O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, visita Istambul e Varsóvia entre 27 e 30 de janeiro, numa deslocação centrada no reequipamento das Forças Armadas, na Indústria de Defesa e na criação de sinergias estratégicas internacionais. A viagem será realizada a bordo de um KC-390 da Força Aérea Portuguesa, aeronave que se tornou um dos principais ativos operacionais, industriais e diplomáticos do país.Na Turquia, o momento central será a cerimónia de assentamento da quilha do NRP Luís de Camões, o primeiro de dois navios reabastecedores da futura Classe Luís de Camões, em construção nos estaleiros ADA, em Tuzla. Para o ritual, o ministro leva consigo uma moeda com a efígie de Camões, que será cunhada na quilha do navio, numa tradição dos estaleiros associada à boa sorte e à proteção do navio e da sua guarnição.. O NRP Luís de Camões marcará o regresso de uma capacidade crítica perdida pela Armada Portuguesa há cinco anos, desde o abate do NRP Bérrio, em 2020. Sem esta classe de navios, a esquadra vê reduzida a sua autonomia operacional, a capacidade de reabastecimento no mar e o apoio sustentado a missões nacionais e aliadas.Os novos navios terão como missão, precisamente, aumentar a capacidade da esquadra e garantir apoio logístico sustentado em operações militares e missões de interesse público. Cada navio, com 137 metros de comprimento, poderá embarcar cerca de 4000 metros cúbicos de combustível funcionando como um verdadeiro multiplicador de força, ao permitir operações prolongadas em alto-mar sem necessidade de regresso a porto.Poderão transportar e reabastecer no mar combustível para navios e aeronaves, água potável, carga sólida geral e munições, além de disponibilizarem apoio logístico diversificado e funções hospitalares reforçadas em cenários de emergência e catástrofe. A guarnição será composta por 50 militares, com alojamento adicional para mais 50 elementos e capacidade temporária para mais de 100 pessoas, garantindo flexibilidade para diferentes perfis de missão.O contrato, avaliado em cerca de 100 milhões de euros, foi ganho pelos estaleiros ADA, único concorrente no concurso internacional, e constitui a primeira construção deste estaleiro para um país da NATO. A entrega do NRP Luís de Camões está prevista para abril de 2028, seguindo-se o NRP D. Dinis em dezembro do mesmo ano.A agenda em Istambul inclui ainda reuniões com empresas turcas do setor da Defesa e um encontro com o secretário-Geral das Indústrias de Defesa da Turquia, Haluk Görgün, sinalizando a aposta na diplomacia industrial.Já em Varsóvia, Nuno Melo reúne-se com o ministro da Defesa da Polónia, Władysław Kosiniak-Kamysz, com vista à criação de sinergias bilaterais. Em pano de fundo está o potencial interesse polaco no KC-390 - na sua “versão portuguesa”, aeronave de transporte militar desenvolvida pela Embraer e cada vez mais adotada por países europeus.O KC-390 é a mais recente aquisição da Força Aérea Portuguesa (FAP), é uma “plataforma multifacetada, apta para operações táticas e logísticas, reabastecimento em voo, combate a incêndios florestais, busca e salvamento, evacuações médicas e missões humanitárias”, explica a FAP. Trata-se de um avião bimotor, com capacidade para até 74 macas ou 80 passageiros, alcance intercontinental, elevada capacidade de carga e configuração facilmente reconfigurável para diferentes cenários operacionais.Embora fabricado pela brasileira Embraer, o KC-390 integra uma versão com contributo português determinante, incluindo engenharia da Força Aérea Portuguesa para certificação NATO, sistemas de comunicações, integração operacional e produção industrial em Portugal - com fuselagem em Alverca e componentes estruturais na região de Beja. Esta adaptação aos padrões aliados tornou a aeronave especialmente atrativa para países europeus.Portugal foi o primeiro país europeu e membro da NATO a integrar o programa KC-390, assegurando retorno económico direto. Nuno Melo sublinhou publicamente que “cada aeronave vendida significa 10 milhões de lucro para o Estado português por causa desta parceria, por causa do trabalho em engenharia e conceção também da Força Aérea Portuguesa, e por causa desta certificação que tem a ver com a NATO”. Noutra ocasião, afirmou ainda que “Portugal é parte da construção do KC-390 e é também beneficiário do lucro, o que mostra que é uma parceria muito boa, muito vantajosa e está demonstrado que esta aeronave cada vez mais é solicitada e querida por muitos países aliados”.Até ao momento, há 48 aeronaves contratualizadas ou cuja contratualização está politicamente decidida, como é o caso da Eslováquia. Entre os países com o KC-390 “made in Portugal” está o Brasil e a Húngria, além do nosso país, onde já voam seis. Há também contratos assinados com os Países Baixos, Áustria, República Checa, Coreia do Sul e Suécia.A deslocação de Nuno Melo ocorre num contexto de reforço acelerado das capacidades europeias de Defesa, impulsionado pelo programa SAFE (Security Action for Europe), que prevê financiamento conjunto para áreas críticas como logística, mobilidade militar, aviação e plataformas estratégicas. Portugal já apresentou um plano nacional preliminar para acesso a este financiamento, estimando-se que possa mobilizar cerca de 5,8 mil milhões de euros para modernizar as Forças Armadas até 2030.Neste enquadramento, a deslocação à Turquia e à Polónia ganha uma dimensão adicional: mais do que uma visita diplomática, insere-se numa estratégia de posicionar Portugal no novo ciclo europeu de investimento em Defesa, articulando reequipamento militar, cooperação internacional, financiamento europeu e retorno industrial nacional.