Viva o teatro!

Hesitei ao dar o título à crónica de hoje. Deveria talvez pôr o nome de quem desejo homenagear - o homem do teatro e da cultura, que é João Mota. Mas sei que o próprio é o primeiro a concordar comigo, uma vez que o título que escolhi corresponde à extraordinária causa que ao longo de toda a sua vida abraçou. Quando se celebram os 50 anos do Teatro de Pesquisa "A Comuna", João Mota regressou à representação, em A Casa de Bernarda Alba e todos quantos assistimos a essa estreia memorável, sob a direção de Hugo Franco, sentimos que foi a essência do teatro que aí se viveu. A minha amizade e admiração por João Mota vem de há muito e foi reforçada na Fundação Gulbenkian e na colaboração antiga com o Centro Nacional de Cultura, cuja história tem tudo a ver com o teatro, graças ao encontro mágico entre Fernando Amado e Almada Negreiros, que culminaria na criação do Grupo Fernando Pessoa e no desenvolvimento da Casa da Comédia. É uma história longa e apaixonante que tem a ver com o reconhecimento do teatro e das artes como expressão sublime da cultura e do humanismo.

Sabemos que A Casa de Bernarda Alba (1936) foi a última obra dramática em prosa da autoria de Frederico Garcia Lorca, acabada poucos dias antes da sua trágica morte. É a derradeira peça da trilogia de que fazem parte Bodas de Sangue (1933) e Yerma (1934) Estamos perante mais do que uma metáfora, que nos permite compreender o tempo vivido pelo poeta, como expressão do próprio género humano. O drama divide-se em três atos, todos situados no interior da casa de Bernarda Alba, mãe que vive com as suas cinco filhas - Angústias, Madalena, Amélia, Martírio e Adela -, ainda na companhia de uma avó já senil, num pequeno povoado de Espanha. E a mãe de família impõe a suas filhas um longo luto de oito anos pela morte, que acaba de ocorrer, do seu segundo marido. A presença de Bernarda Alba representa, assim, desde o início, a vivência de um conflito humano, que se assemelha à obra clássica de Sófocles, Filoctetes, na qual duas personagens, Ulisses e Neoptólemo, apresentam o protagonista, em tom narrativo, para situar o público no drama.

Mais do que o poder no feminino é a sociedade humana que Lorca apresenta - indo à essência do teatro, como no paradigma de Antígona.

Na tradição do teatro grego, João Mota, João Grosso e Carlos Paulo encabeçam uma equipa de jovens atores na representação de uma obra complexa, onde se manifestam as contradições, os conflitos, as diferenças e as relações de autoridade, que identificam o espaço fechado da família de Bernarda. Mais do que o poder no feminino é a sociedade humana que Lorca apresenta - indo à essência do teatro, como no paradigma de Antígona. A sociedade humana corresponde a um mundo contraditório e pleno de incertezas. E vão-se desenhando os termos da tensão humana - a paixão, o amor, a inveja, a conflitualidade insanável, do mundo que Bernarda Alba deseja controlar até às últimas consequências. Pepe el Romano rompe o universo fechado que a mãe de família constrói e procura preservar, incapaz de evitar a catástrofe que consuma a tragédia. Pepe el Romano ameaça o equilíbrio da casa e da família. Havia que intervir. O conflito entre Martírio e Adela culmina no ato desesperado desta, perante a antevisão da condenação do amado. Adela não encontra outra solução para responder ao fechamento e à opressão senão a morte. É o teatro na sua expressão essencial que encontramos e João Mota, na personagem de Bernarda Alba, põe toda a sua experiência e toda a sua força interior numa verdadeira homenagem à função essencial do teatro, como manifestação suprema da dignidade humana. E o regresso de João Mota é expressão de amor e de vontade na defesa do teatro, como demonstração de vida, a quem temos de ficar profundamente gratos. Se a primeira palavra de Bernarda Alba é "Silêncio" é porque o teatro nos ensina a ouvir, o que obriga a uma atenção especial relativamente ao muito que tem para nos dar.


Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG