Andar nas gaiolas do Vale do Vouga, como há 100 anos

Viagem no Vouguinha foi pretexto para Bloco de Esquerda criticar as opções do Governo no investimento público ferroviário e as afirmações do ministro do Ambiente sobre carros a gasóleo.

O horário apontava a partida de São João de Ver para as 8.52 - o comboio tinha deixado Oliveira de Azeméis, a cerca de 20 quilómetros, às 8.16 e já vinha com atraso. Demoraria mais uns 25 minutos até Espinho-Vouga, a estação abandonada e emparedada, a pouco mais de 12 quilómetros no litoral, onde acaba a viagem do Vouguinha.

Nas paredes grafitadas e cheias de tags da estação de pedra, há uma placa de 2008 que assinala os "100 anos da Linha do Vale do Vouga", com uma citação do escritor Ferreira de Castro, sobre a linha inaugurada em 1908, retirada do seu livro, Emigrantes. Não se consegue ler essa frase, pintada com spray preto, mas nesse mesmo livro Ferreira de Castro escreveu que, "em Espinho, meteu-se nas gaiolas do Vale do Vouga - brinquedo ferroviário, simpático, modesto, de trinado infantil na vizinhança das estações".

Pouco mudou desde 1928, data da primeira edição do livro: só o trinado infantil desapareceu, agora a gaiola é uma máquina rançosa e barulhenta, que range nas curvas do vale, devagar, devagarinho, enquanto se faz ao mar, para terminar a viagem a 500 metros da estação principal da cidade e da Linha do Norte.

Não há nada que nos leve a apanhar um comboio assim. Mas é isto que leva os deputados do Bloco de Esquerda a subirem para as duas carruagens da velha automotora, na estação de São João de Ver (antes tinha ficado o apeadeiro de Cavaco e houve quem lamentasse em jeito de piada não se começar aí o percurso), no início das suas jornadas parlamentares, que esta segunda e terça-feira realizam em Aveiro.

No final da viagem, com o comboio a partir de volta para Oliveira de Azeméis, com meia dúzia de pessoas a bordo, o líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, aponta este exemplo, da "última linha de bitola estreita do país", como a "ausência de investimento numa infraestrutura importante para um distrito como Aveiro e como esta falta de investimento afeta a mobilidade das populações e afeta também o nosso combate às alterações climáticas".

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, falando mais tarde na feira de Espinho, para onde seguiu a delegação parlamentar bloquista, apontaria também este exemplo como prova de como as pessoas têm sido esquecidas. "A linha muito degradada", como a classificou, "faz muito pouco serviço ferroviário daquele que era necessário para unir as populações". "O programa de investimentos pode ter servido para ligar PS e PSD mas não serviu para ligar o país pela ferrovia", ironizou.

Catarina Martins deu o exemplo da linha de Guimarães, que passou de 300 mil passageiros para dois milhões, quando passou a ter ligação ao Porto. "Imaginem que nós ligávamos estas pequenas linhas ferroviárias em todo o país e o transporte ferroviário passava a ser uma opção que todas as famílias podiam ter."

Estava dado o mote para criticar as afirmações recentes do ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, de que os carros a gasóleo têm os anos contados. "Aí sim", apontou a líder bloquista, "estaríamos a trabalhar sobre o desenvolvimento do país e sobre as alterações climáticas porque retirávamos carros das estradas, diminuímos as emissões poluentes, fazíamos reconversão energética".

"É bom lembrar que a responsabilidade de um Estado com as alterações climáticas não é cobrar às pessoas o carro que podem ou não comprar, mas sim dar-lhe uma alternativa de transporte coletivo não poluente"

"Numa altura em que vemos o ministro do Ambiente a pronunciar-se sobre o carro individual e como é que as pessoas devem pensar ou não as suas opções de transporte individual, é bom lembrar que a responsabilidade de um Estado com as alterações climáticas não é cobrar às pessoas o carro que podem ou não comprar, mas sim dar-lhe uma alternativa de transporte coletivo não poluente" e "essa alternativa é a ferrovia", atirou Catarina Martins.

Pedro Filipe Soares explicou o que está em causa no caso da Linha do Vouga: a ligação à Linha do Norte, que fica a uns escassos 500 metros da estação do Vouga - e que, com chuva ou sol, quem queira fazer a ligação entre as duas linhas é obrigado a ir pela rua; a bitola da linha que não será atualizada no investimento público previsto até 2030; e o facto de os deficientes motores não poderem usar este serviço, como foi o caso do deputado Jorge Falcato.

A renovação prevista para esta via não prevê a recuperação do troço entre Oliveira de Azeméis e Sernada do Vouga, encerrado em 2015 por questões de segurança - e que hoje é assegurado por serviço de táxi e assim continuará -, impedindo também uma mobilidade entre municípios do interior do distrito de Aveiro e uma ligação eficiente à capital do distrito.

O Bloco de Esquerda já fez aprovar uma resolução em 2018 no Parlamento para uma melhoria da via férrea. Com o plano nacional de investimentos, a ser discutido nas próximas semanas pelos deputados, Pedro Filipe Soares espera que se possa avançar com uma modernização a sério da Linha do Vouga.

Com três eleições no horizonte de 2019, o BE já está a sério em pré-campanha. Depois da viagem na automotora, e depois de passarem à Drogaria Centeno, numa rua de Espinho, os deputados foram até à feira semanal da cidade para aí distribuírem folhetos com aquilo que o partido diz ter conseguido no Orçamento do Estado para este ano.

Catarina Martins ouve elogios e piropos - "é pequenina, mas é valente, e bonita", atira um casal à conversa - enquanto se demora a ouvir as pessoas e a explicar-lhes o que podem fazer. "Que diferença vai haver?" com estes políticos, atira uma mulher antes de perceber que é a líder do BE que ali anda. "Ai, com esta menina vai haver", atirando-lhe um "boa sorte" para o ano eleitoral.

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