Costa Silva: "Até 2030 se tivermos novo cais, Sines passa de 2,2 para 8 milhões de contentores"

No Dia Mundial dos Oceanos, o ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, revela como serão aplicado os 252 milhões da bazuca e os do PT 2030. Conta que este mês chegam a Lisboa 4000 empresários focados em investir na economia azul e que é preciso "um choque" para aproveitar todo o potencial.

Está há dois meses no governo e criou uma task force do mar, com oito grupos de trabalho, que este mês ficou de apresentar um documento. O que é que espera daí?
A expectativa é muito grande, foi logo uma das primeiras iniciativas que tomei, foi sentar à mesa os principais players que temos no país na área do mar, incluindo a Marinha que está a fazer o mapeamento do solo marítimo. O senhor Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o almirante Silva Ribeiro, é um entusiasta da ideia da Universidade do Atlântico. É preciso pôr o conhecimento no centro de transformação da economia do mar. Depois, a Fundação Oceano Azul, o Fórum dos Oceanos, empresas ligadas ao setor. Queremos construir no país o greenshipping em Sines, desenvolver os portos, digitalizar, modernizar e inseri-los na rede internacional. Esse é um dos polos fundamentais da atividade. O segundo, é dar muita atenção às questões financeiras, porque uma das razões pelas quais os projetos da economia do mar avançam aos solavancos, é que não conseguimos combinar o que as nossas empresas fazem - incluindo as start-ups de excelente qualidade que temos -, com o setor financeiro.
A Conferência dos Oceanos vai providenciar esses fóruns e essa interação e, portanto, queria ver se conseguíamos transformar Lisboa numa espécie de praça financeira para a economia do mar. Há muitos fundos internacionais com montantes impressionantes, precisam é de bons projetos.
Depois, temos o setor das energias oceânicas e das energias renováveis. Temos na eólica offshore um potencial imenso e a nossa eólica offshore tem potência suficiente que pode ser importante para se transformar na grande plataforma de apoio ao hidrogénio verde.
Temos os projetos em terra que são muito importantes para o hidrogénio verde, mas o mar vai ser o futuro, com a eólica offshore e a eletrólise da água, diretamente da água do mar. Precisamos de grandes quantidades de hidrogénio para substituir tudo o que se passa na matriz energética atual, que é dominada pelos combustíveis fósseis. Temos também a outra fileira das biotecnologias marinhas, já temos instituições em Portugal que trabalham nesta área, grandes players como a Fundação Oceano Azul e o Fórum dos Oceanos.

Os oito grupos de trabalho vão analisar todas essas áreas. E depois?
Queria que fosse mais que uma análise, queria que fossem planos concretos de ação para fazer acontecer. Outra das razões pelas quais a economia do mar também não tem avançado e consolidado é exatamente porque não há planos de ação e políticas públicas por trás que consigam dimensionar e impulsionar as instituições. A ideia é os players, as empresas, as fundações, os centros tecnológicos, as universidades, em consórcio, atuarem e construírem grandes plataformas para transformar isto.
Precisamos de um plano para as energias oceânicas, as biotecnologias marinhas, os cabos submarinos. Sines e Portugal podem estar no centro das ligações transcontinentais. O país é hoje um dos únicos do mundo que está ligado a todos os continentes e vai passar a estar ligado, portanto, tem uma posição geográfica central e queria que a partir daqui se criasse valor. Isto é, que toda a informação dos cabos se converta em centros de tratamento de dados e processamento, uma das áreas grandes para criar valor no futuro.

O documento já tem data concreta?
Sim, será em meados de junho que vamos receber o documento e sentar os parceiros todos, outra vez, à volta da mesa. Vamos fazer reuniões periódicas e depois em cada área os players identificados vão desenvolver atividades. O mais depressa possível.

