De Hudson a Sheen: um vírus tabu em Hollywood

Charlie Sheen revelou ser seropositivo. Antes, outras figuras públicas com a síndrome tentaram esconder que estavam doentes

Nervoso e cabisbaixo, mas determinado a assumir, perante os norte-americanos, o que já há duas semanas se especulava. Foi assim que Charlie Sheen anunciou na manhã de terça-feira, em direto no programa NBC Today e para 5,5 milhões de espectadores, que era seropositivo. O pai, o também ator Martin Sheen, "não podia acreditar na coragem que estava a testemunhar" e "disse-lhe que com essa valentia ele poderia mudar o mundo".

A história desta revelação não é muito diferente da de Rock Hudson. Separam-nas 30 anos. A 25 de julho de 1985 - um dia antes de o San Francisco Chronicler escrever que o galã das décadas de 1950 e 60 era homossexual -, o mundo ficou a saber que o ator tinha síndrome de imunodeficiência adquirida. Foi o próprio quem o anunciou, através de um porta-voz do hospital onde estava (novamente, soube-se mais tarde) internado para tratamento, em conferência de imprensa difundida na televisão dos Estados Unidos. Uma confirmação que acabou, tal como agora, com os rumores que a imprensa foi publicando ao longo dos dois anos que a antecederam. Hudson, a primeira celebridade a admitir publicamente ter sida, acabaria por morrer no início do mês de outubro desse mesmo ano, mas não sem antes assistir à histeria em torno da sua declaração - como quando Charlton Heston afirmou que "um membro de um grupo de risco [como Hudson] tinha a obrigação de recusar fazer cenas de beijos".

Quando lhes apontavam o dedo

Do outro lado deste apontar de dedos, e um mês antes da sua morte, o ator ainda ajudou a criar a American Foundation for AIDS Research, cofundada com a amiga Elizabeth Taylor, e à qual doou 250 mil dólares. E contribuiu, indubitavelmente, para que se falasse (mais) abertamente sobre esta doença, até então um tabu. Durante a sua vida, Rock Hudson ter-se-á cruzado - e alegadamente mantido uma relação íntima - com o coreógrafo Grover Dale e com o bailarino Rudolf Nureyev. E também com Anthony Perkins. Tal como o conhecido dançarino russo, também o intérprete de Norman Bates em Psycho (1960), de Alfred Hicthcock, perdeu a batalha para a sida, em setembro de 1992. Tinha 60 anos e era casado e pai de dois filhos. Soube-se que tinha sida apenas depois da sua morte. "Escolhi não dizer nada antes porque, parafraseando Casablanca, não é que eu seja especial, mas já percebi que os problemas de um velho ator não valem um punhado de feijões neste mundo louco", desabafou em comunicado, no qual deixou ainda uma nota a quem ostracizava as "vítimas". "Há muitos que acreditam que esta doença é vingança de Deus, mas eu acho que ela foi enviada por Ele para ensinar as pessoas a amar e a compreender, e a ter compaixão pelos outros. Eu aprendi mais sobre amor e compreensão humana entre pessoas que conheci durante esta grande aventura no mundo da sida do que no assassino e competitivo mundo [de Hollywood] em que perdi a minha vida", escreveu. Perkins tinha testemunhado, um ano antes, o sucedido com Freddy Mercury: em 1991, o vocalista dos Queen sentiu-se na obrigação de explicar perante os milhares de fãs a razão do seu aspeto frágil. Prometeu nunca mais falar sobre o assunto. E nunca mais falou. "Procurei manter este segredo para me proteger, a mim e àqueles que me rodeiam, mas chegou a altura de dizer a verdade e espero que todos se unam a mim, aos meus médicos e a todos os que lutam para combater esta terrível doença, para lutar contra ela." Morreu no dia seguinte, aos 45 anos, quatro depois de saber que tinha sida e quando a doença não deu tréguas a uma broncopneumonia.

Do ator ao filósofo e ao bailarino

Ao longo dos últimos anos, o impacto que estas revelações têm tido é estrondoso. Desde a de Rock Hudson, em meados dos anos 1980, até à feita no início desta semana por Charlie Sheen na NBC, passando pelo russo Nureyev, pelo filósofo, historiador e crítico literário francês Michel Foucault (o seu companheiro, Daniel Defert, fundou a AIDES, a primeira associação de combate à sida em França), pelo tenista Arthur Ashe, pelos atores Robert Reed, Denholm Elliott e Gene Anthony Ray, pelo artista plástico Keith Haring ou pela estrela do basquetebol Magic Johnson.

Foi a 7 de novembro de 1991, no mesmo ano em que Mercury morreu, que o jogador da NBC anunciou que a síndrome de imunodeficiência adquirida era mais uma das batalhas da sua vida. Mais de 20 anos depois, Magic Johnson ouviu a confissão de Sheen. E deixou-lhe uma mensagem: "Desejo o melhor a Charlie Sheen e à sua família. Com a evolução dos tratamentos e da medicina, ele pode combater a doença e ter uma vida longa."

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