"Estes 5 rostos tiveram vontade de mudar o país politicamente"

A dois anos do cinquentenário do 25 de Abril, é lançado Os 5 Homens que Mudaram Portugal para Sempre, que retrata, em partes, pontos da vida em comum dos rostos que fizeram a transição para a democracia. "Foram homens magníficos, quer se goste ou não", diz a autora.

Diogo Freitas do Amaral, Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal e António Ramalho Eanes foram "os políticos responsáveis pela transição para a democracia". E, por isso, foram os cinco rostos escolhidos por Isabel Nery, jornalista e investigadora, para escrever o livro que agora é editado. "Não são biografias de cada um", começa por esclarecer, "mas o objetivo foi focar-me entre 1974 e 1976 e olhar para estas cinco pessoas e perceber onde todos se cruzaram", começa por explicar a autora, que acrescenta: "Foi preciso fazer uma investigação muito específica sobre cada um deles, foi um bocadinho uma loucura."

O livro, editado pela Dom Quixote, surge a dois anos do cinquentenário do 25 de Abril. Algo que, garante, é apenas coincidência. "Na verdade, o livro já era para ter saído antes. Começámos [Isabel e o editor Francisco Camacho] a pensar nisto ainda durante a pandemia. Fazer uma biografia é muito difícil, o objeto de estudo são pessoas e tem de estar tudo muito bem justificado, e isso leva tempo", e por isso, explica a autora: "Aquilo que quero dar ao meu leitor é uma coisa ritmada, não podem ser só datas atrás de datas."

Num "período riquíssimo do ponto de vista histórico e político", escolher cinco rostos importantes podia não ser tarefa fácil. "Havia tantas outras hipóteses, podia ser também o Otelo Saraiva de Carvalho, o Vasco Lourenço ou até o próprio Salgueiro Maia." Mas a escolha acabou por recair apenas sobre políticos, porque, considera Isabel Nery, "os militares tiveram um papel importante, sim, até para travar uma eventual guerra civil, mas os políticos, bem ou mal, acabaram por fazer a transição para o regime democrático, em que há ali um período em que os militares são importantes. Isto não significa que não haja outras pessoas com importância nesta altura. Não faltariam rostos sobre os quais falar, mas isso seria outro livro".

Cunhal e Soares deixaram uma marca histórica muito patente ainda nos dias de hoje.

Apesar de estes cinco homens estarem em lados políticos diferentes (Freitas do Amaral e Sá Carneiro à direita, Soares e Cunhal à esquerda, Ramalho Eanes mais neutro), todos acabaram por ter um papel ativo na transição entre o Estado Novo e a democracia. E, segundo Isabel Nery, o país saiu a ganhar com isso: "Uma das coisas mais interessantes que consegui perceber ao escrever o livro foi que, apesar de tudo, Portugal teve alguma sorte em conseguir a conjugação destas pessoas naquele período de tempo. As probabilidades de as coisas correrem mal eram bastante grandes." Isto porque, afirma, "estes homens tiveram, acima de tudo, vontade de mudar o país politicamente, apesar de terem perceções diferentes sobre o que devia ou não acontecer. Houve uma convergência e um aliar de vontades que hoje se vê pouco". E exemplifica: "Sá Carneiro vinha da ala liberal, ainda do antigo regime, zanga-se e, depois de ver que não ia haver qualquer mudança de rumo, sai para tentar um regime mais democratizado." Além disso, segundo a escritora, à exceção de Ramalho Eanes, todos tinham antecedentes familiares de posses. A família de Mário Soares, por exemplo, "era uma família de uma classe média alta, de uma certa burguesia".

Mas, ainda que tenha sido na madrugada de 25 de Abril que o Estado Novo caiu, a luta começou a ser travada muito antes, conta Isabel Nery: "Uma coisa que percebi e me impressionou muito no caso de Mário Soares, foi que esteve preso mais vezes do que Cunhal - ainda que em períodos mais curtos - e esteve 30 anos a batalhar por uma democracia em Portugal, persistindo e acabando até por perder algumas regalias, e acho que não há muito nessa noção histórica", e, fruto dessa luta, "Cunhal e Soares deixaram uma marca histórica muito patente ainda nos dias de hoje".

Por outro lado, a luta acabou por ser "um bocadinho inesperada", se for vista por outro prisma: o de Freitas do Amaral, fundador do CDS-PP. Como explana Isabel Nery, "era amigo e foi aluno de Marcello Caetano, chegou a ser convidado para fazer parte dos governos, foi sempre associado, numa fase inicial, ao fascismo e ao antigo regime, mas recusou-se sempre. Acho até que isto é mais significativo e inesperado, porque mostra a vontade em mudar o rumo do regime político".

Aos olhos da escritora, "todos foram homens magníficos, quer se goste ou não, eram homens extremamente bem preparados - uns melhor que outros -, mas todos com uma vontade enorme."

Com o livro a chegar às bancas por estes dias, falar de outro volume em breve ainda não é assunto na mente de Isabel Nery, mas não fecha a porta a uma eventual publicação.

"Uma biografia de cada um deles não é propriamente lógico, mas um livro sobre este período da história em concreto posso vir a explorar", isto porque, conforme ela, "é só pegar num dia e há imensos acontecimentos. Não vou fazer um livro sobre isso, mas o 25 de Novembro e o 11 de Março são bons exemplos", rematou.

rui.godinho@dn.pt

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