Ainda este ano?
Sim, absolutamente. Acho que há um grande entusiasmo ao nível da task force. Aliás, na reunião, alguns dos players que estavam na sala disseram que era a primeira vez que se sentavam todos uns com os outros, e acho que é disso que o país tem falta. O país tem muitas ideias, mas depois não conseguimos agregar e criar plataformas, ter liderança nessas plataformas, com objetivos estratégicos, e depois mobilizar as pessoas para o fazer.

Continuamos a viver num país de quintinhas?
Não tenha dúvida nenhuma disso. Somos um povo muito individualista, falamos pouco uns com os outros, temos esse espírito muito fragmentado. E isso reflete-se nas instituições, não só na Administração Pública, mas no próprio tecido empresarial - é uma espécie de cultura de silos. É o país que perde.
Para o Porto de Sines, para o imenso conjunto de projetos que temos no Porto de Sines, também há uma task force que está criada e que está a trabalhar, agregando as valências todas. Mais do que silos, a comunicação, os objetivos claro, e pôr as pessoas a falar umas com as outras é, em si, transformador.

Disse que na política do mar tem de se começar pela proteção do oceano que está a deteriorar-se a uma velocidade acelerada. Que medidas tomará o seu ministério, juntamente com o Ambiente?
A interação com o Ministério do Ambiente e da Ação Climática é muito boa. Não conseguimos desenvolver a economia do mar se não protegermos primeiro o mar. E a saúde dos oceanos, não só em Portugal, mas no mundo, está a deteriorar-se significativamente.
O primeiro pilar é delimitarmos as nossas áreas, que devem ser protegidas e ter políticas claras para proteger e preservar essas áreas. Além disso, é ter um mapeamento dos ecossistemas marinhos e, nessas áreas que são muito sensíveis, não podemos intervir. Estas áreas têm de ser protegidas.
Temos campos hidrotermais muito ricos em termos de ouro, prata e outros recursos. Defendo que aí não devemos tocar porque há ecossistemas marinhos associados à vida a milhares de metros de profundidade, o que é extraordinário. Essas áreas têm de ser protegidas.
Nas outras - e é o segundo pilar - temos de licenciar para desenvolver a economia azul e, sobretudo, para as biotecnologias, energias oceânicas e desenvolvimento das fileiras alimentares, sobretudo de algas. Penso que vamos ter de mudar algo na nossa dieta alimentar, para aliviar as emissões de dióxido de carbono e porque estamos no meio de uma crise alimentar. A temperatura das nossas águas facilita o desenvolvimento das algas e já temos empresas, também associadas à task force, e outras virão. Também a aquacultura, com tudo aquilo que pode proporcionar um maior aprovisionamento do país.

E financiamento há?
Temos a componente do mar do PRR que tem 252 milhões de euros, tem uma parte para as infraestruturas, a que chamamos hubs azuis, disseminados pelo país. Temos em Lisboa, Oeiras, Peniche, Leixões, Algarve, várias infraestruturas que temos de desenvolver e que são o apoio ao desenvolvimento da bioeconomia azul. Tem também uma componente forte para o cluster do mar dos Açores, outra para o navio da Marinha que vai ser uma plataforma multiúsos para a investigação oceanográfica e mapeamento dos ecossistemas.
O que defendo é que temos de intervir no mar, mas com base no conhecimento, na ciência e na tecnologia. Hoje conhecemos menos de 5% do mar. Por exemplo, na camada mesopelágica do oceano, que vai entre os 200 metros e os 1000 metros, o volume de recursos biológicos aí concentrados é dez vezes superior a tudo o que pensávamos.
Depois, não há a noção de lixo. Se articularmos todas estas ideias com uma política que vamos desenvolver para fomentar a economia circular, podemos mudar o nosso modelo de desenvolvimento, que é devastador para o ambiente e que transforma os recursos em lixo a uma velocidade sem precedentes.

