Uma bala de canhão na maioria absoluta

Os falantes de língua inglesa têm uma expressão que resume na perfeição a semana de António Costa. "He"s too clever by half", isto é, ele é demasiado esperto por metade. A expressão, frequentemente empregue na análise política, aplica o humor britânico à habilidade do jogo democrático. Ele é demasiado esperto por metade, no sentido em que lhe faltou a segunda metade da esperteza para convencer os destinatários desta. Na apresentação das medidas sociais contra os efeitos da inflação, o primeiro-ministro foi, verdadeiramente, too clever by half. Depois de meses a negar propostas que incentivassem a procura por risco de espiral inflacionista ("esta é uma crise da oferta!", diziam), o governo chegou a setembro com uma redistribuição do excedente fiscal que faz justamente isso. Munido de cheques para jovens e famílias até aos 2700 euros -- o dobro do salário médio nacional --, antecipou metade do aumento das pensões de 2023 e prometeu proteger o poder de compra dos reformados no próximo ano. Para primeira metade da esperteza, nada mal. A segunda, todavia, pecou por ausência.

Ao rever a fórmula de atualização das pensões, o governo estará a cortar cerca de 3,5% nas pensões, o equivalente a cerca de 600 milhões por ano -- coincidentemente, o mesmíssimo valor que a ministra das Finanças de Passos Coelho, em 2015, apontava como necessário para garantir a sustentabilidade da Segurança Social. O primeiro problema? É que nem António Costa nem os seus ministros, ao contrário de Maria Luís Albuquerque, o assumiram. O segundo problema? É que toda a gente percebeu.

A subida das taxas de juro, o contexto de inflação, uma dívida pública entre as maiores da zona-euro e uma economia de baixos salários tornavam esta crise extraordinariamente difícil de gerir para qualquer governo português. Para o Partido Socialista, reeleito há menos de nove meses com uma maioria absoluta, acresce-se outra dificuldade. A composição eleitoral que tem suportado o seu consecutivo sucesso nas urnas depende de um pilar imprescindível: os pensionistas. No equilíbrio entre contas certas e popularidade, entre responsabilidade orçamental e manutenção de poder, nenhum outro grupo -- excetuando a função pública -- é tão determinante para o PS. Ao mascarar um corte na evolução das pensões com um brinde pontual e ter sido apanhado a fazê-lo, o primeiro-ministro disparou um tiro no porta-aviões que é a sua maioria absoluta. O seu eleitorado, que está há mais de dez anos a ouvir falar de Passos como papão de pensões, viu em direto toda a imprensa e toda a oposição a denunciar que, afinal, Costa também se prepara para fazê-lo.

Com menos de nove meses de terceiro governo e uma supremacia parlamentar para os próximos quatro anos, Costa tinha mais do que mandato e apoio para reunir a Concertação Social, a opinião pública, o maior partido da oposição e o sempre presente Presidente em torno da sua "reforma" da Segurança Social. Tinha inclusivamente tempo para recuperar popularidade caso esta se ressentisse. O PSD, agora liderado por rostos da era passista, pouco teria a dizer contra a poupança. Indexar as pensões à inflação faria disparar o défice e prejudicaria o acesso de um país já endividado aos mercados. Passos sabia-o, Costa sabe-o e qualquer um -- independentemente da retórica envolvente -- o saberia.

Mas o primeiro-ministro fez o oposto disso. Não chamou ninguém, não negociou com ninguém, não ouviu ninguém, não disse sequer nada a ninguém. Deixou o corte nas entrelinhas, rapidamente expostas pela comunicação social e denunciadas pela esquerda que antes o apoiou. O primeiro-ministro poderia ter mostrado a coragem de dizer a verdade, falar diretamente aos portugueses e defender a responsabilidade da sua medida. Acabou por passar por desonesto, minando a sua relação com um eleitorado que merecia uma explicação e a quem muito deve.

No altar do populismo, Costa sacrificou o mais valioso dos bens de um líder durante uma crise: a credibilidade. Foi ela que manteve Zelensky vivo, contra um monstro militar 28 vezes o seu tamanho. Foi ela que derrubou Boris, dono da maior maioria absoluta dos conservadores desde 1987. E é dela que o primeiro-ministro português sentirá a falta nos tempos que aí vêm.

Inegavelmente, os portugueses confiaram em António Costa em janeiro de 2022. Nove meses depois, António Costa não confiou suficientemente nos portugueses para lhes dizer a verdade.

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