Crise no SNS. Oposição unida nas críticas mas dividida nas soluções

Governo na mira de toda a oposição por causa dos sucessivos problemas nos últimos dias de falta de pessoal médico no SNS. Contudo, quanto às soluções, esquerda e direita dividem-se

Reforçar as ligações do SNS ao setor privado da Saúde ou, pelo contrário, acentuar a separação entre as duas partes do sistema. Direita e esquerda unem-se a criticar duramente a atuação do Governo quanto ao sistema público de saúde - aproveitando a crise que se instalou nas urgências obstétricas encerradas por falta de médicos - mas dividem-se profundamente quanto às soluções.

À direita do PS, o problema parece decorrer, como disse o presidente do PSD, Rui Rio, do "complexo de ordem ideológica" que levou o PS e o Governo a, por exemplo, transferir de novo para a gestão plena do Estado hospitais (como o de Braga) que funcionavam em modo PPP (Parceria Público-Privada).

"Não há efetivamente capacidade de organização e de planeamento (...). Está praticamente tudo mal e sem rumo, com um complexo de ordem ideológica", disse o líder cessante do PSD, falando com jornalistas em Moçambique, país onde se deslocou para celebrar o 10 de junho.

Para Rio, há um exemplo flagrante de quão errado foi acabar com PPP. "Braga era uma parceria público-privada. O Governo disse "vamos acabar com isso porque queremos uma gestão pública". E o que acontece? Até Braga fecha as urgências de obstetrícia."

Ou seja: "O Partido Socialista foi abertamente contra uma cooperação entre o público e o privado, apostando mais no público" e portanto "aquilo que nós temos neste momento é um serviço público completamente degradado". E "há cada vez menos recursos humanos no serviço público: os médicos tendem a ir para o privado, porque não têm recursos", o que provoca "estes problemas que agora estamos a ver de falta de capacidade de resposta".

Já o presidente do Chega, André Ventura, considerou que os hospitais vivem uma situação de "pré caos", sendo necessário "fazer alguma coisa para evitar que isto aconteça".

Falando com jornalistas no final de uma reunião com a administração do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. Sendo esta unidade, como a de Braga, também uma ex-PPP, Ventura sublinharia também essa circunstância. "Nos últimos meses o Governo nada fez para acautelar que quando este hospital foi transformado num hospital público pudesse manter os seus profissionais. Não ir buscar outros profissionais e não conseguir conservar os que já se tinha é uma péssima gestão. Isso significa que estamos agora a enfrentar um problema e não temos profissionais para o resolver", afirmou.

Ventura sublinhou a urgência de o SNS e o sistema privado se complementarem: "Temporariamente, enquanto se mantiver este momento de crise nos serviços, se possa recorrer, ou através de um vale médico ou através de um cheque clínico" a hospitais privados, comparticipando o Estado o atendimento das "pessoas que chegam aos serviços e os veem encerrados por questões de constrangimento pessoal, de covid ou outro motivo qualquer".

À esquerda, Catarina Martins, líder do BE, considerou que a atual crise é totalmente imputável ao PS: "O Governo do PS recusou todas as soluções e, das poucas vezes em que aceitou avanços legislativos, recusou ou travou a sua concretização no terreno". Assim, o que importa fazer, é travar a migração de profissionais para o privado criando a "dedicação exclusiva ao serviço público com incentivo remuneratório de 40 por cento" e dar aos hospitais autonomia administrativa para contratar.

joao.p.henriques@dn.pt

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