É caso para dizer que desta vez não há desculpas para não olharmos para o mar?
Acho que não há desculpas e não é só o PRR e os 252 milhões, é também a componente do mar que está no PT2030. Se tivermos projetos bons, vamos conseguir atrair para Lisboa e para o país fundos internacionais que querem apostar na economia do mar. Repare que na Conferência dos Oceanos de 2017, a primeira que houve em Nova Iorque, foram cerca de 100 empresas, mas a Lisboa vêm 900 empresas, mais de 4000 empresários. Alguns são dos grandes fundos internacionais, dos grandes bancos e querem investir na economia do mar, na bioeconomia. Vamos ter um fórum dedicado aos investidores onde gostava muito de levar as start-ups e as empresas portuguesas. E, se conseguirmos casar grandes projetos com financiamento, pode ser transformador.

O senhor presidiu à Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR. Olhando hoje para o plano, faria algo de diferente? Teria reforçado a verba para o mar?
Sim, teria reforçado a sugestão de verba para o mar, sem dúvida alguma. Mas, no fundo, o que preparei foi um documento com a visão estratégica para a próxima década, foi o que o senhor primeiro-ministro me pediu. Depois, o PRR foi preparado pelos diferentes organismos do governo e da Administração Pública, e foi a negociação possível a que se chegou.
O reforço para a economia do mar é vital bem como o reforço para o financiamento das empresas, porque são as empresas o motor de desenvolvimento económico do país.
É evidente que no PRR, no âmbito das agendas mobilizadoras, há um pacote muito apreciável de cerca de 930 milhões de euros - e o senhor primeiro-ministro já se comprometeu com isso - e todas as agendas mobilizadoras que tiverem mérito têm de ser apoiadas, e podemos ir aos 4 mil milhões de euros em termos desses apoios.
Penso que vamos ver o que vai resultar da apreciação que está a ser feita pelos júris e vamos ter os resultados no dia 13 de junho e, a partir daí, vamos ver como vamos negociar os contratos com os consórcios, pôr os projetos no terreno, e é outra grande área que pode contribuir para a economia do mar. Isto porque até há agendas na área das biotecnologias, com consórcios com muita credibilidade, e espero que, com todos esses projetos e ideias, se consiga encontrar um caminho para o futuro.

Este mês o Presidente da República pediu uma unidade nacional para o mar, mas, ao mesmo tempo, tem manifestado preocupação com a execução até 2026. Os portugueses têm razões para estar preocupados? Estamos ou não atrasados?
O senhor Presidente da República exprime uma preocupação que é de todos. Sabemos que o país, nas fases em que executou melhor os fundos europeus, o máximo que conseguiu executar por ano, foi entre os 2500 e os 3000 milhões de euros. Hoje temos mais do dobro, portanto, temos de mudar muita coisa em termos do funcionamento, da operacionalização, da simplificação dos procedimentos, sem nunca pôr em causa a transparência, a integridade e a prestação de contas aos cidadãos.
Creio que o Portal da Transparência é extremamente importante, toda a gente pode escrutinar para onde é que o dinheiro está a ir. Mas a mim o que me preocupa, além da execução, é se estamos a tomar medidas para acelerar essa execução. E a crise política que existiu também não contribuiu em nada porque o país ficou paralisado durante algum tempo. No entanto, estamos a retomar tudo isso, há uma grande coesão a nível do governo. A questão fulcral é o que vai ficar de todos estes planos, quais são as variáveis para as quais temos de olhar e que vão elas codificar a transformação do país.

