Tristezas de Juan Carrito

No vendaval de notícias que se abateu sobre nós, coisas de mísseis, trovas de guerra, poucos terão notado que há dias, algures na Itália profunda, ocorreu grave incidente, ao qual ninguém foi indiferente. Consoante os gostos e as visões do mundo (de cada qual e de todos), extremaram-se os campos e as opiniões, rufaram tambores com seu quê de bélico, cavaram-se trincheiras no verbo e no gesto, houve manifs e abaixo-assinados, sucedeu enfim grossa polémica - e matéria noticiosa para os jornais de Londres. Contenda havida aos Abruzos, na montanha transalpina, quase a meio da bota, e num lugar classificado, próprio para a vida selvagem, o Parco Nazionale d'Abruzzo, Lazio e Molise.

O que se passou, basicamente, é que ali, a meio da bota, nos inícios de Dezembro, ocorreu um urso. Diga-se, a bem da verdade, que o urso ali ocorrido já andava a ocorrer na região praticamente desde que nascera, vai para dois anos. Sem vergonha de espécie alguma, talvez apreciando o convívio dos humanos, o dito urso dava em aparecer inopinadamente pelas ruas de Roccaraso, um ski resort por sinal lindíssimo (que ele é urso mas não é burro), e punha-se a mirar as montras, sopesando preços e novidades, bebia a água das fontes, dava um giro pelo centro histórico, mordiscava aqui e acolá e depois pirava-se. Os habitantes locais, é óbvio, pasmados com o atrevimento do bicho, baptizaram-no logo ternamente de Juan Carrito.

Vai daí, ciente do apoio carinhoso da plebe, quiçá do sufrágio do demos, quiçá da civitas, o ursito Carrito começou a sentir-se ainda mais à vontade, talvez com confiança em excesso, e, claro, esticou-se. Nos inícios de Dezembro, entrou pela calada da noite numa padaria da vila, dessas a atirar ao fino, e devastou tudo que havia. Ele foi carcaças, foram pães de quilo, ele foi as bolachas, biscoitos que houvesse, bolos com creme, marchou tudo. Algo contrita, a populaça chamou quem lhe acalmasse a fera da boulangerie, há horas alambazada. Convocada à padaria, a patrulha dos carabineri deu um balázio anestésico no Juanito Carrito, a meio do lombito, e despachou-o para uma zona remota do parque natural d'Abruzzo. Carrito, porém, não se ficou e na semana passada voltou a ser visto, ou melhor, avistado, a brincar fofo na neve, muito reinadio, indiferente ao cão que lhe ladrava em volta. Selou assim seu destino: no domingo, as cruéis autoridades armaram-lhe uma armadilha, puseram-no de novo a dormir, e enviaram-no de vez para uma casa de correcção para ursos, a reserva de Palena, província de Chieti.

Picou-se a cidadania: prantos dos animalistas, chuva de queixas, petições inflamadas, com mais de 600 subscritores prenhes de indignação, notícias e reportagens, comunicados de imprensa. Na refrega mediática, e a jogar à defesa, sustentou Lucio Zazzara, director do Parque Nacional Maiella, que a intervenção era necessária até para a própria protecção do bicho e que, após ficar temporariamente num lar para ursos-mariscanos, monitorizado 24 horas/dia, Juan Carrito iria ser juntado aos da sua espécie, ademais rara, quase extinta (Ursus arctos mariscanus). Discordou imenso o primeiro peticionário, Luigi Liberatore, o qual, fazendo jus ao apelido, propugnou a tese do habeas corpus, no caso habeas ursus, com um argumento que a muitos se afigurou sedutor: "Juan Carrito nunca fez mal a ninguém." É um facto.

No momento em que escrevemos, não houve sinais de clemência nem indícios esperançosos e quer-nos parecer que Juan Carrito, à semelhança de Juan Carlito, rei de Espanha, nesta semana exilado nas Arábias, dificilmente escapará à desdita do ostracismo perpétuo. É triste a hora, gentes de Roccaraso.

Talvez a guerra que estamos travando possa resumir-se assim: o urso russo foi à padaria da Ucrânia, e agora tem de levar. O chanceler Helmut Schmidt disse um dia que a URSS era "o Alto Volta com bombas atómicas", e a Rússia de Putin não anda longe disso. O Ocidente aposta agora, e bem, em que ela seja ainda mais Alto Volta do que já é, mesmo correndo o risco de ter uma Coreia do Norte à porta da Europa. Em breves dias, voltou a erguer-se o Muro e a Cortina que duraram décadas de Guerra Fria a mandar abaixo, mas o facto de a Rússia ser um Alto Volta, com toda a frustração que isso implica, torna ainda mais grave e perigosa a posse nuclear.

Muitos lembram agora crise dos mísseis de Cuba, mas poucos referem que na altura, no crucial dia 23 de Outubro de 1962, o mundo foi salvo por um homem, Vasili Arkhipov, o oficial de um submarino nuclear russo que se opôs aos seus camaradas e se recusou a disparar os torpedos atómicos contra a marinha da América. Hoje, em Moscovo, poderá estar a emergir algo parecido e até um paradoxo curioso: quanto mais Putin quiser aumentar a intensidade do conflito, levando-o ao limite atómico, mais poderá ter de enfrentar a resistência dos seus altos comandos e, sobretudo, dos militares no terreno. Há dias, quando Putin ameaçou o Ocidente com o nuclear, as caras enfiadas do ministro da Defesa e do chefe das Forças Armadas permitem acreditar que o bom senso prevalecerá.

Confiemos nos generais russos, já que não podemos confiar nos nossos. Ou, melhor, em alguns dos nossos generais, felizmente na reforma, que, nos últimos dias, têm manchado a farda que usam com intervenções que mais fazem parecê-los filhos de Putin ou adidos militares da embaixada russa em Lisboa, não oficiais-generais de um exército português e da NATO. A 11 de Fevereiro, dias antes da violação da Ucrânia, entrevistado pelo Jornal de Negócios, o general Carlos Branco sossegava o mundo contra os avisos de Joe Biden: "Os russos não estão interessados em invadir a Ucrânia. Só o farão in extremis." Viu-se. Adiantava também que era melhor a Europa não se imiscuir na guerra, pois esta iria ser péssima para nós, que iríamos ficaria para trás em diversos campos, "em particular na nanotecnologia". Depois, no Diário de Notícias, afirmou que "os russos pretendem apoderar-se da Ucrânia intacta. Com o menor dano possível". Está a ver-se: à hora em que escrevemos, há já dois milhões de refugiados, com expectativas de quatro milhões. "O menor dano possível", segundo o general Branco.

Confrontado com a sua ligação ao sinistro Grupo de Valdai, um clube fundado pelo ex-chefe dos serviços secretos russos, financiado pelo VTB e pelo Alfa-Bank, no qual Putin fala todos os anos (o seu maior palácio, de resto, fica por perto), e ao qual Sergey Lavrov se dirigiu no dia 22 de Fevereiro - note-se, dois dias antes da invasão da Ucrânia -, o general Carlos Branco defendeu-se dizendo que Guterres também fora a uma das reuniões do Clube Valdai, como se fosse comparável a presença do secretário-geral da ONU, que ali falou a esse título, à de um obscuro general luso, que continua sem esclarecer quem o convidou, quem lhe pagou a viagem e a estada, se recebeu ou não dinheiro de bolso e outros favores, que contactos teve ou mantém com oficiais ou agentes russos. Das muitas vezes que o convidam para a televisão, porque não o questionam sobre isso? Não são insinuações, só questões - mas legítimas.

