O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, assumiu esta segunda-feira, 23 de fevereiro, que a Base das Lajes tem sido alvo de “um uso mais intensivo” por parte dos Estados Unidos nas últimas semanas, mas garantiu que não está a ser colocado em causa o direito internacional e insistiu que não existe qualquer decisão extraordinária do Governo português relacionada com um eventual ataque ao Irão.Confrontado em Bruxelas sobre se Portugal deu autorização formal para a utilização da base açoriana nesse contexto, Rangel foi perentório: “Nada disso, até agora, tem qualquer especificidade.” O ministro garantiu que está em causa exclusivamente a aplicação do acordo bilateral em vigor desde 1951, que regula a presença e utilização da infraestrutura militar nos Açores. “O uso da base das Lajes pelos Estados Unidos tem sido feito exclusivamente, e como tem de ser, de acordo com o tratado que existe entre os dois países. E, portanto, isso é apenas relativo ao sobrevoo, ao estacionamento, e, eventualmente, à escala de aeronaves. E essa tem sido autorizada nos termos gerais do acordo. Portanto, é um acordo, como se sabe, prevê autorizações tácitas, que são dadas com um prazo relativamente curto. Mas, se me perguntar, a intensidade, nas últimas semanas, do recurso a essas autorizações no quadro do acordo é maior? É verdade que é maior do que tem sido habitual. Já aconteceu, mesmo durante o meu mandato, mais de uma vez, haver esse uso mais intenso", disse, em declarações reproduzidas pela RTP.O ministro confirmou, no entanto, que, ao abrigo do tratado, os Estados Unidos podem utilizar a base das Lajes no âmbito de operações globais sem que Portugal tenha conhecimento do enquadramento concreto dessas ações. “Isso é verdade. Podem usar, para qualquer operação, sem que Portugal tenha conhecimento. Isso é assim que está nos tratados, e é assim que está a ser em todas as bases europeias, nos mais variados países”, defendeu.Perante a comparação com o Reino Unido, que terá recusado pedidos de utilização de bases no Índico por receio de violação do direito internacional, Rangel evitou críticas diretas, mas reafirmou a postura do Governo português: “Nós estamos a fazer e faremos aquilo que sempre temos feito, que é o cumprimento do tratado que temos com os Estados Unidos.” Uma afirmação que repetiu quando questionado sobre quais as garantias de que a base não será usada para uma operação ofensiva sem a cobertura do direito internacional: “Cumprir o direito internacional é cumprir o Acordo das Lajes.”O ministro sublinhou que a autorização de utilização não depende de qualquer decisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas nem é enquadrada no âmbito da NATO. “Não, senhor, não é no âmbito da NATO”, frisou, lamentando que, no espaço público, circulem “as mais variadas coisas que estão completamente erradas” sobre o regime jurídico aplicável. “Os Estados Unidos usam a Base das Lajes nos termos do acordo que têm com Portugal, como usam várias bases na Europa, em vários países, aliás, neste momento também. E, portanto, é isso que vai acontecer e não tem nada a ver com o enquadramento que depois os Estados Unidos dão a qualquer operação que venham a desenvolver, seja ela qual for.” Rangel apelou à consulta dos precedentes históricos: “Olhem para os últimos 50 ou 60 anos e vejam. Foi sempre assim com Portugal. Eu volto a dizer: até agora, o que está a acontecer nas últimas semanas é um uso mais intensivo da Base das Lajes, sem dúvida, mas totalmente dentro e sem qualquer atropelo às regras de utilização que estão acordadas há imensos anos, há décadas e décadas e décadas, desde 1951, julgo eu, entre Portugal e os Estados Unidos. Sem nenhuma diferença.” O ministro dos Negócios Estrangeiros reforçou que, para Portugal, a aliança transatlântica “não é uma coisa nova, é uma coisa para manter”, independentemente das alterações geopolíticas em curso. “A aliança com os Estados Unidos é uma coisa que Portugal tem sempre defendido, tal como a nossa pertença à NATO”Apesar de defender o cumprimento integral do acordo com Washington, o ministro fez questão de separar isso da posição política portuguesa face ao Irão. “Portugal tem feito um apelo sistemático para que as questões e as diferenças se resolvam pela via da paz”, declarou, garantindo que “tem sido essa e continua a ser posição de Portugal”..PCP exige explicações urgentes do Governo sobre a utilização da Base das Lajes por parte dos EUA.Importância estratégica da Base das Lajes reiterada em reunião Portugal-EUA