Costa e Governo em queda, Marcelo positivo, mas a perder

Pensionistas juntam-se ao castigo ao primeiro-ministro e contribuem para uma segunda avaliação negativa consecutiva. Presidente tem saldo muito positivo, mas é o mais baixo desde julho de 2020.

Rafael Barbosa

O ambiente político está a degradar-se e todos pagam uma parte da fatura: António Costa desde logo, mas também Marcelo Rebelo de Sousa. De acordo com a mais recente sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF, o primeiro-ministro e o seu Governo afundam-se na avaliação dos portugueses. O presidente da República continua com saldo positivo (24 pontos), mas está em queda desde dezembro do ano passado.

Foi há seis meses que o Governo tomou posse. Mas o estado de graça do primeiro-ministro durou pouco. Com a maioria absoluta não veio, como se previa, a estabilidade política. O barómetro de julho já assinalava uma situação muito rara: António Costa registava um saldo negativo na avaliação dos portugueses (dois pontos). Chegados a outubro, os resultados mostram uma situação inédita: duas avaliações seguidas em terreno negativo e o pior resultado de sempre do primeiro-ministro (oito pontos de saldo negativo) desde que se iniciou esta série de barómetros, em julho de 2020.

Mais velhos castigam Costa

Os sucessivos casos e as controvérsias com ministros contribuíram para a degradação, mas talvez seja a crise económica e, em particular, o aumento do custo de vida que dão o empurrão final. Quando se analisam as avaliações ao líder do Governo entre os diferentes segmentos em que se divide a amostra, há uma alteração fundamental face a barómetros anteriores: os inquiridos com 65 ou mais anos, os que lhe garantiam sempre mais aplausos, deixaram de lhe dar o benefício da dúvida e o saldo é, agora, negativo (nove pontos). Um reflexo do desagrado com a solução para as pensões, como demonstram os resultados da sondagem que divulgámos ontem: cerca de 70% dos inquiridos das duas faixas etárias mais velhas consideram que a "meia pensão" é uma medida negativa que penaliza as pensões futuras.

Para a queda de António Costa também contribuiu a mudança de avaliação entre os que habitam nas áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa, bem como os dois escalões sociais de menores rendimentos (em todos os casos, passou de saldo positivo em julho, para negativo agora). Os únicos que não abandonam o primeiro-ministro são os que votam no PS (consegue um saldo de 66 pontos positivos). O problema é que tudo indica que o eleitorado socialista estará a encolher (amanhã, com a publicação de uma projeção sobre legislativas, veremos se é assim ou não).

Descida contínua de Marcelo

O presidente da República continua a ser o político mais popular do país. E está muito acima do primeiro-ministro (24 pontos de saldo positivo). Mas a trajetória deste ano tem sido de descida. E este é o pior barómetro de sempre para Marcelo Rebelo de Sousa, com a percentagem mais baixa de avaliações positivas (49%) e a mais alta de negativas (25%). O inquérito não inclui perguntas que ajudem a explicar as razões para a queda, mas adivinha-se que também estará a pagar o preço da degradação da situação económica e social. E à acusação, pela oposição, de estar demasiado colado ao Governo.

Quando se analisam os segmentos da amostra, percebe-se que, no que diz respeito à geografia, e apesar de manter um saldo positivo em todas as regiões, foi em Lisboa que a queda foi mais acentuada (de um saldo positivo de 46 pontos, em julho, para os 16 atuais). No que diz respeito à idade, os mais velhos ainda são os que lhe dão mais avaliações positivas (53% agora, 64% em julho), mas já não é aí que tem o melhor saldo (24 pontos agora, 37 em julho). Estariam os seniores à espera que o presidente confrontasse o Governo com a solução para as pensões?

Mariana ainda sobrevive, Medina é o pior ministro

Para além de Marcelo, só há mais um dirigente político que se pode gabar de ter um saldo positivo entre os portugueses: a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva (oito pontos, mas em queda). No outro extremo da avaliação, no que a ministros diz respeito, está o das Finanças, Fernando Medina. Neste último barómetro, consegue ficar pior do que Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas (e da novela do aeroporto).

