“Estamos a falar de um jogo em que os outros participam e que, nessa medida, devemos jogar também.” É com esta ideia que o antigo governador do Banco de Portugal enquadra a necessidade de Portugal estar presente nos centros de decisão europeus na área financeira, sublinhando que a falta de representação nacional não é uma questão menor no atual contexto da governação económica da União Europeia.A saída de cena da candidatura de Mário Centeno à vice-presidência do BCE mantém Portugal sem representantes nas principais instituições europeias reguladoras na área financeira, uma realidade que o próprio considera relevante. As suas palavras podem ser lidas como um alerta à estratégia seguida pelo Governo na defesa de posições portuguesas ao mais alto nível das instituições europeias.O nome de Mário Centeno foi afastado da corrida ao cargo no decurso da reunião do Eurogrupo, num processo que exigia consenso político entre os Estados-membros da zona euro. O escolhido acabou por ser Boris Vujcic, governador do banco central da Croácia, associado a uma linha mais dura — de “falcão” — na condução da política monetária.Ao DN, Centeno sublinhou que a sua candidatura tinha fundamento político e institucional, apesar de não ter chegado a bom porto, destacando o percurso recente de Portugal e as suas próprias qualificações para o cargo.“Sobre o BCE, duas ideias: a escolha foi o resultado de um processo eleitoral, em que não podemos esquecer a votação do Parlamento Europeu, que demonstra que a candidatura fazia sentido, que havia espaço na Europa para avançar com uma candidatura sustentada naquilo que Portugal fez nos últimos anos, por um lado, e, por outro, nas minhas qualificações, enquanto ministro, governador do Banco de Portugal e presidente do Eurogrupo. Segunda: não tendo tido sucesso - a desistência teve a ver com a necessidade de encontrar um consenso -, Portugal continua sem representantes nas instituições europeias reguladoras na área financeira. E essa é uma questão que devemos levar muito a sério, de maneira a que seja colmatada num futuro próximo. Sem demasiados regionalismos, creio que devemos contribuir e estar presentes. Estamos a falar de um jogo em que os outros participam e, nessa medida, devemos jogar também.”A decisão conhecida na segunda-feira surge num momento em que decorriam intensas negociações políticas para o preenchimento de cargos de topo nas instituições europeias, num equilíbrio delicado entre geografias, famílias políticas e orientações sobre a política monetária. A escolha de Vujcic reforça o peso dos países do leste europeu e de uma abordagem mais restritiva no BCE, numa fase em que o combate à inflação continua a dominar a agenda.Para Portugal, o desfecho do processo volta a colocar no centro do debate a capacidade de assegurar representação em posições-chave da governação financeira europeia.