A cidade do Porto manteve-se fiel ao "casmurro mas muito sério" Rui Rio

Nas sete uniões de freguesias do concelho, Rio só perdeu em Campanhã. São os efeitos de 12 anos na câmara, dizem portuenses. Até militantes socialistas admitem qualidades: "É casmurro mas é muito sério. Isso tem influência."

Se a nível nacional, as eleições legislativas foram uma derrota para o PSD e para Rui Rio, no concelho do Porto há uma consolação. Pode ser pequena mas na segunda cidade do país, Rio venceu com 34,1%, o que corresponde a 44 211 votos, contra os 39 505 do PS (30,5%). Nas ruas, esta vitória no Porto encontra uma justificação fácil e lógica. "O homem foi durante 12 anos presidente da câmara e as pessoas conhecem-no." Na estrutura local, não se esquece este facto mas há quem lembre que o PSD sempre teve bons resultados no Porto, acima da média nacional por norma. Rio vence e, em relação a 2015, em que houve uma coligação com o CDS no distrito, parece aguentar o partido. Nas últimas legislativas a PAF teve 51 611 votos. O PS, que tinha obtido na cidade um total de 43 730 votos, desceu agora para os referidos 39 505. No discurso na noite eleitoral, o próprio Rio destacou a subida, em relação a autárquicas e europeias, em Lisboa e Porto.

"Ganhou no Porto? Nem sabia. As pessoas conhecem-no bem por ter sido presidente da câmara. Para mim, que sou socialista, não foi bom presidente mas isso é relativo. Aqui no Porto há sempre disputa grande entre PS e PSD", avalia David Moreira Félix, enquanto lê o jornal no jardim da rotunda da Boavista. Apesar de não ter votado no candidato social-democrata, este portuense de 65 anos não deixa de elogiar algumas das suas características que podem explicar o sucesso entre os portuenses. "É casmurro mas é muito sério. Reconheço isso e é uma característica que tem muita influência", refere, admitindo que Rui Rio "tem sempre futuro" na política. "Pensei que estava quase arrumado mas levantou-se na campanha. É mais mal visto dentro do PSD do que fora", aponta David Félix, que até graceja com a situação, admitindo que há uma parte de Rio que gostava de ver no governo socialista. "Sou do PS mas vejo muito amiguismo, alguma corrupção. Gostava que houvesse mais honestidade à volta de António Costa. É mau para nós, portugueses."

"A marca do PSD está no Porto"

No distrito do Porto, os resultados não foram tão bons, sem serem péssimos. O PS ganhou e elege 17 deputados (mais três), oPSD fica com 14 deputados, e se contarmos com o eleito do CDS (partido que desce muito) para comparar com 2015 em que a PAF elegeu 17 deputados, terá ficado sem um deputado. Venceu em concelhos como Maia, Póvoa de Varzim e Paços de Ferreira. Mas é no concelho do Porto que o efeito Rio mais se terá sentido. Nas sete uniões de freguesia da cidade, Rio só perdeu em Campanhã, um bastião do PS. Hugo Neto, líder da secção concelhia do PSD do Porto, diz que "um resultado nunca é apenas fruto de uma única circunstância". Este dirigente admite que os "12 anos de câmara deixam uma marca positiva" no eleitorado mas lembra que o partido sempre teve no Porto votações acima da média nacional. "Sociologicamente o Porto está identificado com a marca do PSD."

Este ex-presidente da JSD, que em agosto manifestou descontentamento com a estratégia política de Rio e por agora rejeita falar de resultados nacionais, diz que o resultado no Porto "é uma satisfação" e deixa "bases para a construção de um projeto alternativo para as autárquicas". Nas hostes laranjas há já a análise da comparação com o movimento de Rui Moreira. O atual autarca do Porto não apoiou ninguém nestas eleições mas vários elementos próximos estiveram em listas da Iniciativa Liberal e outros são assumidamente do CDS, partido que integra o movimento. Nas europeias Moreira tinha dado o apoio pessoal ao Aliança. Dentro do PSD há quem veja aqui a pouca expressão do movimento fora do nível autárquico.

A força de Rui Rio junto do eleitorado socialista é visível na rua. João Dionísio, 21 anos, licenciado em Matemática, começa por dizer que não vota no Porto mas sim na Maia, um concelho por norma PSD desde os tempos de Vieira de Carvalho, mas onde o PS venceu nas europeias. "Mas agora o Rui Rio também ganhou na Maia", alerta logo este militante do PS "que nem sempre vota no partido". Argumenta que "não se pode ver a política como um clube de futebol". Sobre Rui Rio, diz que "nem esteve muito mal" a nível de resultados, tendo em conta o que se previa e a divisão no PSD. O futuro "agora depende da vontade dele", diz o jovem, para quem a vitória na cidade é "um fenómeno normal em política - as pessoas vão atrás de quem já conhecem."

Teresa Garcia, mais velha, tem mais dificuldades em explicar os números do Porto. "O bairrismo existe em todo o lado, não é só aqui. Ter sido presidente da Câmara pode ter ajudado mas acho estas coisas dos votos são sempre um bocado inexplicáveis", refere. Aponta que o Porto "mexeu-se bem, com muita a gente a votar", o que permitiu novos partidos como o PAN terem elegido um deputado.

"As pessoas habituam-se e vão atrás"

Noutra zona da cidade, as opiniões não mudam muito. "Não fiquei surpreendido. Foi durante muitos anos presidente da Câmara do Porto e as pessoas conhecem-no. Quando os políticos estão muitos anos nos cargos, o povo começa a gostar deles. Habituam-se, O [António] Costa é a mesma coisa, as pessoas já o veem há muito tempo e se amanhã houvesse eleições outra vez ia ganhar ainda com mais votos", diz este morador na zona do Bonfim, que, nesta linha de pensamento, admite que Rui Moreira ganhe novamente uma eleição no Porto ou a outro nível. "Também já é conhecido do povo e tem o seu charme e o Porto voltará a votar nele provavelmente."

Não sendo apoiante do PSD, Artur Sousa diz que nunca votou em Rui Rio para a Câmara do Porto e que nem vê grande futuro para o líder do PSD na política nacional. "Tem uma imagem de duro, de homem zangado. O Costa é mais aberto, ri-se e tal. O Rio é mais trombudo".

Após o café e a leitura do jornal, Fernando Nogueira, 70 anos, confessa que ficou um "pouco surpreendido". Previa que o PS ganhasse mas admite que o trabalho autárquico teve peso na hora de votar. "Há um certo bairrismo sempre no Porto, é uma figura que esteve muitos anos na câmara. Isso pode ter ajudado a ter essa votação."

Paulo Silva, 42 anos, votou em Rui Rio e lamenta as circunstâncias que não permitiram que o resultado no Porto tivesse acompanhamento a nível nacional. " Aqui as pessoas sabem como trabalha Rio e por isso votaram nele. Foram três mandatos na câmara. Mas as circunstâncias no país, com o PS a beneficiar do ciclo económico e as divisões na Direita, não permitiram que Rui Rio tivesse um melhor resultado a nível nacional", afirma, convicto que a votação no Poro é a que se adequa ao líder do PSD. "Mesmo que os resultados não sejam os melhores, também não são assim tão maus. Isto dá força para ele continuar. Ainda vai ser primeiro-ministro."

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