E o que daí deveria ficar para o país?
Devíamos aumentar o rendimento per capita, aumentar a competitividade das empresas e a sua capitalização. Aliás, há uma componente muito importante do PRR que é a da capitalização das empresas. Somos um país em que há uma subcapitalização crónica das empresas, há falta de capital, o recurso contínuo é o endividamento através da banca. Portanto, o Fundo de Recuperação e Resiliência que está criado com 1300 milhões de euros com as linhas do Banco do Fomento, com as linhas de capitalização estratégica com cerca de 450 milhões de euros, e o Programa Consolidar, também para investimento das empresas, são absolutamente fulcrais.
As empresas terem acesso a capital, pode ser um fator transformador, porque o que inibe muitas vezes o desenvolvimento é o fraco acesso a recursos financeiros e de outra índole, incluindo recursos humanos. Temos de resolver essas variáveis e se o conseguirmos fazer no âmbito do PRR e da execução do PT2030, provavelmente, vamos ter um tecido empresarial muito mais ativo, muito mais produtivo, desembaraçado dos obstáculos que tem hoje, e olhando para o futuro.
Depois, temos de incorporar muito mais o valor nacional naquilo que produzimos, o conteúdo importado das nossas exportações é um dos maiores da União Europeia.

O mar pode potenciar o crescimento das exportações nacionais?
Absolutamente. O cluster do mar já representa 5,1% do PIB, são 7,1 mil milhões de euros que gera de valor acrescentado bruto. Contribui cerca de 4% para as exportações e, se todos estes projetos estiverem em execução, pode crescer de forma assinalável.

No final da legislatura o que é que pode ser uma "forma assinalável"?
Acho que temos de ser ambiciosos e ter grandes desígnios. Por exemplo, a Califórnia, em termos das biotecnologias, já tem um cluster que cria por ano mais de 100 mil milhões de dólares de valor. Temos tanto potencial como a Califórnia, precisamos é de bons projetos e boas empresas.
Se olharmos para as algas, por exemplo, também podem ser absolutamente decisivas, não só para a transformação do nosso paradigma alimentar, mas também na indústria farmacêutica, na cosmética.
A aquacultura e as energias oceânicas têm grandes potencialidades. Só na energia das ondas, das correntes de maré, amplitudes de maré, diferenças de salinidade, gradientes térmicos, só aí o potencial estimado no mundo vai entre 20 mil e 80 mil terawatts hora. Ora, 20 mil terawatts hora é o consumo total de eletricidade do planeta hoje. O mar, como digo muitas vezes, é uma espécie de fábrica escondida de energia e se na nossa Zona Económica Exclusiva conseguirmos identificar esse potencial, há um caminho grande para avançar. O que nos falta é fazer acontecer. É por isso que as task forces são vitais para fazer acontecer.

Pode o mar reter talento no país?
Absolutamente. Temos de ter muita atenção às medidas fiscais para conseguirmos reter os jovens, sobretudo a nível do IRS jovem, assim como todas as medidas que temos de proporcionar aos jovens para que comecem a sua carreira.

E o que está neste Orçamento do Estado parece-lhe suficiente ou é preciso ir mais longe?
Não. Temos de fazer muito mais nos próximos Orçamentos, porque é realmente um problema central. Temos excelentes jovens, somos o terceiro país da União Europeia que produz mais engenheiros e muito bem qualificados. Aliás, as grandes empresas vêm aqui buscar os nossos engenheiros, mas os jovens precisam de condições para desenvolver as suas vidas, mas também de projetos inovadores.

Guerra na Ucrânia. "O transshipment do gás a partir de Sines para a Europa dará um contributo para a independência energética."

Já estimou que impacto pode ter o mar na criação de emprego?
Penso que os números hoje, a nível de emprego no setor do mar, representaram cerca de 4% do emprego que temos no país, mas podemos ter muito mais. Não tenho neste momento nenhuma estimativa.

