Todos a bordo

Há problemáticas ambientais no que concerne ao oceano que estão longe de se resolverem e que exigem medidas efetivas e assertivas. Falamos do lixo marinho, da insustentável exploração dos recursos marinhos e da, já tão conhecida, crise climática, que está a ter impactos profundos nestes ecossistemas devido, sobretudo, ao aquecimento e à acidificação da água do mar. São porventura temas já muito falados e estudados, e até banalizados, mas infelizmente a situação é grave.

Ano após ano, assistimos ao repetir dos mesmos comportamentos que estão na origem de um oceano doente. Acreditamos, muito, por isso, na Educação Ambiental e na importância da Literacia Marinha para construirmos uma sociedade mais consciente e civilizada.

Há poucas semanas organizámos, na Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), atividades pedagógicas de limpezas de praia na zona costeira da grande Lisboa, nas quais participaram alunos do 1.° ciclo.

Em cerca de hora e meia, para além de lixo variado, a maioria plástico e relacionado com a atividade pesqueira, recolhemos e contámos 760 beatas de cigarro - a maioria enterradas na areia e algumas à beira-mar.

No final da atividade ficou um sentimento misto: por um lado, sentíamos que tínhamos feito um bom trabalho, mas por outro, ficou a sensação de impotência perante tamanho problema, uma gota no...oceano.

Passados quatro dias, voltámos ao local, o qual tínhamos deixado limpo, e surpreendentemente recolhemos mais... 620 beatas de cigarro! Repito: 620 beatas de cigarro!

Já foram promulgadas leis, e respetivas coimas, mas a situação permanece. Haverá forma de alterar este comportamento? Há fiscalização? Ou vamos continuar a assobiar para o lado?

Certamente que os alunos que participaram nesta iniciativa jamais esquecerão este episódio. Queremos acreditar que eles serão agentes de mudança para o futuro, mas o tempo urge.

Por sua vez, já no que diz respeito ao consumo de pescado, outra das áreas em que a ASPEA desenvolve programas de Educação Ambiental, continuamos a vender e a consumir produtos provenientes de pesca de arrasto. Pergunto: Porquê?

Está provado que uma única pescaria de arrasto destrói ecossistemas e habitats do fundo do mar, equivalente a 5000 campos de futebol, e que 70% do que se pesca é rejeitado! No entanto, esta arte de pesca continua a ser praticada na costa portuguesa e em muitos outros locais do nosso globo.

Muitas perguntas continuam sem resposta. Até quando?

É sabido de que, quando o oceano começou a dar sinais do seu desequilíbrio, há muito que o problema se instalou. Teremos de ser céleres nas decisões e bem conscientes da sua importância.

A Conferência dos Oceanos, organizada pela ONU com o apoio de Portugal e do Quénia, sob o tema Salvar os Oceanos, Proteger o Futuro, é uma oportunidade excelente para dar voz às ONG, investigadores, ativistas e educadores, e envolver os decisores na procura de respostas e de soluções efetivas.

Fomos pioneiros a atravessar o oceano, agora temos um desafio igualmente grande pela frente: protegê-lo, e, para isso, precisamos de todos a bordo.

Associação Portuguesa de Educação Ambiental
Bióloga Marinha e Educadora Ambiental
Coordenadora Programa EduCOceano

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