“Já só faltam 14 dias para a vitória, prá vitória, prá vitória”; “Lisboa, alerta, chegou a escolha certa”; “Unir Portugal, unir Portugal, é acreditar, é uma missão; unir Portugal, unir Portugal, um só povo, uma só nação.”Não chegam a ser vinte os jovens apoiantes de Gouveia e Melo que o rodeiam, embandeirados e exultantes, na ação de campanha de domingo de manhã na Feira do Relógio, em Lisboa, mas fazem barulho por 100, sobretudo graças às colunas que debitam em loop o épico hino da campanha. No meio deles, o candidato, engravatado a despeito do local e do dia, passo lento e postura descontraída, evidencia um trato fácil com quem o aborda — e muita gente o aborda, entre clientes e feirantes, com passou-bens, abraços, beijos, elogios e remoques contra outros candidatos.Há quem lhe peça para “endireitar o país, que está tudo um caos”, e quem lhe garanta que gostou de o ver “mandar o outro abaixo”, em referência ao debate televisivo com Marques Mendes e às dúvidas que Gouveia e Melo levantou sobre os seus rendimentos enquanto consultor da sociedade Abreu Advogados: “Então ele não reparou que lhe entraram 300 mil euros na conta? Eu reparava.” A resposta do candidato vem num sorriso matreiro: “Eu noto se for 100 euros.” Em termos de remoques, porém, o alvo preferencial neste ambiente é, sem dúvida, André Ventura — como no caso, logo no início da caminhada, de um feirante que clama “os ciganos não estão aqui de borla, estamos aqui a pagar” e ouve de Gouveia e Melo (doravante GM): “O senhor é português, não é? Eu sou português também, não é preciso saber mais nada.”Mais tarde, no discurso que profere após um almoço de cachupa no pavilhão municipal do Bairro da Boavista, retornará à mesma ideia por outra via: “Eu nasci fora do território nacional [nasceu na Moçambique colonial], e ninguém me pode dizer que sou menos português que qualquer português.”“Tem cara de facho. Eu voto no Ventura”Há porém quem ache que há mais para saber, como Filomena, 75 anos, que, explica ao DN, queria auscultar a posição do candidato em relação aos imigrantes. Ouviu-o dizer que aquando da vacinação contra a Covid-19 surgiu a dúvida sobre se imigrantes (GM estaria a referir-se a estrangeiros indocumentados) deviam ser vacinados e ele, que se tornou conhecido quando assumiu a coordenação da dita, em fevereiro de 2021, foi de opinião que sim: “Então ia haver gente no território nacional sem ser vacinada?” Filomena gostou da resposta: “Eu vim de Angola há 50 anos, sou portuguesa, mas estou preocupada com quem vem dos países que têm a ver com Portugal, os países que Portugal colonizou, que têm ligação ao país. Acho que devem ter direito a ficar cá.” Quanto aos imigrantes de outros países, não está tão ralada. “Não sei, não percebo a língua deles, não conheço a religião deles, não consigo apreciar. Acho que têm de cumprir as nossas leis.” Isso quer dizer o quê? “Então, se eu for ao Dubai ou à Arábia Saudita no Verão e andar mais despida vou presa, eles aqui também têm de respeitar a nossa religião. Li que eles não respeitam a religião de cá, chamam-nos gentios, ímpios.” Mas Portugal não tem religião, não é? Há liberdade religiosa. “É verdade, mas há mais a religião católica. Vi na TV que numa escola as crianças não tiveram festa de Natal porque há lá muçulmanos. Não concordo com isso.” Já sobre o seu voto, está decidida: “Já tinha pensado apoiá-lo. É uma pessoa com disciplina, respeita o próximo.”Também Vera, de 73 anos, habitual votante socialista e como Filomena de origem africana, se declara convencida: “É um homem sério, de palavra.”Já Conceição Ferreira, 60 anos, torce o nariz enquanto escolhe bugigangas numa banca: “Gostava dele quando andava na vacinação, agora acho que não diz coisa com coisa, em tudo o que diz tem-se enterrado. E tem cara de facho.” Como assim, cara de facho? Já decidiu em quem vota? Pode dizer? “Posso pois. Vou votar Ventura, já são 50 anos de amiguismos.”Da mesma idade que Conceição e com um discurso semelhante — diz-se “farto” daqueles que denomina de “os do costume” — João, dono de uma banca de queijos, assume, em contraste, optar pelo almirante. “Sou do PSD, ou melhor, do PPD, e vou votar nele. Não sou contra o sistema, o sistema é que é contra nós.” . “O Direito [Internacional] vai ser criado conforme vamos evoluindo” Apresentando-se sempre como “apartidário” e “por Portugal”, GM encontrou agora, como declara aos jornalistas, outra forma de reforçar a ideia e de se afirmar como um candidato de todos: “Não tenho comissão de honra, a minha comissão de honra são estas pessoas, as pessoas simples que estão nas suas vidas diárias. A minha comissão de honra são os portugueses.”Mas o tema principal destes dias, que aliás chama à colação, lembrando o artigo que escreveu em março de 2024 sobre os novos desafios e perigos da conjuntura internacional e as suas valências como perito militar, é a intervenção dos EUA na Venezuela. Se no sábado a classificara como “ilegítima à luz do Direito internacional”, agora evita essa palavra. Considerando, a despeito das muito claras afirmações de Trump sobre o facto de pretender controlar o processo político e a economia da Venezuela, que “nenhum país vai conseguir controlar outro e já não há colónias”, aconselha “cautela e caldos de galinha”: “Os Estados Unidos são um aliado nosso. Somos europeus e atlânticos. É preciso nunca esquecer essa parte. E, portanto, temos que ter algum cuidado, algum sentido também de Estado”. Perguntado se o governo português não poderia, à imagem do espanhol, recusar a aceitação da intervenção dos EUA na Venezuela ao invés de a tomar como um facto consumado, GM torneia a questão: “É ingenuidade pensar que as posições sobre política internacional são definidas em termos morais. São sempre uma questão de força.”Ao DN, que, querendo perceber melhor esta afirmação, conseguiu num breve momento, entre selfies, interpelar GM, o candidato reitera que “as posições em relação à política internacional são sempre posições de força, raramente são só baseadas na estrutura da lei. Porque essa lei foi imposta após a Segunda Guerra Mundial e foi um sistema criado pelos Estados Unidos, que serviu também para uma hegemonia mundial.”Perante a insistência do jornal em relação ao contraste entre a sua qualificação, num primeiro momento, da ação dos EUA como ilegítima à luz do Direito Internacional — depreendendo-se assim que inaceitável —, e a afirmação sobre ser ingénuo fazer apreciações de questões deste foro em termos morais, o candidato nega existir contradição: “Não é nada contraditório. Eu acho que a legitimidade é o Direito Internacional. Mas o Direito Internacional foi criado pelos vencedores, criaram uma estrutura na Conferência de Yalta, e é essa estrutura que está a ser fraturada. Havia uma estrutura, um conjunto de regras, que são o Direito Internacional, e o que aconteceu é ilegítimo face a essas regras.”Como coaduna isso com a ideia, que agora articula, de que as posições de política internacional são sempre posições de força? “São sempre posições de força porque os vencedores dos conflitos e as potências mais hegemónicas são aquelas que acabam por criar a estrutura onde depois operamos todos.” Então como se deve reagir, do ponto de vista de um governo ou de uma Presidência da República, a uma situação como esta? “Neste momento, deve-se reagir como eu disse que se deve reagir: é um ato ilegítimo porque na estrutura onde operamos é um ato ilegítimo. É um ato ilegítimo agora como foi um ato ilegítimo [a invasão da Ucrânia] pela Federação Russa. E nós devemos sinalizar isso. Agora, o que é que está a acontecer? O que está a acontecer é que neste momento estamos a criar uma nova estrutura. O direito vai ser criado conforme vamos evoluindo.”Para concluir (havia uma fila de admiradores do almirante já em fúria), o DN quis perceber se a posição de Gouveia e Melo é mais parecida com a do governo espanhol ou com a do governo português (que não recusou aceitar a intervenção e chegou mesmo a dizer, pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel, que exigir o respeito pelo Direito Internacional seria exigir a reposição de Maduro no poder). A resposta foi assim: “A minha posição é muito simples: o que defende os países mais pequenos ou de média dimensão é o direito que nasceu da conferência de Yalta. E esta nova mudança é uma mudança mais real politik, não é? Em que o poder começa a ditar verdadeiramente as regras e é uma mudança perigosa para um país de pequena e média dimensão.”