O também ex-presidente da Câmara de Lisboa já começou estes barómetros em terreno negativo, mas desde abril que vai caindo sempre mais fundo: o saldo negativo é agora de 27 pontos (era de 12 em julho), destacando-se o trambolhão entre os mais velhos (ou seja, os pensionistas), que passaram de avaliação positiva para negativa. Resta-lhe o eleitorado do PS, mas com margem cada vez mais estreita.

Pedro Nuno Santos já não é o pior ministro deste Governo, mas continua com um saldo negativo (21 pontos agora, 32 em julho). O tempo foi passando sobre a desautorização de António Costa na questão do novo aeroporto de Lisboa e os primeiros a perdoar ao ministro das Infraestruturas foram os que votam no PS, onde consegue desta vez um saldo positivo.

Carneiro no vermelho

O ministro da Administração Interna, que esteve sempre no fio da navalha, é igualmente prejudicado pelo atual clima de crise, e passa de saldo positivo (dois pontos) para negativo (três pontos). Ao contrário de Medina, são os mais velhos que evitam uma queda mais pronunciada de José Luís Carneiro: em contraciclo com outras figuras políticas, melhora o seu resultado e tem 18 pontos de saldo positivo entre quem tem 65 ou mais anos.

Uma última nota para a estreia de Manuel Pizarro nestes barómetros. Ainda sem grandes conclusões para tirar, uma vez que o trabalho de campo decorreu poucos dias depois de ter sido nomeado ministro da Saúde. Menos mal que, em tempos agrestes para o Governo, se estreie com saldo zero. Mas, somados os que se refugiam numa resposta neutra aos que não sabem ou não respondem, temos 70% dos inquiridos. Vai ser preciso esperar até ao final do ano para fazer uma avaliação mais informada.

Montenegro apanha mas não ultrapassa Ventura

Ainda não foi desta que André Ventura perdeu a "corrida" a principal figura da oposição. Mas o líder do Chega já tem Luís Montenegro a par, mesmo que o presidente do PSD não tenha lugar no Parlamento, o que provavelmente o prejudica em termos mediáticos. Têm ambos 30 pontos e estão muito longe de todos os restantes líderes partidários, de acordo com a sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF.

Foi em maio passado que Luís Montenegro foi eleito presidente do PSD. E foi em julho que o congresso lhe deu todas as ferramentas de liderança. No barómetro desse mês, não conseguiu mais do que 19% na "eleição" para principal figura de oposição. Mas, o verão passou e o social-democrata não só conquistou mais apoios, como cresceu à custa do líder da direita radical.

PSD metropolitano

Quando se analisam os diferentes segmentos, percebe-se que há diferenças de vulto entre os seus "apoiantes". No que diz respeito ao género, os homens inclinam-se para Montenegro (36%) e as mulheres, de forma um pouco surpreendente, para Ventura (29%). Quando o critério é a geografia, o líder do PSD está à frente nas duas áreas metropolitanas, e o do Chega no resto do país. No que diz respeito às idades e às classes sociais, a diferença também é bastante evidente: Montenegro vence entre os mais velhos e entre os dois escalões com maiores rendimentos; Ventura está à frente entre os mais novos e nos dois escalões mais pobres.

Quando a atenção incide sobre o voto partidário, Ventura domina entre os eleitores do Chega (82%), nem tanto no caso de Montenegro. Os eleitores do PSD até lhe dão o título de principal figura da oposição (54%), mas ainda há 29% que apontam ao líder dos radicais de direita. Tivesse Montenegro já convencido os seus próprios eleitores e estaria na liderança.

rafael@jn.pt

FICHA TÉCNICA
A sondagem foi realizada pela Aximage para o DN, TSF e JN, com o objetivo de avaliar a opinião dos portugueses sobre a atualidade política.
O trabalho de campo decorreu entre os dias 21 e 24 de setembro de 2022 e foram recolhidas 810 entrevistas entre maiores de 18 anos residentes em Portugal. Foi feita uma amostragem por quotas, obtida através de uma matriz cruzando sexo, idade e região (NUTSII), a partir do universo conhecido, reequilibrada por género, grupo etário e escolaridade. Para uma amostra probabilística com 810 entrevistas, o desvio padrão máximo de uma proporção é 0,017 (ou seja, uma "margem de erro" - a 95% - de 3,44%). Responsabilidade do estudo: Aximage Comunicação e Imagem, Lda., sob a direção técnica de Ana Carla Basílio.