Ubuntu e a recuperação de aprendizagens

O rasto que o efeito da pandemia deixou na sociedade portuguesa foi grande. Apesar do esforço extraordinário que tantos fizeram, nomeadamente docentes e não-docentes das nossas escolas, os impactos nas aprendizagens fazem-se sentir, conforme evidenciado pelos estudos de aferição nacionais. Nesse contexto, o Ministério da Educação desenhou um ambicioso plano de recuperação de aprendizagens - o 21|23 Escola+ -, que tem vindo a aplicar em várias áreas. Foi entendimento do governo, em consonância com muitas das entidades envolvidas, que este plano se devia centrar em ações de grande intensidade sobre algumas aprendizagens específicas, de que a leitura e a escrita e as ciências experimentais são exemplo, mas não se circunscrever a dimensões relacionadas com o currículo académico. A pandemia agravou desigualdades e trouxe uma fatura pesada para o nosso bem-estar emocional coletivo e individual, pelo que o plano tinha de incluir medidas que elegessem a inclusão e o equilíbrio socioemocional como aspetos prioritários. Desde 2016, foram alocados recursos humanos, reforçados desde 2020, para o apoio tutorial aos alunos, sendo este apoio centrado no desenvolvimento de competências sociais e emocionais, identificadas recorrentemente como a principal barreira no acesso às aprendizagens.

É neste contexto que o 21|23 Escola+ contempla, como um contributo importante, a Academia de Líderes Ubuntu, resultante da cooperação entre o Ministério da Educação e o Inst. P. António Vieira. Com efeito, proporcionar aos estudantes - e a toda a comunidade educativa - uma capacitação que lhes permita gerar sentido e propósito para a sua vida é condição necessária para que qualquer aprendizagem seja significativa e se transforme em sucesso escolar. Para tal não se pode ignorar o impacto das relações no ecossistema educativo, desde logo dos estudantes com os seus docentes, mas também com todos os restantes profissionais da escola e com os seus próprios colegas. Somos construídos pelas nossas relações, o que torna necessário acrescentar à visão cartesiana do "penso. Logo existo" a dimensão do "relaciono-me, logo existo". Isso é Ubuntu.

Nesta linha, as Academias Ubuntu, a partir da abordagem humanista do conceito sul-africano "eu sou porque tu és; uma pessoa só pode tornar-se pessoa através das outras pessoas", permitem desenvolver um roteiro de capacitação que, envolvendo todas as escolas públicas que o desejem, contempla cinco dimensões vitais: o autoconhecimento, a autoconfiança, a resiliência, a empatia e o sentido de serviço. Estas cinco competências, trabalhadas a partir de uma abordagem de educação não-formal, permitem que os estudantes se possam conhecer melhor, que possam confiar mais nas suas capacidades, talentos e recursos, que reforcem a sua resiliência face às adversidades da vida, bem como possam ser mais empáticos e ter no serviço à comunidade uma grande fonte de realização pessoal. Estes cinco pilares permitirão construir outras três dimensões transversais igualmente relevantes neste processo: a ética do cuidado (cuidar de si, cuidar dos outros e da comunidade e cuidar do planeta), a liderança servidora e a construção de pontes.

Os passos já dados em 70 agrupamentos de escolas, que, de uma forma pioneira, já desenvolveram esta metodologia nos anos anteriores, evidenciaram impactos positivos que convergem não só para maior sucesso escolar como para uma educação para a cidadania a partir da liderança servidora, ou enquanto uma estratégia complementar de combate ao bullying. É igualmente relevante o contributo dado pelo roteiro Ubuntu para a aquisição das competências traçadas para os alunos à saída da escolaridade obrigatória. Através da candidatura aberta pelo Ministério da Educação, teremos mais 335 agrupamentos de escolas, atingindo-se praticamente 50% das comunidades, que beneficiarão desta iniciativa com eficácia demonstrada.

Esta metodologia bebe do exemplo de líderes de referência, como Nelson Mandela, que não se cansava de afirmar que "a educação é a arma mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo". Com ele - e outros - inspiramo-nos para enfrentar as adversidades que realidades como a pandemia nos trazem. É fácil o caminho? Claro que não. Porém, tudo o que possamos fazer para que a educação possa ser justa, inclusiva e não deixe ninguém para trás valerá a pena.

João Costa, secretário de Estado Adjunto e da Educação.

Rui Marques, Inst. P. António Vieira.

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