Costa aproveita nova legislatura para criar delfins e um candidato a Belém

Líder do PS quer ex-presidente de Lisboa no Governo para criar barragem contra Pedro Nuno Santos e atual MNE no topo do Parlamento para incentivar candidatura presidencial

António Costa parece apostado em aproveitar a próxima legislatura para não só criar alternativas dentro do PS à afirmação de Pedro Nuno Santos como seu sucessor como também para preparar uma candidatura presidencial a apoiar pelo partido em 2026 - sendo que ele próprio não parece interessado em ser o candidato.

A aposta em Fernando Medina para ministro das Finanças enquadra-se nesse tal objetivo de potenciar o aparecimento de candidaturas à liderança do partido que reúnem reais condições para vencer a do atual ministro das Infraestruturas e Habitação. Tudo chegou a estar preparado para, caso o PS perdesse as legislativas, ser imediatamente desencadeado um processo de sucessão rápida de Costa - e Pedro Nuno Santos tinha tudo preparado para avançar, reunindo apoios fortes no aparelho do partido. A maioria absoluta travou-lhe os ímpetos. Terá de esperar pelo menos mais quatro anos.

Este domingo, na SIC, Luís Marques Mendes, alvitrou que Fernando Medina será, na sua "previsão", o próximo ministro das Finanças.

Ora, segundo afirmou, "esta escolha pode vir a ter uma influência grande na sucessão futura de António Costa à frente do PS". Medina, disse o comentador político (e membro do Conselho de Estado escolhido pelo Presidente e ex-líder do PSD), "vai ganhar palco, estatuto, influência e provavelmente popularidade".

Atualmente, depois da derrota em Lisboa, Medina não será um candidato óbvio à liderança. Mas, fazendo um bom lugar como ministro das Finanças - e querendo Costa um perfil mais político e menos técnico - pode muito bem "vir a ser no futuro, com outra força e capacidade". Para Marques Mendes, é óbvio que o primeiro-ministro "não quer deixar Pedro Nuno Santos à solta". E, como "não dá ponto sem nó", ao fazer o novo governo "pensa no país mas também não esquece a liderança do PS".

Nesse contexto poderá também enquadrar-se a eventual escolha da atual líder parlamentar, Ana Catarina Mendes, para ministra da Defesa. Há décadas na política ativa, Ana Catarina Mendes - que até já foi secretária-geral adjunta do PS - nunca teve porém experiência governativa, ficando sempre no Parlamento. A próxima legislatura poderá permitir-lhe finalmente dar esse passo, e para uma pasta das mais importantes, a da Defesa, que nunca em Portugal foi tutelada por uma mulher.

Outra hipótese de promoção é a do atual secretário-geral adjunto do PS, José Luís Carneiro, para o cargo de ministro da Administração Interna, provisoriamente nas mãos da ministra da Justiça Francisca Van Dunem (desde que Eduardo Cabrita se demitiu). A hipótese foi ontem também exposta na SIC por Marques Mendes.

O que o comentador político também já dá como certo é que Augusto Santos Silva deixará o ministério dos Negócios Estrangeiros para ser o próximo presidente da Assembleia da República, cenário que a meio desta semana o jornal online Observador apresentava como garantido.

Por detrás desta escolha - que deita por terra as ambições de Edite Estrela - poderá estar também a intenção de António Costa de "semear" uma candidatura de Santos Silva às presidenciais de 2026.

António Costa parece não estar interessado em dar ele próprio esse passo - preferindo eventualmente rumar depois a uma carreira internacional - mas a Augusto Santos Silva não faltará, caso queira, nem ambição nem currículo político. "É uma boa escolha. Tem um excelente currículo. Goza de enorme experiência parlamentar. Foi um bom Ministro dos Negócios Estrangeiros. E bem pode vir a ser um futuro candidato presidencial apoiado pelo PS", disse ontem o comentador da SIC.

Governo a 29 de março?

Confirmando-se, será a primeira vez que o PS terá um candidato próprio desde a candidatura de Manuel Alegre em 2011. Com Costa à frente do PS, o partido nunca apoiou ninguém, mesmo havendo militantes do PS na luta: nem Maria de Belém em 2016 nem Ana Gomes em 2021 (ambas derrotadas por Marcelo).

Seja como for, depois da decisão do Tribunal Constitucional de mandar repetir as eleições no círculo da Europa, o que não falta ao líder do PS é tempo para compor o seu novo Executivo. A repetição das eleições está marcada para os 12 e 13 de março e os votos por via postal serão considerados se recebidos até 23. Na melhor das hipóteses, a contagem estará completa no dia 25 de março e o Presidente da República já sugeriu que o novo Governo poderá tomar posse no dia 29. Faltam exatamente 36 dias.

joao.p.henriques@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG