Exclusivo  "Não se deve reformar qualquer instituição, e menos ainda as Forças Armadas, apenas quando falharam ou foram derrotadas"

Professor no ISCTE e assessor técnico do Ministério da Defesa, Bruno Cardoso Reis é autor de um ensaio publicado pelo IDN que analisa em termos históricos e comparativos vários países europeus e suas estruturas de comando militar. Historiador afirma que a reforma proposta em Portugal, e hoje debatida no parlamento, visa sobretudo garantir maior eficácia.


Que países da NATO estão neste momento a rever a sua estrutura de comando das Forças Armadas?
Sabemos que desde 2019 houve novas reformas neste campo em três países da NATO: República Checa, Hungria e Espanha. A estes acresce ainda a Suécia, que tem Forças Armadas muito capazes, é membro da UE e tem uma parceria cada vez mais próxima com a NATO. Temos também a informação de que estará a ser preparada uma reforma na Grécia, país que tem sido tradicionalmente avesso a esta tendência, veremos se se concretiza. Aliás, ao contrário do que tenho ouvido, é normal as Forças Armadas levarem a cabo reformas mesmo em períodos de grande exigência operacional, desde logo em situações de guerra, em que pode ser necessário fazer mudanças para uma resposta mais eficaz. Quem quer uma vida pacífica e serena não pode dedicar-se à exigente carreira militar. A história militar de Portugal tem bons exemplos, por exemplo, com o conde de Lippe durante a Guerra dos Sete Anos, na época do marquês de Pombal, ou ainda em resposta às invasões francesas. E nas campanhas a partir de 1961, também foram feitas mudanças importantes, como a criação de comandos conjuntos.

As mudanças em curso nesses países passam em regra ,como no caso de Portugal , pelo reforço do CEMGFA?
Efetivamente sim. Essa tendência é muito clara em todos os países onde se verificaram reformas desde o final da Guerra Fria - nomeadamente, isso é muito claro nos 14 países em relação aos quais foi possível reunir informação mais detalhada. E num webinar recente no IDN com colegas especialistas nestes temas de vários países ocidentais confirmei essa impressão. Portanto, não conheço qualquer estudo que mostre o contrário ou que aponte para as desvantagens destas reformas. Em vários países com dimensões semelhantes a Portugal, com Forças Armadas muito capazes e elogiadas internacionalmente pelo seu desempenho em missões - como a Holanda, a Dinamarca ou a Suécia -, optou-se mesmo por os ramos deixarem de ter estados-maiores autónomos e passarem a comandos de componentes subordinados diretamente ao CEMGFA. Claro que há variações nacionais, desde logo, na designação da figura no topo da hierarquia militar, mas esta tendência corresponde a desafios e ameaças semelhantes.

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