Uma cortina de fumo de Kiev a Ouagadougou

No início desta semana caiu a segunda peça do dominó saheliano e a terceira do dominó oeste-africano, o Burkina Faso. Em resumo, o Mali viu dois golpes de Estado com uma distância de oito meses, agosto de 2020, que depôs o recém-falecido ex-presidente (PR) Ibrahim Boubakar Keita, e em maio de 2021 enquanto correcção de tiro dos golpistas de agosto, apelidado de "golpe dentro do Golpe". A República da Guiné (Conakri) viu semelhante golpe em setembro de 2021, seguindo-se agora o Burkina Faso em janeiro de 2022.

Parece-me por demais evidente que o factor comum a esta leva de golpes, tão próximos no tempo e na geografia, se chama Rússia, pelo menos nos casos específicos do Mali e do Burkina Faso. E também me parece possível estabelecer a seguinte analogia face às investidas soviéticas no pós-25 de Abril português. O papão do comunismo avançava sobre Portugal e pareceu-nos evidente que seríamos a próxima Hungria ou Checoslováquia, mas com o cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa continental e membro fundador da NATO. Algo profundamente contranatura e que Moscovo bem sabia, como hoje sabemos, depois de a poeira e certo histerismo assentarem, que o interesse soviético não era tomar Lisboa de assalto, mas sim inquinar os processos negociais das independências das ex-colónias africanas, no sentido de sobretudo Angola e Moçambique ficarem na orla de Moscovo, como aliás aconteceu. A prioridade na procura das "águas quentes" que permitem uma operacionalidade efectiva da vasta frota naval russa sempre os moveu. Ora o evoluir da actual situação na Ucrânia poderá muito bem servir os mesmos propósitos, estabelecendo aí uma cortina de fumo que vai distraindo americanos e europeus de palcos considerados secundários face à prioritária Europa. Não acredito que a Rússia invada a Ucrânia após ter segurado a Crimeia, território que a conecta com o Mediterrâneo através do mar Negro e lhe dá acesso a Tartus e Latakia na Síria e agora também a uma "Cirenaica russa" na Líbia, fronteira com o aliado Egipto que controla o canal de Suez e lhes permite passagem para o mar Vermelho, Arábico e oceano Índico. Esta é a prioridade russa na Ucrânia, projectada a partir da Crimeia, na mesma medida em que a Líbia é também prioridade, no estabelecimento de uma base naval em Tobruk e, sobretudo, na possibilidade que a Cirenaica e não a Líbia enquanto todo lhe dá como plataforma de projecção de força no sentido de ganharem profundidade estratégica em África, nomeadamente no Sahel, com a justificação da caça ao jihadista. Tudo isto é racional, tudo isto é fado!

Por outro lado, e daí a distracção europeia face a estes avanços russos no Sahel, a verdade é que a tensão na Ucrânia interessa mais a europeus do que a russos. Desde logo enquanto prova de união ou desunião entre os 27 e depois enquanto futuro da NATO, que poderá ver na cimeira de junho posição de confronto da França, caso Macron seja reeleito em abril, no sentido de criar mais argumentos para a inevitabilidade da construção de um Exército Único Europeu, consolidando a União Europeia enquanto confederação, fechando assim o debate académico sobre o que somos.

Putin leva a dianteira e joga o futuro da arquitectura de defesa europeia na Europa e a partir desta África mais próxima também. Guerra fria é isto!

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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