O governo defende um recentrar do mar nas políticas europeias. Nesse sentido, que medidas levará o governo a Bruxelas?
Estamos a fazer vários esforços e agora na Feira de Hannover tive a oportunidade de ter uma excelente reunião com o ministro alemão da Economia e Energia, foi uma reunião extremamente interessante. Resultou desta reunião levar à reunião do G7 uma agenda forte dos oceanos para sensibilizar as sete nações mais desenvolvidas do mundo para a importância do mar.
Expliquei ao senhor ministro qual era a nossa política para o mar e ele está extremamente interessado, até porque o hidrogénio vai ser uma das energias do futuro e a Alemanha também está a apostar muito no hidrogénio. Convidei-o para vir ver as nossas instalações e projetos a Sines. Também temos uma empresa portuguesa, a fusion fuel, que fabrica hidrogénio e tem os seus eletrolisadores. Também o convidei para ir ver o hidrogénio fabricado por essa empresa em Évora, porque o hidrogénio é o gás mais abundante do universo, é muito versátil, e pode competir na mobilidade com os carros elétricos, na base das células de combustível, portanto, pode ser uma alternativa interessante. E, sobretudo, para os camiões que percorrem grandes distâncias, e para os transportes marítimos, podem ser uma alternativa.
Na Austrália já há testes para aviões com base no hidrogénio, é um combustível com imenso futuro. Sobretudo se for hidrogénio verde, produzido com energias renováveis, a partir da eletrólise da água, há um caminho a percorrer. Ele está muito interessado nisso e na bioeconomia. Se tivermos um parceiro como a Alemanha, será extraordinário.
Depois, é levar a nível da Comissão Europeia essa necessidade forte. Vamos ver se a própria CE aposta mais na economia do mar, pois está alinhada com tudo o que a CE e a UE tem feito a nível do Pacto Ecológico Europeu, do Fit for 55, a redução das emissões que têm de ocorrer até 2030 para pelo menos 55% ou mais.

Já disse que Sines pode representar duas Autoeuropas. Como?
O investimento que está previsto para Sines, da ordem de 17 ou 18 mil milhões de euros, é sobretudo investimento privado de grandes empresas e consórcios. Há um polo muito importante que é o da logística, portanto, o nosso terminal em Sines tem uma capacidade de cerca de 2,1 ou 2,2 milhões de contentores. Com o projeto de extensão que já está em execução, vai chegar aos 4 ou 4,3 milhões de contentores. Mas até 2030, se tivermos o novo cais, pode chegar aos oito milhões de contentores. Hamburgo, um dos maiores portos da Europa, processa 8,5 milhões de contentores. Se tivermos esta capacidade, depois podemos consolidar as ligações com todas as partes do mundo.
Depois, temos uma parte extremamente importante que tem a ver com os cabos submarinos e os centros de tratamento de dados. Os projetos, nesta altura, andam à volta dos 3,5 mil milhões de euros, incluindo um data center que já está em execução. Nos cabos submarinos temos o projeto Equiano da Google, que liga Sesimbra à Cidade do Cabo, são mais de 11 700 quilómetros. Depois, no continente africano vai ter algumas ramificações, dez ou onze ao longo do continente, mas a ideia é que o fluxo de dados venha a Portugal. Vamos lutar por isso e para que também esteja associado a u centro de tratamento de dados.
Também há o EllaLink que liga à América do Sul, há cabos que vão ligar a África, Ásia e Oceânia, portanto, há um conjunto de projetos que estão em execução e que são extremamente interessantes. Se conseguirmos aliar a isso, os centros de tratamento de dados e com a inteligência artificial, há toda uma área de emprego, sobretudo para os jovens, que são os cientistas de dados.
Há outro polo, o das energias, em que os investimentos são mais de sete mil milhões de euros, não só dos investidores convencionais que temos em Sines, como é o caso da EDP, da Galp, da Repsol, são sobretudo investimentos na descarbonização, mas há mais um conjunto de investidores que estão a desenvolver clusters do hidrogénio e das energias renováveis. Penso que a combinação destes três vértices pode transformar Sines num dos polos, não só das novas energias, dos cabos submarinos, do novo paradigma da conectividade e da logística internacional, e colocar Sines no mapa.