Outro "idiota útil" é o general Raul Cunha, que condena a invasão, mas compreende-a, dizendo de Putin: "Entendo que quase o empurraram para essa opção" (ou seja, no fundo, no fundo, quem invadiu a Ucrânia foi a NATO, com a cumplicidade da Europa e dos Estados Unidos). Mas o mais ursito e limitadito do trio, e por isso o mais cristalino, é o general Agostinho Costa, um homem que faz grande esforço para ser intelectual e sagaz, ainda que o máximo que consiga seja uma citação cansada de Von Clausewitz e reiteradas referências às doutrinas sempiternas do "professor Adriano Moreira". No afã de se colocar na pele do inimigo, para melhor percebê-lo, este Sun Tzu da GNR acaba sempre, mas sempre, a defender as posições do Kremlin, e com despudor e descaro. No passado dia 27, Agostinho Costa estava em directo, numa das muitas e demasiadas vezes que tem ido à TV, e o jornalista da RTP confrontou-o com a ameaça nuclear feita por Putin, notícia de última hora, acabada de chegar. Agostinho reagiu instintivamente, qual canito pavloviano, e disse que era "uma notícia que tem a credibilidade que tem", que "a primeira baixa em qualquer conflito é a verdade", falou em "propaganda", afirmou que "é preciso trazer os adultos para a sala" e que "é preciso baixar o nível da emoção para entrarmos no nível da racionalidade". De resto, acrescentou, não era credível que Moscovo fizesse uma ameaça atómica, pois "ainda não chegámos a esse patamar". Ou seja, estampou-se o general ao comprido - e em directo. Tal, porém, não o fez recuar, ou sequer pensar, e o que tem dito são coisas como "temos de ver os dois lados", "o PIB da Ucrânia é o último da Europa" (é falso), "os russos já estão em Kiev" (isto no dia 25...), "a informação que tenho é que os russos estão em Kharkiv" e que era exagero falar de resistência ucraniana na cidade ("não é bem assim"). Para o general Agostinho, esta guerra é apenas "um assunto entre a Rússia e a Ucrânia", mas, logo a seguir, "uma disputa entre a Rússia e a América". Porque, claro, "a NATO é um heterónimo dos Estados Unidos, o resto é paisagem" (apetece dizer, uma "paisagem" de que o srenhor general Agostinho fez parte durante as décadas da sua carreira militar). Quanto à Europa, está "a lançar gasolina no conflito", encontrando-se o seu secretário-geral, Stoltenberg, a caminho do BancoCentral da Noruega, em corrupto contraste com os bravos generais russos, como o ministro Sergei Shoigu, um homem "de barba rija" (!). Putin, genial, é "um jogador de xadrez", como aliás temos visto. Colunas militares paradas, trapalhadas logísticas? Nada disso - "ainda é cedo, sinceramente, para considerarmos que algo falhou" (no dia 1 de Março...). E, mais ainda, as valorosas tropas russas só "não tomaram Kiev porque não tiveram essa ordem". Resistência ucraniana? Era "expectável", nada de mais, coisa pouca, sendo evidente que não deveriam ser mandadas armas para a Ucrânia, que a RT não deveria ser proibida, que os chechenos da Wagner são talvez uma invenção ucraniana (dias depois, em entrevista ao Público, o general Branco veio assumir que a Rússia tem 70 mil chechenos no país...).

Zelensky, por seu turno, "já não estará em Kiev", mas em Lviv, tese propalada pelo Kremlin que o perspicaz Agostinho logo comeu, digeriu e regurgitou na TV, mas que veio a revelar-se pura propaganda moscovita. Quanto aos russos, uns amores, têm tido o cuidado de "não atingir alvos civis" e se há mortos entre a população ucraniana isso "é o que os americanos chamam de baixas colaterais". Foi atingido um prédio de habitação? "Falha de sistema", "erro operacional", "nestas guerras há sempre este tipo de ocorrências" (senhor general da GNR, a morte de civis numa guerra não deve ser tratada como um acidente de trânsito). Morreram dezenas de inocentes? O objectivo russo não eram eles, mas "o edifício do governo regional de Kharkiv" (caso para dizer que, na inabalável lógica de Agostinho, as baixas civis são sempre culpadas, pois têm a mania de estar no local errado à hora errada, quando os russos bombardeiam). No dia 27 de Fevereiro, achava Agostinho que a ameaça nuclear de Putin não era credível, mas fruto de propaganda ocidental, até porque não tínhamos "chegado a esse patamar", já que a NATO não entrara ainda em território da Ucrânia; no dia 1 de Março, sem se desfazer (e sem que a NATO tivesse entrado em território da Ucrânia), o general veio justificar a ameaça de Putin, legitimando até o uso do nuclear com o argumento da "escalada para desescalar", isto é, se os russos lançarem mesmo bombas atómicas e matarem milhões de pessoas, é algo mais do que ajustado à sua lógica e doutrina de guerra, "escalar para desescalar". Tudo normal, tranquilo. Ou seja, o que no dia 27 de Fevereiro era uma inventona propagandística do Ocidente, no dia 1 de Março passou a ser uma opção natural do Kremlin. O argumento, espantoso, criminoso: "A ameaça nuclear faz parte da equação. Se a França fosse novamente invadida como foi em 1940, não há dúvida de que Macron usaria armas nucleares." Senhor general Agostinho Costa: caso não saiba ou não tenha visto, é a Rússia que está a invadir a Ucrânia, não é a Ucrânia nem a NATO que estão a invadir a Rússia. Vir trazer a França de 1940 e o presidente Macron para justificar a ameaça atómica de Vladimir Putin é algo que o coloca a si, major-general Agostinho Costa, no esgoto da ignomínia. Com atroz desprezo pelo sofrimento alheio, com total ignorância do direito internacional, teve até o desplante de dizer na TV que nesta guerra "não há bons, há interesses". Esclareça-nos qual o seu.

PS - A partir da próxima semana, estas crónicas passarão a sair na edição de domingo, dia do Senhor.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG