Somos menos 50 a cada dia

Sexo sem filhos é uma conquista sexagenária consolidada desde 1954, com a invenção da pílula. Hoje, as técnicas de fertilização in vitro também permitem o contrário: filhos sem sexo. É claro, óvulo e espermatozoide continuam a encontrar-se, como antigamente -- mas agora dentro de um tubo de ensaio, no laboratório, o que não tem graça nenhuma comparada com a moda antiga, mas é a única esperança para casais com problemas de fertilidade ou outros que não vêm ao caso.

Os portugueses podem até passar aos oitavos de final em campeonatos de sexo, o que não está garantido, mas sabe-se de ciência certa que fazem cada vez menos filhos, pelo que há cada vez menos portugueses. Somos, nessa classificação, os segundos piores da Europa, depois dos italianos -- quem diria?! O INE lembra-nos os números, a cada ano, mas rapidamente esquecemos as causas e preferimos iludir as consequências. Em Portugal, há apenas 8,4 nascimentos por cada mil habitantes, três vezes menos que há 50 anos. É a nossa taxa bruta de natalidade, desgraçadamente inferior aos portugueses que morrem: 10,7 por cada mil. Logo, como diz o outro, é fazer as contas: ao saldo negativo entre mortos e nascidos, acrescentamos a emigração (maior que nos anos 60 do século passado) e temos o retrato enrugado de um povo que definha, entretido entre campanhas eleitorais, em suicídio assistido. Para repormos a brava espécie, assegurando a substituição de gerações, as nossas mulheres deveriam estar a conceber, em média, 2,1 filhos, pese a desumanidade das médias. Estamos, pois, em perda prolongada: há hoje menos 218 mil portugueses do que há 10 anos, meia centena a menos por cada dia que passa. Como se na ameaça de extinção do lince da Malcata exorcizássemos a nossa.

A espiral inquieta: menos crianças a nascer significa, a prazo, menos jovens ativos e contribuintes, e cada vez mais pensionistas. Em calão da moda, é a sustentabilidade do sistema de segurança social que está em causa. Em resumo, o problema está em saber como e quem vai pagar a conta. E se alguma fatura, a prazo, ainda se exprime em português. Quando se sabe que os pensionistas já são um terço do eleitorado, é tempo de os nossos políticos tentarem perceber porque é que países como a Suécia e a Irlanda voltaram a ganhar população. É certo que as noites deles são mais frias e a televisão é pior do que a nossa, mas foram as políticas ativas de apoio à natalidade e aos jovens pais que fizeram inverter a funesta tendência que atinge, em geral, a maioria dos países europeus.

Os portugueses podem até passar aos oitavos de final em campeonatos de sexo, o que não está garantido, mas sabe-se de ciência certa que fazem cada vez menos filhos

Ao contrário, no resto do mundo a tendência é de crescimento descontrolado. O planeta alcançou há dias os 8 mil milhões de habitantes, um número com muitos zeros à direita cujas magnitude e projeções se podem calcular quando recordamos que, desde 1950, mais que triplicaram os humanos à face da terra.

É certo que nas últimas décadas, a evolução do desenvolvimento económico e social permitiu resgatar à pobreza muitos milhões de pessoas, com base em políticas em que o progresso material e o planeamento familiar trouxeram mais liberdade e melhores condições de vida para as mulheres. (Estima-se que metade da atual população mundial dispõe de cerca de 10 euros por dia para sobreviver e outros 2 mil milhões alcançarão esse patamar de segurança até 2035). Mas é evidente que, se não se procurarem generalizar essas políticas de proteção social e se a taxa de natalidade não for drasticamente reduzida, o excesso de população acrescentará um problema ambiental e de segurança alimentar de muito difícil solução. Ora, convenhamos, sobreviver não é propriamente um objetivo ambicioso.

Jornalista

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