fogos florestais.

"Quando houve os fogos houve ali um momento em que verdadeiramente as pessoas tiveram um choque, sentia-se muito, muito, muito o ambiente anti governo. Depois, de tal maneira isso aconteceu, que eu senti mesmo por uma vez que a minha posição de fusível de segurança podia estar em risco se eu não tenho sido bastante brutal na intervenção que fiz", adiantou.

"Porque às tantas já não era só o governo que estava fragilizado, porque eram dois fogos mais Tancos, pelo meio havia Tancos, e portanto era uma dose gigante. Percebi que tive que dizer: atenção, isto não vai tudo por água abaixo", acrescentou.

"Escusas de responsabilidade não valem nada juridicamente"

Na mesma entrevista, Marcelo comentou a crise na saúde, considerando que as "escusas de responsabilidade [do pessoal médico do SNS] não valem nada juridicamente", defendendo que "há casos em que a lei permite [invocar escusa de responsabilidade], mas, em regra, não permite".

"Sob pena de, em diversas atividades públicas (...) sem encontrar maneira de a pessoa poder invocar realidades objetivas, como a falta de dinheiro, a falta de orgânicas, de estruturas, para não cumprir a sua missão", afirmou o chefe de Estado, que adianta que há casos em que pode ser invocado [escusa de responsabilidade], mas sublinha: "é muito importante, em política, quando se tem razão, saber explicar aos portugueses a razão que se tem. Porque, muitas vezes, tem-se razão, mas a não explicação da razão, ou o mau uso da razão, faz perder a razão".

Estas declarações do Presidente da República surgem numa altura em que muitos médicos têm apresentado escusas de responsabilidade por considerarem que não estão reunidas as condições necessárias para desempenharem as funções cumprido as regras da boa prática médica.

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