Lésbica, afrodescendente, médico e estudante universitária: as novidades do BE

Bloco de Esquerda tem pronta a sua lista de candidatos a deputados às próximas eleições legislativas, marcada para dia 6 de outubro. Em Lisboa e Porto não há novidades sobre quem encabeça a lista, mas há grandes novidades em Braga, Leiria e Santarém. Mas em Lisboa e Porto há entradas diretas em lugares elegíveis da afrodescendente Beatriz Dias e do médico Bruno Maia.

Mariana Mortágua e Catarina Martins foram as escolhidas para avançar como cabeça de lista em Lisboa e no Porto. Por Lisboa concorrem nove deputados, desde Pedro Filipe Soares à mais nova candidata que vem de Sintra, Sofia Oliveira, apenas com 20 anos e ainda a frequentar a licenciatura de sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Catarina Martins, e à semelhança do que aconteceu nas eleições de 2009, 2011 e 2015, avança pelo Porto, com mais sete candidatos, entre eles os já deputados José Soeiro e Luís Monteiro. Mas há mais novidades e com entradas diretas em lugares elegíveis.

De entre os 51 candidatos a deputados distribuídos pelo país, Europa e Mundo, o Bloco avança com novos nomes em Lisboa, Porto, Braga Santarém e Leiria. A grande novidade surge no Ribatejo com Fabíola Cardoso a substituir Carlos Matias por Santarém.

Fabíola Cardoso tem 46 anos e é professora de ciências naquela cidade. Conhecida como ativista lésbica, co-fundadora da única associação portuguesa vocacionada para a defesa dos direitos das Lésbicas, o Clube Safo, em 1996, e pela sua militância feminina. É a primeira vez que integra uma lista à Assembleia da República.

Em Braga sai Pedro Soares para entrar o professor sindicalista José Maria Cardoso, com 58 anos, e residente em Barcelos. O professor de Geografia integra a Mesa Nacional do BE e já tinha sido cabeça de lista nas eleições de 2005 e de 2009.

Uma das grandes surpresas ocorre em Leiria com a entrada do engenheiro agrónomo Ricardo Vicente, de 35 anos. Ativista desde os tempos de estudante, no Movimento Anti-Tradição Académica, Ricardo Vicente é aderente do Bloco e integra a Mesa Nacional.

No Porto, e em lugar elegível, surge o médico neurologista Bruno Maia, de 37 anos, de Massarelos, membro da Mesa Nacional do BE. Médico do Hospital São José, em Lisboa, sindicalista pela FNAM, foi um dos ativistas pelo Movimento Direito a Morrer com Dignidade.

Em Lisboa há duas grandes surpresas, a primeira é a entrada direta de Beatriz Dias para terceiro lugar, a seguir a Mariana Mortágua e Pedro Filipe Soares. Beatriz Dias tem 48 anos é natural de Dakar, Senegal, e vive em Lisboa, onde é professora de Biologia. É uma ativista do Movimento em Defesa da Escola Pública, delegada sindical da Fenprof, membro do SOS-Racismo e dirigente da Djass - Associação de Afrodescendente.

Na capital há ainda uma novidade, a mais jovem candidata a deputada, Sofia Oliveira, de 20 anos, de Sintra, a frequentar a licenciatura de Sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa. É militante do BE desde 2017.

Em Setúbal, Joana Mortágua mantém-se como cabeça de lista e, em Coimbra, acontece o mesmo com José Manuel Pureza.

Habitação: BE quer 100 mil casas entre os 150 e os 500 euros

A Mesa Nacional do BE esteve hoje reunida durante todo o dia para discutir também o programa eleitoral, definindo como uma das prioridades a questão da habitação.

Neste sentido, o BE defende a criação de 100 mil casas para arrendamentos acessíveis, entre os 150 e os 500 euros, considerando que assim se poderá resolver a crise que hoje se vive no setor.

A medida terá um custo estimado total de seis mil milhões de euros no global dos quatro anos da legislatura, prevendo o partido que parte seja financiado com comparticipação dos fundos comunitários.

"Este programa terá a vantagem de responder à crise habitacional que estamos a viver e à quantidade de pessoas que têm ficado sem casa e com muita dificuldade em pagar as suas rendas", explicou, em declarações à agência Lusa, a deputada bloquista Maria Manuel Rola.

O BE prevê que a receita das rendas pagas das 100 mil casas, entre os 150 e os 500 euros por mês - em função das características e necessidades dos agregados familiares - seja na totalidade utilizada para abater ao investimento, estimando que o Estado recupere todo o seu investimento a partir do quinto ano do programa, ou um pouco depois, consoante os juros considerados.

"Este plano de investimento consolidará os programas e iniciativas existentes, privilegiando a solução do arrendamento de longa duração, adotando uma definição mais ambiciosa de 'preços acessíveis' e assegurando a provisão através de uma combinação de reabilitação pública de alojamentos existentes, construção de novos alojamentos e, se necessário, subsídios ao arrendamento de alojamentos privados", pode ler-se no programa eleitoral.

O objetivo do partido é dar prioridade à reabilitação urbana para habitação permanente ou arrendamento por tempo indeterminado e, apenas onde necessário, recorrer à construção de novos fogos.

"Nós percebemos bem que existem várias casas devolutas por todo o país e que neste momento é também importante reabilitar essa habitação e garantir que ela está disponível e que não temos casas abandonadas e meio fantasmas por todas as cidades e principalmente nas cidades com maior pressão urbanística", justificou a deputada.

Segundo o programa eleitoral, "a habitação, um dos pilares do Estado Social, tem sido o parente pobre do investimento público em Portugal", identificando "vulnerabilidades e dificuldades de acesso substanciais para uma parte significativa da população, com especial incidência nos jovens e nas famílias das classes populares e tem feito disparar os preços do arrendamento privado".

Na perspetiva dos bloquistas, a aposta do Governo com uma Secretaria de Estado da Habitação e os programas públicos que entretanto foram criados "encontram-se muito atrasados e fragmentados, têm uma dimensão e financiamento reduzidos e não intervém decididamente na liberalização e financeirização do mercado imobiliário".

"O PS acomoda os interesses do mercado financeiro e garante assim que as famílias pobres e de rendimentos médios serão sempre prejudicadas", critica, no programa eleitoral.

Assim, segundo Maria Manuel Rola, "a resposta vai ter que ser muito mais decisiva e mais robusta para fazer face ao problema habitacional" Portugal vive neste momento, defendendo que só uma "intervenção de grande escala" é que permitirá "diminuir o valor das rendas do mercado privado".

"Parece-nos decisivo responder a este problema. Nós já respondemos à questão do salário e ao aumento do salário mínimo nacional, mas uma grande parte tem vindo a ser sorvida pelos custos habitacionais que têm vindo a subir exponencialmente ao ritmo de cerca de 20%, o que acaba por ser problemático para as pessoas", sustentou.

Portugal tem cerca de 2% de habitação pública, detalhou a deputada bloquista, "sendo que a média europeia anda à volta dos 15%", devendo o país deixar de estar "vulnerável como tem estado por muito mais tempo".

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