Três contos morais sobre o valor das imagens

No delírio mediático do nosso mundo, não basta "explicar" as imagens: é preciso parar para olhar e acolher algum silêncio.

1. O jubileu da Rainha Isabel II reforçou na praça pública - entenda-se: no espaço mediático em que, mal ou bem, sobrevivemos - o papel de alguns "especialistas" de língua inglesa, vocacionados para nos esclarecer sobre os infinitos enigmas da família real britânica. Tal como perante os/as influencers que nascem das pedras da calçada, não posso esconder o meu espanto muito plebeu: como é possível proferir tantas e tão patéticas banalidades, ao mesmo tempo desfrutando de um palco público que lhes confere o estatuto, quase científico, de intocáveis autoridades morais? Problema meu, entenda-se, já que não consigo mostrar-me indiferente, quanto mais não seja porque uma das "especialidades" de tais personagens envolve as significações das imagens. Assim, deparei mesmo com alguém que apresentava toda uma "tese" sobre a percepção da Princesa Diana por Isabel II a partir da recuperação de breves segundos de materiais de arquivo que eram, por assim dizer, tratados como se fossem sequências de ADN que o espectador, pobre mortal, não saberia decifrar. No limite, triunfava uma rasteira obscenidade ontológica: desde um movimento brusco da cabeça da Rainha até ao ritmo lento de uma determinada caminhada, tudo era sujeito a uma desavergonhada "psicanálise" em que alguns segundos de imagens em movimento reduziam a personagem a uma antologia grosseira de segredos diplomáticos e estados de alma - nos dias que correm, "isto" detém um poder discursivo que quase ninguém quer questionar.

2. Em França, várias organizações de fotógrafos profissionais puseram em marcha uma campanha com esta palavra de ordem: #UnePhotoÇaSePait. Ou seja, à letra, "uma fotografia paga-se" (ver, por exemplo, Libération, 30 junho). Em causa está a falta de reconhecimento financeiro e simbólico do trabalho dos fotógrafos, a par da proliferação de bancos de imagens a baixo custo (por vezes, gratuitas) e do desrespeito pelos direitos de autor, tudo isto contaminado por aquilo que consideram alguma indiferença dos poderes públicos. Escusado será dizer que as questões de enquadramento legal que os profissionais franceses apontam não podem ser tomadas como elementos universais e intermutáveis. Seja como for, no plano civilizacional, o seu protesto ecoa uma tragédia realmente global que tem como incauto protagonista o consumidor individual - esse consumidor que interiorizou a ideia (e a moral pueril) segundo a qual o seu telemóvel é um instrumento divino de interpretação do mundo à sua volta. Em causa está uma lei mediática segundo a qual todas as imagens se equivalem: pertenceriam a um mundo sem regras em que as questões primordiais de trabalho são irrelevantes, acabando por anular as especificidades de contexto e linguagem. Tudo isso desemboca na pergunta que envolve o nosso sonambulismo cognitivo: num mundo de delirante circulação de imagens, quem é que ainda tenta, realmente, olhá-las e reflectir sobre os modos da sua percepção?

3. Neste tempo de frequente tratamento da morte como um ritual compulsivamente mediático, eis uma notícia que, até mesmo nos EUA, não foi muito evidente: no dia 26 de junho, na sua casa de Napa, Califórnia, faleceu a pintora americana Margaret Keane, contava 94 anos. Célebre pelos quadros de rostos com olhos grandes, a sua odisseia pessoal está retratada num magnífico filme de Tim Burton, protagonizado por Amy Adams, intitulado, justamente, Olhos Grandes (2014); centra-se no período do seu casamento com Walter Keane (1955-65), durante o qual o marido, um pintor falhado, expôs e vendeu os quadros da mulher como se fossem de sua autoria. Dois factores tendem a "formatar" as componentes desta história: primeiro, há críticos de arte que reduzem o trabalho de Margaret a um descartável fenómeno "kitsch"; depois, alguns feminismos gostam de identificar a estupidez de Walter como símbolo obrigatório do carácter malévolo de "todos" os homens face à expressão das mulheres... Digamos apenas, para simplificar, que aquilo que Burton coloca em cena não é uma coisa nem outra. Olhos Grandes é um filme sobre o desejo de beleza, ou melhor, sobre a vontade artística de criar algo que toque os outros através do valor inefável da própria representação. Essa vulnerabilidade está ameaçada no nosso mundo: obcecados pela "explicação" das imagens, não abrimos os olhos para o que, pelo menos em algumas imagens, resiste a qualquer vulgarização mediática, apelando a um pudico silêncio.

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