Açores. Rio teme "impacto nacional" de coligações com Chega

Possibilidade de acordos do PSD com o Chega no arquipélago entram em choque frontal com política autárquica que a direção do PSD definiu para o continente

A pergunta surgiu quarta-feira, na conferência de imprensa em que o secretário-geral do PSD, José Silvano, apresentou mais 53 candidatos do partido a presidentes de câmara: o que tinha a direção nacional do partido a dizer à notícia segundo a qual se preparam nos Açores coligações autárquicas com o Chega?

Silvano não soube o que dizer, limitando-se a assegurar que na direção nacional do partido não havia qualquer conhecimento de que esse tipo de coligações se estejam a preparar.

Mas depois, Rui Rio falou com José Manuel Bolieiro, o líder do PSD/Açores e presidente do Governo Regional. Bolieiro - segundo o DN apurou - não terá confirmado estar já alguma coligação fechada. Mas a verdade é que, no arquipélago, as relações entre o PSD e o Chega são íntimas: o Chega assinou o acordo que permite a Bolieiro governar o arquipélago mesmo não tendo vencido as últimas eleições regionais, numa geringonça de direita em tudo igual (e simétrica) à de esquerda que suportou de 2015 a 2019 o primeiro governo de António Costa.

E, além de íntimas, as relações entre as duas estruturas são antigas: Carlos Furtado, líder do partido de André Ventura nos Açores, e um dos dois deputados no Parlamento regional, foi em tempos eleito local do PSD (vereador na câmara de Lagoa). E José Pacheco, o outro deputado regional do Chega, também teve militâncias CDS mas também no PSD açoriano. Agora estão de candeias às avessas. Pacheco desafiou a liderança de Furtado mas já terá recuado. A estrutura regional do partido irá a votos no próximo dia 1 de maio.

"Este acordo não vai dizer que só há coligações com o CDS e com mais ninguém (...) A única questão que estamos de acordo é que não haverá com o Chega, mas tirando o Chega logo se verá. O Chega para ter conversas com o PSD tem de se moderar, o Chega não se tem moderado, não há conversa nenhuma."

Rui Rio reconhece a autonomia regional do PSD-Açores na escolha dos seus candidatos mas já fez saber que a autonomia tem um limite: e esse limite são escolhas que, como disse ao DN um membro da equipa de Rio, "tenham impacto nacional".

Ora não há dúvidas que terão. Eventuais acordos locais entre os dois partidos no arquipélago - ou de resto em qualquer autarquia, insular ou não - entram em choque frontal com o que Rui Rio disse, no final de janeiro, na cerimónia com o líder nacional do CDS-PP onde ambos celebraram um acordo-quadro visando coligações autárquicas. Dificilmente poderia ter sido mais claro.

"Este acordo não vai dizer que só há coligações com o CDS e com mais ninguém (...) A única questão que estamos de acordo é que não haverá com o Chega, mas tirando o Chega logo se verá", afirmou. Rematando, categórico: "O Chega para ter conversas com o PSD tem de se moderar, o Chega não se tem moderado, não há conversa nenhuma."

Para o líder do PSD já basta a polémica em torno da candidatura da advogada independente Suzana Garcia - antiga comentadora de casos de política na TVI - à câmara da Amadora. Anteontem, Silvano explicou o apoio - unânime - da direção nacional do PSD a essa candidatura argumentando, por exemplo, que a advogada não defende - como o Chega de André Ventura - a castração química de pedófilos mas sim "uma terapia medicamentosa de controlo da libido". Ou seja, Suzana Garcia - que antes de aceitar ser candidata pelo PSD à Amadora havia rejeitado convites do Chega - não disse nada "que não pudesse ser admitido no âmbito da pluralidade de opiniões deste partido". E não atravessou nenhuma linha vermelha, por exemplo aquela que diz que "o PSD nunca apoiará nenhum candidato que seja racista e xenófobo". A candidata - disse ainda Silvano - "é estrutural e geneticamente antirracista e afirma sem hesitações que condena o racismo".

Pacheco Pereira critica

Um enorme silêncio foi a resposta do PSD à escolha da controversa advogada. Os passistas - o setor do partido mais crítico de Rui Rio - mantiveram-se em silêncio dado que em 2017 foi precisamente Passos Coelho quem se "atravessou" pela candidatura de André Ventura a Loures encabeçando uma lista do PSD (e daí Ventura partiria meses depois para a criação do Chega).

Na "Circulatura do Quadrado", na TVI, José Pacheco Pereira revelou-se uma voz isolada, face ao conjunto do PSD, a criticar esta escolha. "Acho isto um erro, como já tinha achado o acordo nos Açores", afirmou. "A linguagem que [Suzana Garcia] utiliza é racista e xenófoba", isso são "declarações inaceitáveis" e portanto o PSD "ultrapassou uma linha vermelha".

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