Do "amor de mãe" às sereias. As histórias das tatuagens do Ultramar

"Ultramar na pele" é o nome do livro que deverá ser lançado até ao final do ano por Diana Gomes, tatuadora, e Rui Caria, fotojornalista. Conta a história dos desenhos que os veteranos da guerra colonial trouxeram no corpo

Se não se tivesse envolvido numa briga na tropa, Fernando Simas não teria ido para a Guerra do Ultramar. Aquele foi o "castigo" pelo mau comportamento. Recorda-se de "caminhar quilómetros durante muitos dias e muitas noites". Das lágrimas. "E é na cantina do acampamento, depois de lavar a alma com algumas cervejas, que se deixa levar pela conversa do soldado Morais. Encosta-se à cadeira e o Morais tatua-lhe uma âncora no braço esquerdo." Em São Salvador do Congo, no Zaire, Angola, o colega fez-lhe mais uma tatuagem: "Pegava na caneta, desenhava e depois passava com as agulhas e a tinta da china. Dessa vez foi uma mulher nua no braço direito."

É com entusiasmo que Diana Gomes conta as histórias das tatuagens dos antigos combatentes da Guerra do Ultramar com quem falou nos últimos três anos. "São verdadeiros tesouros, quase extintos. São perfeitas pela beleza única e pela forma simples como eram feitas. E também por tudo o que transmitem", diz-nos ao telefone a partir do estúdio de tatuagens Poison Tattoo, na Praia da Vitória, na Ilha Terceira, nos Açores, que abriu há 14 anos com o marido. Aos 34 anos, Diana, que começou a fazer piercings há 20 e tatuagens há um, prepara-se para lançar o livro "Ultramar na pele", em coautoria com o fotojornalista Rui Caria. Com textos e imagens, querem contar histórias de quem foi à guerra e ficou tatuado, "por dentro e por fora", como costumam dizer.

Diana não tem qualquer ligação à guerra da Ultramar. "A maior parte dos meus familiares nem à tropa foi", afirma. Foi no estúdio que surgiu o interesse por estas tatuagens. "Quando via uma tatuagem antiga, conseguia identificar se era do Ultramar. E queria saber as histórias, como tinham sido feitas e porquê". Mas o papel de mãe e esposa fizeram com que adiasse "o sonho".

Há três anos, quando Rui Teixeira, então com 64 anos, se dirigiu ao estúdio, pedindo que lhe tapassem as tatuagens que tinha feito no Ultramar, Diana ficou em "choque". Percebeu que era o momento de avançar com a ideia que já a perseguia há mais de dez anos e que até então só tinha partilhado com o marido. Falou-lhe do livro e ele concordou participar. Procurou ajuda para encontrar mais veteranos na Junta de Freguesia da Vila das Lages, mas sem grande sucesso. "Sabemos que existem, mas são cada vez mais difíceis de encontrar." Foi falando com amigos, participou num encontro de ex-combatentes e espera reunir entre 13 a 14 testemunhos.

O homem que tatuou a madrinha de guerra, mas descobriu que afinal não iam casar

Luiz Espanhol tem um "coração enorme tatuado no peito". Lá dentro, diz Diana, "amor de pais". "Foi para a guerra, mas os pais não sabiam. Só quando estava em Angola é arranjou maneira de comunicar que já lá estava. No dia em que os pais receberam a mensagem, fez a tatuagem". Mas não ficou por aí. "Também tem uma tatuagem com uma cruz e um Jaz AF 28/08/75". Queria desfazer-se do namoro com a namorada e, para isso, fez uma tatuagem como se ela tivesse morrido. "O mais curioso é que quando voltou de Luanda, casou e teve dois filhos com ela".

À medida que foi ouvindo histórias, Diana Gomes pesquisou para saber o significado dos desenhos que ia vendo. "O 'amor de mãe' é muito gozado. Mas fiquei a saber que, quando as mulheres iam levar os filhos às naus, ficavam de luto até ao seu regresso". Também é muito comum encontrar tatuagens dos sítios por onde passaram, de sereias ou de âncoras. Estas últimas, diz a tatuadora, "são símbolo de firmeza, de força e fidelidade. Também simbolizam esperança na tempestade e nos momentos de turbulência". Mas nem sempre há um motivo para fazer a tatuagem. Fernando Simas, por exemplo, deixava que fosse o soldado Morais a decidir o que tatuar.

As âncoras são uma das tatuagens mais comuns. Simbolizam firmeza, força e fidelidade

Houve quem também tatuasse as "madrinhas de guerra", mulheres, geralmente solteiras, que trocavam cartas com os soldados. "Davam-lhes alento, suavizavam as saudades e enviavam notícias. Por vezes, as cartas tinham conteúdo sensual. Eram como umas sereias da terra." João Oliveira, que foi para o Ultramar por vontade própria, deixou que lhe tatuassem a Grimanesa, a sua "madrinha de guerra", cujo nome foi gravado no braço, dentro de dois corações. "Iludiu-se a pensar que gostava dela, que iam casar, mas quando regressou a Portugal percebeu que não era dela que gostava."

Três agulhas de costura para marcar a pele

Embora os testemunhos tenham sido recolhidos na Ilha Terceira, nos Açores, Rui Caria diz que "são transversais" à maioria dos homens que estiveram na Guerra do Ultramar. "É um mini acervo e uma menção à existência destes homens. Se calhar daqui a 20 ou 30 anos dificilmente haverá alguém com estas tatuagens", diz ao DN. Foi por isso que acedeu ao desafio lançado por Diana Gomes para fotografar os ex-combatentes. "Achei a ideia fantástica, genial", sublinha.

Rui Caria recorda um episódio violento contado por um dos homens que fotografou, mas diz que poucos partilharam esse tipo de memórias da guerra colonial. "Esses episódios estão gravados neles, inscritos como as tatuagens, mas não se veem." O trabalho, prossegue, incide mais nas razões que os levaram a fazer uma determina tatuagem, em que condições as faziam.

Segundo Diana Gomes, as tatuagens eram quase sempre feitas por outros soldados. "Usavam três agulhas de costura, enroladas em linha e depois molhavam-nas em tinta da china". Técnicas bastante diferentes daquelas que são usadas hoje. "E tatuavam-se uns aos outros com as mesmas agulhas. A única forma de desinfetar era passar por álcool e voltar a usar." De acordo com os testemunhos, "havia sempre um soldado que tinha mais jeito e era o tatuador do pelotão".

Relativamente ao momento da pintura, destacam-se, essencialmente duas situações: "Ou nos momentos de saudades extremas da família e da terra ou quando regressavam de combates trágicos, penosos. Quando chegavam à caserna, havia aquele sentimento de sobrevivência, de luta pela pátria." E muitas, claro, "eram feitas sob o efeito de álcool".

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