Sines pode ser um eixo de distribuição e reforçar a independência energética de Portugal e da Europa?
Estamos a trabalhar a curto prazo no projeto de transshipment do gás, ou seja, usar Sines como um grande hub porque está perto dos Estados Unidos, de Trinidade e Tobago, da Nigéria, grandes exportadores de gás natural liquefeito, e no âmbito do projeto REPowerEU.
A UE quer simplesmente terminar com a importação de gás da Rússia, porque anualmente a União Europeia importa da Rússia 155 mil milhões de metros cúbicos de gás. Cancelar esta importação via pipelines e transferi-la para o gás natural liquefeito, significa pôr nos portos do norte da Europa, que já estão por si congestionados, mais 1300 ou 1400 grandes navios por ano.
Isso, se for feito assim, vai alterar o paradigma que temos hoje de transporte de gás natural liquefeito no mundo, vai criar grandes perturbações em várias áreas, e o que pensamos é completar esse modelo com o transshipment a partir de Sines. Com navios mais pequenos, podemos receber navios com 200 mil metros cúbicos, mas com navios de 70 mil ou 50 mil metros cúbicos, podem abastecer de forma muito flexível, rápida e eficaz, alguns portos do norte da Europa.
Não só na Alemanha, mas também na Polónia que é um dos grandes apoiantes do projeto, e nos países bálticos. Assim teremos um modelo muito mais flexível e eficaz, isso no gás natural e liquefeito. A curto prazo, Portugal, só em relação à Alemanha, pode colmatar entre 12% e 15% das necessidades de importação de gás da Alemanha. Isso também está em discussão com o governo alemão, mas temos de ver como se vai prosseguir.
Mas isso é apenas a primeira fase. A segunda é as conexões ibéricas com a Europa. No último Conselho Europeu o primeiro-ministro conseguiu que isso fosse fixado e que finalmente seja adquirido, porque essas ligações são fundamentais. Depois, o que queríamos fazer era exportar via sistemas de pipelines ibéricos ligados à Europa, o gás, o hidrogénio e as energias renováveis.

Há um bloqueio nos Pirenéus?

Acho que, nesta altura, França já não consegue resistir mais. O que foi demonstrado nesta crise é que a fachada atlântica é absolutamente necessária. Fui várias vezes a Bruxelas debater a questão energética e tentar demonstrar que a dependência da Rússia era excessiva. Mostrava que era a 100% de muitos países europeus e dizia que é um erro. No abastecimento é melhor diversificar.
A Península Ibérica tem metade da capacidade de receção de gás natural liquefeito da Europa. O terminal de Sines mais os terminais espanhóis são muito importantes a esse nível, mas infelizmente essa ideia nunca passou porque não havia conexões ibéricas através dos Pirenéus.

A guerra acentua a importância da nossa posição geoestratégica?
Penso que a guerra está a mudar muita coisa, a Europa está a mudar a sua política energética. A Alemanha, por exemplo, mudou em 48 horas e mostrou a necessidade de diversificar o abastecimento e apostar noutras fontes. E o nosso desígnio é pôr Sines no mapa destas redes de abastecimento de energia e, além disso, preparar o médio e longo prazo com as pipelines, e as ligações tanto são para exportar gás, como depois hidrogénio e a seguir as energias renováveis.

Enquanto a guerra durar e os projetos não estiverem prontos, os preços da energia continuarão a subir?
Enquanto a guerra durar é muito difícil que os preços baixem de forma assinalável. Na guerra está envolvido um país que é o segundo maior produtor mundial de petróleo e um dos principais produtores mundiais de gás, que é a Rússia. Os mercados quando sentem que há um grande produtor mundial que está envolvido num conflito ou que vai haver interrupção de abastecimento, os mercados reagem imediatamente a isso. Penso que, nesta altura, os mercados já descontaram para este fator. Vamos ver como é que a guerra se vai desenvolver. Se tivermos um conflito que não passe deste ano, provavelmente depois veremos as coisas a serenar e estabilizar.
Mas este conflito não interpela apenas o mundo da energia, já estamos a ver as consequências da crise alimentar. Esta é disruptiva, porque as pessoas quando têm fome têm reações incontroláveis. E há um país que é muito preocupante, o Egito, onde as crises de cereais causam grandes convulsões, bem como nos países do norte de África e europeus.
Do ponto de vista geoestratégico há mais questões que são importantes para Portugal. Uma das coisas que consegui compreender na Feira de Hannover, dito pelo presidente da Câmara de Indústrias da Alemanha, é que fizeram um inquérito e há muitas empresas alemãs que estão na China, na Rússia, e noutros países e que, com estas perturbações, se querem relocalizar na Europa. Portanto, chamei a atenção para o facto de Portugal ser um país com grande potencial para atrair essas empresas, até porque já temos 600 empresas alemãs que operam em Portugal. Creio que vamos relocalizar algumas empresas aqui.

