Guerras no PSD/Porto fazem circular carta a pedir demissão de dirigente local

Hugo Neto escreveu mensagem duríssima contra Rui Rio. Militantes de uma secção do Porto escreveram pedindo-lhe que se demita, mas recuaram no envio de uma missiva que falava de "motivos egoístas e mesquinhos".

"Expostos os motivos pessoais, egoístas e mesquinhos que ditaram os desabafos ressentidos que produziu, entendemos que deixou de ter condições políticas e éticas para se apresentar, seja onde for, como Presidente do PSD do Porto e falar em nome do Partido Social Democrata."

Este é o desafio que estava plasmado numa carta a que o DN teve acesso contra Hugo Neto, presidente da comissão política de secção do PSD do Porto.

Em causa está o facto deste dirigente local dos sociais-democratas do Porto ter há dias escrito no Facebook uma crítica violentíssima a Rui Rio por este ter estado de férias na crise dos motoristas.

"Inacreditavelmente, a um mês e meio de eleições legislativas, o Presidente do PSD e o seu núcleo duro decidiram tirar férias, a meio duma crise que, empolada, aproveitada ou não, preocupa os portugueses. Já li e ouvi falar de 'PSD em serviços mínimos' e até de greve política. A ausência total de PSD, durante duas longas semanas num período político crítico é inaceitável e apresenta um odor demasiado forte a uma incompetente arrogância para que eu me consiga manter calado. O PSD é mais do que isto. O PSD não é isto!", escreveu.

Revoltado também com a forma como Rio lidou com o problema das listas de deputados, Hugo Neto acrescentou que Rio, neste problema como "no trabalho político diário, não podia ter desiludido mais". "Personificação máxima do Princípio de Peter, Rui Rio, um bom autarca, com quem trabalhei na Câmara do Porto, rodeou-se de gente sem qualidade e tornou-se num Presidente do PSD sem rumo nem estratégia. E se é, hoje, quase unânime, que depois de tantos erros e passos em falso, Rio terá que sair depois de 6/10, escusava de ter escolhido a porta mais minúscula para essa mesma saída."

As fontes do DN tinham garantido ao DN que Pedro Duarte, Hugo Carneiro, secretário-geral adjunto do PSD e Álvaro Almeida, candidato do PSD à Câmara do Porto em 2017, também eram subscritores, mas não se confirma. Nenhum deles está associado ao teor do documento. Os autores da carta, que as mesmas fontes dizem ter partido de membros do núcleo ocidental do PSD/Porto, acabaram por recuar no seu envio depois de ter sido conhecida publicamente e porque não terá recolhido os apoios que pretendiam.

Fontes do partido frisam que, neste momento pré-eleitoral, Rui Rio também não quer alimentar polémicas dentro do PSD e terá feito saber que prefere ignorar as críticas que lhe são feitas.

A carta tinha, aliás, uma adjetivação forte: "Foi com espanto e indignação que tomamos conhecimento das declarações que tornou públicas no passado dia 14 no Facebook e que, conforme era seu objetivo, tiveram larga divulgação e lhe conferiram os cinco minutos de fama que são dedicados às figuras menores que sucumbem, debandam ou renegam projetos e partidos a quem devem lealdade."

"Caráter, lealdade, responsabilidade e espírito de serviço são caraterísticas políticas e de personalidade que [Hugo Neto] revelou não possuir e que ficaram evidentes tão logo se viu afastado das listas de deputados."

Para os autores da carta, as declarações de Hugo Neto foram "graves e irresponsáveis" pois foram proferidas "num contexto pré eleitoral, onde se impunha lealdade institucional e uma liderança firme e mobilizada da nossa Secção do Porto e onde temos bem identificado o nosso adversário político: o Partido Socialista e António Costa!"

Assim, "caráter, lealdade, responsabilidade e espírito de serviço são características políticas e de personalidade que revelou não possuir e que ficaram evidentes tão logo se viu afastado das listas de deputados". Ao presidente da assembleia geral da secção do PSD do Porto era deixado um apelo: "Que avoque politicamente o processo e campanha eleitorais de outubro próximo".

Quanto ao resto, pediam para não confundir "as verdadeiras prioridades políticas e o interesse nacional com pequenos ajustes de contas de listas e lugares e pretendem participar na campanha eleitoral, do lado do PSD e ao lado do seu líder Rui Rio, no combate urgente e consequente à Esquerda Socialista, Bloquista e Comunista", já que "esse combate é que reflete a essência, a nobreza e o passado do nosso partido há mais de 40 anos".

"Os militantes do PSD não virarão a cara ao desafio eleitoral e estarão com Rui Rio nesta campanha dura e difícil, como é apanágio do PSD", conclui a carta. Ao DN, Hugo Neto garante que nunca foi confrontado com esta carta, mas admite que a sua posição contra Rio tenha causado "desconforto" nalguns setores do partido mais próximos do líder.

Ataque de Menezes

Esta carta que acabou apenas por circular internamente no PSD veio no mesmo tom do ataque que o antigo líder do PSD Luís Filipe Menezes fez a Hugo Neto no Facebook, exatamente pelas mesmas declarações. O antigo arqui-inimigo de Rui Rio - com quem recentemente fez as pazes - veio defender o líder, que o dirigente concelhio "desanca de forma como nenhum dirigente da geringonça fará".

"Não sou fanático apoiante de Rio, como o nunca fui de ninguém. Mas o PSD tem prioridade sobre todas as ambições. As contas fazem-se sempre, mas fora do campo e da hora de batalha. À moda de Hugo Neto é uma vergonha sem perdão", escreveu Menezes.