Costa parte para a governação com oposição do PSD e CDS a meio gás

Os dois partidos que à direita governaram estão em processos de transição de liderança. Rio e Francisco Rodrigues dos Santos saem de cena e os sucessores não têm mandato na AR.

O anúncio do novo governo e a reações políticas que se seguiram espelharam bem situação peculiar em que parte da oposição à direita do PS se encontra. Os ainda líderes do PSD e CDS, partidos em processos eleitorais internos, remeteram-se ao silêncio sobre o novo elenco governativo e é assim que António Costa começa um novo ciclo de maioria absoluta com os dois partidos a meio gás. A que acresce o facto de, com toda a probabilidade, tanto um partido como o outro não terem a voz da liderança no palco do Parlamento.

Isto porque entre os sociais-democratas os nomes apontados como potenciais candidatos, à cabeça Luís Montenegro, não integraram as listas do partido às legislativas e, por isso, não têm mandato parlamentar. O que acontece por maioria de razão no CDS, que perdeu toda a sua bancada parlamentar, e Nuno Melo, candidato à presidência do partido, é eurodeputado e a o seu palco maior será em Bruxelas.

O deslizar das eleições diretas do PSD para 28 de maio e o congresso para 1 a 3 de julho faz com que seja Rui Rio ainda a abrir as hostilidades contra Costa na Assembleia da República, que toma posse na próxima terça-feira. Mas foi sintomático que não tenha comentado - e costuma ser profícuo a fazê-lo sobretudo no Twitter - o tema novo governo ou a zanga do Presidente da República com a revelação na comunicação social dos nomes antes de serem apresentados em Belém.

Foi o deputado André Coelho Lima, que é apontado como o potencial líder parlamentar social-democrata, quem aos microfones da TSF fez o retrato do novo Executivo. Defendeu que "a colocação dos potenciais sucessores internos em posições-chave é algo que expõe aquilo a que o PS nos habituou", retratando a situação como "uma confusão entre aquilo que é o Estado e aquilo que é o partido".

Para o deputado, esta é uma realidade "muito manifestada nas opções tomadas para este Governo, não apenas na fulanização da pasta A ou pasta B, mas sobretudo na circunstância de estarem colocados em lugares chave potenciais sucessores na perspetiva interna".

No CDS o silêncio foi total. Francisco Rodrigues dos Santos, ainda presidente do partido, não saiu a terreiro para dizer o que pensava sobre este governo mais pequeno e com mais pesos pesados do PS.

E Nuno Melo, o candidato à sucessão, deu uma entrevista à Lusa mais virada para dentro do partido, para os apelos à união interna e com a mira nas eleições europeias, as primeiras que terá de enfrentar se for eleito, como se espera, presidente do CDS.

O único eurodeputado eleito pelo CDS-PP considerou que "o primeiro desafio" do partido será "manter a representação parlamentar" nas próximas eleições europeias, em 2024. Nuno Melo afirmou que o partido deve concorrer sozinho e disse acreditar "profundamente" que será possível "ter um bom resultado".

"O CDS tem de fazer uma prova de vida e tem que mostrar que vale por si muito mais do que também pode fazer com os outros. O CDS neste momento governa muitas autarquias e os governos regionais em coligação, mas isso não invalida que o CDS tenha que fazer essa prova de vida, afirmando-se perante o eleitorado como um partido digno desse nome", defendeu.

Já a Iniciativa Liberal, que reforçou a sua representação parlamentar para oito deputados - entre os quais, o líder do partido, João Cotrim Figueiredo - considerou que o novo governo dá "sinais preocupantes", com "ministros politicamente condicionados" em pastas fundamentais e destacou que foram escolhidos "todos os delfins" de António Costa.

Em declarações à agência Lusa depois de ter sido conhecida a composição do novo Governo, Rui Rocha, deputado eleito e membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal (IL), sublinhou o "péssimo começo" no caso da divulgação dos nomes dos ministros aos órgãos de comunicação social, "desrespeitando aquilo que é o dever institucional que o primeiro-ministro tinha de apresentar o Governo ao Presidente da República, que levou até ao cancelamento da audiência prevista". De acordo com Rui Rocha, o futuro Governo tem "em pastas fundamentais ministros politicamente condicionados", dando como primeiro exemplo a continuidade de Marta Temido como ministra da Saúde, que acusa de ter degradado "a relação com os profissionais de saúde a um ponto praticamente insustentável", o que faz com que tenha "muita dificuldade para a gestão desta pasta".

Também na TSF, o líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, destacou a manutenção de Mariana Vieira da Silva como "super ministra da Presidência e braço direito de António Costa", e lançou forte crítica à escolha para as Finanças."Se fosse dia 1 de abril até acreditaríamos que Fernando Medina podia ser ministros das Finanças, porque com aquilo que deixou em Lisboa, um legado de dívidas na câmara e uma quase venda aos russos de variadíssimas coisas, isto é quase uma brincadeira de mau-gosto de António Costa com os portugueses", acusou.

paulasa@dn.pt

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