Carlos Coelho: "Luís Montenegro tem de construir uma alternativa"

O reitor da Universidade de Verão social-democrata diz que é preciso continuar a apostar na formação de quadros para que a intervenção cívica e política tenha qualidade. E diz que há grande expectativa com o discurso do novo líder do partido.

Qual a importância do regresso da Universidade de Verão (UV) do PSD após anos paragem?

Vejo com muito entusiasmo. É um projeto que tem 20 anos e a primeira edição foi em 2003. É uma aposta continuada na formação de jovens quadros. Se todos, de uma forma geral, dizemos que é necessário intervir na política de forma qualificada, temos de apostar na formação e dar a oportunidade de oferecer aos jovens uma semana para discutirem matérias tão diferentes quanto a política internacional, as questões sociais, a política nacional, a economia, o ambiente e a comunicação. São ferramentas próprias de uma formação horizontal que municia um jovem quadro a ter uma intervenção cívica ou política mais qualificada. Investimos desde sempre numa lógica de formação e não de doutrinação e, por isso, fizemos questão de ter desde sempre pessoas de outras famílias políticas. Já tivemos muitos, como o dr. Mário Soares, e nesta edição temos pessoas que não têm nada a ver com o PSD como a professora Raquel Vaz Pinto ou como a Assunção Cristas ou o Francisco Assis. Pessoas que nos ajudam não só dar formação qualificada, porque são todos especialistas reconhecidos nas áreas que vão falar, mas também abrir as cabeças, no sentido de ouvir opiniões diferentes.

Este ano a guerra da Ucrânia e as suas consequências será um dos temas fortes da UV?

Sem dúvida. A realidade internacional é complexa e não se resume à guerra na Ucrânia. Olhando para o mundo há sobretudo dois grandes problemas, um com a China e outro com a Rússia, e por isso escolhemos dois oradores sobre as questões internacionais, um mais especialista na Rússia e outro na China. Vamos olhar para as tensões no mundo, sobretudo para estes dois países e tudo o que está à volta deles. Temos a consciência que hoje a realidade internacional não é apenas mais complexa do ponto de vista geoestratégico, mas tem consequências políticas, económicas e sociais.

Marcelo Rebelo de Sousa vai marcar presença na UV, mas sendo Presidente da República isso não pode ser mal entendido?

O professor Marcelo tem uma relação muito própria com a UV, ele foi o orador que lá foi mais vezes ao longo destes anos e esteve associado à conceptualização da Universidade de Verão. Quando promovi a primeira edição falei com cinco ou seis personalidades que me deram ideias e uma delas foi o professor Marcelo, que me deu boas sugestões e bons conselhos. Desde que ele é Presidente não tem estado presente, mas não é a primeira vez enquanto tal que ele colabora neste formato, em que responde a perguntas à distância. Temos todos os dias duas personalidades a quem os jovens na UV podem fazer perguntas, uma delas é o convidado ou a convidada do jantar e outra para perguntas à distância, em que qualquer um dos 100 alunos podem formular uma pergunta curta. Uma das cinco personalidades à distância é o professor Marcelo Rebelo de Sousa e o que é diferente este ano é que permite não só interagir por escrito mas também por via filmada. Ou seja cria maior interação com perguntas gravadas e respostas no mesmo formato. Isto permite, além da publicação no jornal diário que é distribuído todas as noites pelos participantes, que nas redes sociais tenhamos em pequena produção de filme todas as respostas. Não há aqui nada que o Presidente já não tenha feito no passado. Quando não era Presidente ia presencialmente.

"Quando promovi a primeira edição falei com cinco ou seis personalidades que me deram ideias e uma delas foi o professor Marcelo, que me deu boas sugestões e bons conselhos."

Este ano a Universidade também tem a estreia do novo líder do PSD, naquela que é a segunda rentrée política do partido. Que expectativa tem para o discurso de Luís Montenegro?

Há sempre uma grande expectativa. Ao longo dos anos os presidentes do PSD têm valorizado a Universidade de Verão com discursos que marcam e, de facto, a grande rentrée acaba por ser o discurso na Universidade de Verão, até porque está mais próxima da sessão legislativa. E temos um líder novo, com muita força e dinâmica. Creio que há muitas expectativas em relação à sua liderança e tenho a certeza que a intervenção que vai fazer não nos fará arrepender da aposta que fizemos nele.

Mas o que acha essencial que ele transmita ao partido e ao país nesse discurso de encerramento da UV?

Não vou dizer o que acho que ele deve dizer porque como integro a Comissão Política Nacional os conselhos são dados aí. Não ficava bem receber recados pela comunicação social. Agora ele definiu muito bem aquilo que é o seu caderno de encargos. O caderno de encargos de Luís Montenegro é claro e correto. Tem de afirmar o PSD como partido da oposição, foi esse o mandato que os eleitores deram e uma maioria absoluta ao PS para governar sozinho. É esse mandato que Luís Montenegro vai interpretar e ele tem de construir uma alternativa. Porque um partido de oposição responsável não deve apenas apontar o que está mal e denunciar o que não é correto, tem de apresentar alternativas e isso significa construir uma proposta alternativa de governação e é isso que ele vai fazer nos próximos tempos. O que acho que vai fazer na Universidade de Verão é dar corpo a este duplo mandato: afirmar o PSD como o maior partido da oposição e explicar em que condições é que ele vai construir uma alternativa de governo.

Marcelo, Cristas, Mendes e Assis na UV

Além das resposta em vídeo de Marcelo Rebelo de Sousa a um conjunto de questões dos alunos da Universidade de Verão (UV) do PSD, que começa hoje e termina no domingo, em Castelo de Vide, a iniciativa contará com as presenças da antiga líder centrista Assunção Cristas, o antigo presidente social-democrata Marques Mendes e o socialista Francisco Assis. Estes são alguns dos oradores da 18.ª UV, que regressa após dois anos de interrupção devido à pandemia. O encerramento será feito, como é tradição, pelo presidente do PSD, na estreia de Luís Montenegro na iniciativa. No dia 2 de setembro será o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, a falar aos alunos neste jantar e no sábado é a presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza, que fecha o elenco dos oradores para este espaço de debate.

Como "professores" ao longo desta semana estarão em Castelo de Vide nomes como o eurodeputado do PSD Paulo Rangel, o ex-ministro Miguel Poiares Maduro, as vice-presidentes do PSD Margarida Balseiro Lopes e Inês Palma Ramalho, o ex-secretário de Estado José Eduardo Martins, a antiga secretária de Estado e diretora do Escritório de Genebra do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), Mónica Ferro, o economista Luís Filipe Reis, a professora universitária Raquel Vaz Pinto ou o comentador político Sebastião Bugalho.

No encerramento Luís Montenegro deverá aproveitar o embalo da rentrée" do Pontal, onde propôs um programa de emergência social na ordem dos mil milhões de euros. "Estamos a alertar para a situação de muitos concidadãos estarem a passar dificuldades, porque a alimentação subiu, em média, entre 25% a 30%, os combustíveis, a eletricidade, o gás e os produtos energéticos subiram também à volta de 30%, em média", afirmou então o líder do PSD.

O tema está assim a marcar a rentrée, servindo também de antecâmara para a discussão do Orçamento do Estado para o próximo ano (OE2023), o qual terá de dar entrada no Parlamento até dia 15 de outubro.

paulasa@dn.pt

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