Ao nível da crise dos cereais e da energia, o governo poderá ter de ir mais longe nos apoios?
É uma possibilidade. Estamos a monitorizar todos os dias o que se passa, os efeitos da inflação, o efeito do aumento dos preços da energia e dos bens alimentares. Neste momento, o governo pôs em prática um pacote que tem inúmeros componentes.

Mas admite que essas ajudas possam não chegar até ao final do ano?
Admito, porque a situação é dinâmica, muda todos os dias, não sabemos como é que as coisas vão evoluir. Ainda assim, queria chamar a atenção para a resiliência da economia portuguesa. Como sabe, no primeiro trimestre deste ano, o crescimento foi cerca de 11,9%, o maior da União Europeia. Claro que temos de descontar aqui o efeito base, porque quando comparamos com o primeiro trimestre de 2021, o crescimento foi muito baixo, mas há dois fatores: o crescimento do consumo privado e, sobretudo, a procura líquida externa que disparou, o que tem a ver com produtos e turismo.

Como é que a inflação pode trocar as voltas às previsões do crescimento? Isso preocupa-o?
A inflação preocupa-me muito porque é a variável mais complexa que temos na economia, mas se analisarmos a inflação, isto é uma espécie de inflação importada, porque 3/4 têm a ver com os custos da energia e com os custos dos bens alimentares.
A estratégia que o governo escolheu foi tentar limitar os aumentos a nível dos custos alimentares e dos custos de energia. Vamos ver se isso vai funcionar em toda a sua amplitude, mas acho que o governo está de espírito aberto para ir revisitando todas essas situações em função da resposta da economia.
A inflação só se consegue superar com a conjugação muito harmoniosa entre a política monetária e a política fiscal, e não se pode cometer erros em nenhum dos lados. Às vezes, a própria política monetária - como já foi provado em crises anteriores -, suscita mais ainda as espirais inflacionistas. Tem de se articular com muito cuidado, ter uma resposta gradual, mas à medida daquilo que se está a passar no tecido económico. Preocupações com pessoas e empresas são máximas nesta altura.

Na área da Defesa, numa entrevista recente ao DN, o almirante Gouveia e Melo afirmou que "a próxima fronteira é o mar". Concorda? Justificar-se-á uma maior aposta na Marinha?
Estou muito contente pela Marinha estar na nossa task force. O senhor Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas também está.
Penso que o senhor almirante tem razão por que se olharmos para a nossa Zona Económica Exclusiva e se a extensão da Plataforma Continental for concedida tal como existe no pedido que fizemos às Nações Unidas, vamos ter cerca de 4 milhões de quilómetros quadrados de território sob a jurisdição do governo português. E mais de 90% desse território é mar, ou seja, a Zona Económica Exclusiva é 40 vezes a parte continental.

Por essa razão, precisaremos de ter uma Marinha mais forte?
Sem dúvida nenhuma. Se quisermos pensar Portugal hoje, o centro geodésico do país está no oceano. Temos de ter uma Marinha mais operativa, mas ter também o desenvolvimento de todos estes recursos oceânicos. Provavelmente, no futuro, teremos o desenvolvimento de ilhas artificiais afastadas da costa onde vamos criar as algas, energias renováveis, produzir hidrogénio, e debaixo dessas estruturas teremos aquacultura e sistemas de proteção costeira. Precisamos de uma Marinha muito eficaz. Mas não me admira nada que o mar seja a próxima fronteira, assim como o ciberespaço e outras dimensões daquilo que é a guerra nos nossos dias.

Esses projetos da energia têm dado passos lentos. É desta que vão acelerar, com PRR e PT2030?
Penso que temos condições para acelerar, se o vamos conseguir fazer ou não, isso só o futuro o dirá. O nosso país às vezes é um bocado complicado em termos de se criarem mobilizações e plataformas em que as pessoas trabalhem em conjunto e olhem mais para o país e para o seu futuro, e menos para os seus umbigos. Às vezes isso é difícil, mas temos todas as condições, quer no âmbito do PRR, quer no âmbito do PT2020/30, para unir as vontades, haver alinhamento estratégico das próprias instituições, e havendo uma grande mobilização e entusiasmo, acho que podemos dar esses saltos. Isso é indispensável para termos um país mais próspero.

Em termos de parques eólicos flutuantes, além de Windfloat, há algum outro na calha?
Penso que o governo está a preparar, na área de ação do Ministério do Ambiente e da Ação climática, o primeiro grande concurso para a eólica offshore. Espero que esse concurso saia rapidamente. Creio que está anunciado até ao fim do ano.

Quanto à extensão da Plataforma Continental, a proposta foi entregue nas Nações Unidas em 2017. Em que ponto está o processo?
As discussões continuam, é um processo que não é fácil, demora anos. Daquilo que posso aferir, penso que o processo tem ido bem. Vamos ver se nos próximos anos conseguimos ter pelo menos a negociação finalizada.

Essa é uma vitória que gostaria de ter até ao final da sua legislatura?
Eu não sou importante, o importante é o país e a vitória será sempre do país e de toda a geração que esteve profundamente envolvida neste processo. Desde o professor Manuel Pinto de Abreu, os vários ministros do mar, a ministra Assunção Cristas, a ministra Ana Paula Vitorino, todos eles desenvolveram estes processos.

E na sua opinião, o que seria uma vitória no final da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas em Lisboa, de 27 de junho a 1 de julho?
A vitória seria um choque epistemológico. Fazemos conferências com muito poucos resultados. Fazem-se grandes declarações de retórica, mas depois pouco se faz. Tem de haver um compromisso global.
Depois, há do ponto de vista de Portugal e da declaração final, aspetos que são importantes: um é articular tudo o que são as políticas do oceano com as políticas do clima. E se Lisboa conseguir fazer esta conexão de forma forte, será um passo em frente. O segundo aspeto é conseguirmos pôr a economia azul na agenda e com os investidores, as empresas e os grandes centros tecnológicos em ação.
Mas sou muito cético em relação às grandes conferências internacionais. É evidente que é muito importante para o país, e se calhar não deveria dizer isto, mas o que vejo em muitas conferências é depois uma grande deceção. Acho que é contra isto que nos devíamos bater, se as pessoas só vêm para assinar um documento que repete muitas das coisas que já foram ditas antes e depois não se faz nada, é muito difícil.
E não sei se nesta altura, do ponto de vista epistemológico, as pessoas e os países estão preparados para dar um contributo inestimável. A maior prova disso é que é marcada uma conferência no G7 que coincide com a Conferência dos Oceanos em Lisboa, como se fossem duas coisas diferentes. Há uma disfuncionalidade a nível da governance do planeta e um dos grandes problemas do nosso tempo é não termos um sistema de governance do planeta.

Estão a guerra e a pandemia a deixar o ambiente para trás?
Não tenha dúvida nenhuma. Muitas vezes esquecemo-nos de que a crise energética, a guerra e a crise económica são apenas a ponta do icebergue. Se escavarmos o icebergue, a crise climática é sem dúvida o problema mais difícil e é uma ameaça sobre o nosso planeta.

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