Sejam bem-vindos (mas pouco barulho)

De uma só vez, o PCP reagiu às declarações do presidente da associação de refugiados ucranianos em Portugal, à participação da embaixadora da Ucrânia na manifestação do 25 de Abril e a uma entrevista dada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do mesmo país a este jornal. No comunicado, os comunistas acusam Maksym Tarkivskyy de "ódio fascizante", a embaixadora de "ingerência" na soberania nacional e o MNE ucraniano de revelar "a natureza antidemocrática do regime de Kiev". Para o PCP, as declarações dos três possuem "um nítido e intolerável caráter censório e persecutório", exigindo ao Presidente da República e ao Parlamento português que delas se venham demarcar. Até ao envio desta coluna, ambos se haviam ficado por um encolher de ombros.

Mas gente estimável, como Luís Castro Mendes e Paulo Baldaia, ambos colunistas deste diário, partilharam da mesma indignação nos últimos dias. O embaixador considerou a posição do presidente da associação de refugiados algo "inadmissível", não se ficando por aí. "Eu sou embaixador e nunca me passou pela cabeça (nem seria autorizado a isso) ir apoiar uma manifestação partidária na Hungria, na Índia ou em França", apontou, criticando a diplomata ucraniana que desceu a Avenida da Liberdade ao lado da IL. "Não quero que os russos mandem na Ucrânia nem que os ucranianos venham mandar em nós", rematou o ex-ministro da Cultura. Baldaia, igualmente crítico dos dois gestos, assinou esta segunda-feira um artigo cujo título dispensa mais citações. "Isto ainda não é a Ucrânia".

(...) o povo ucraniano tem todo o direito a estar indignado com o PCP.

Ora, para um ex-governante, um jornalista veterano e o Partido Comunista incorrerem em tamanha sintonia, o comportamento dos ucranianos visados só poderia ter sido do mais pecaminoso. Fui ver. Nada. Fui ver novamente. Nadinha. O tal dirigente associativo limitou-se a questionar "como é que Portugal, um país democrático, continua a ter um partido como o PCP?" - interrogação compreensível e até pertinente, dada a excecionalidade dos comunistas portugueses entre os seus defuntos partidos-irmãos pelo continente fora. Se estava a sugerir a ilegalização do PCP, não o disse. Se estava a perguntar como é que uma força política que recusou condenar a violação sistemática da Carta das Nações Unidas mantém adesão popular no nosso país, é um mistério para o qual também não possuo resposta. De qualquer das formas, como residente em Portugal há mais de 20 anos, está no seu direito. Pode dizer e perguntar o que entender. Não é um "cidadão de segunda" por não ter nascido cá, pois não?

Quanto à embaixadora, que se limitou a celebrar a Revolução dos Cravos ao lado dos nossos liberais, admito não entender como é que numa marcha com seis dos oitos partidos com assento parlamentar presentes, só um se lembrou de a convidar. Quanto ao MNE ucraniano, que constatou que as acusações de nazismo ao seu governo são originárias de Moscovo e seguidamente reproduzidas pela Soeiro Pereira Gomes, não vejo como negá-lo. É assim há dois meses.

Mas se compreendo que o PCP não goste que lhe digam o que anda a fazer, fico um tanto estupefacto com a restante reação às opiniões ucranianas. Se um partido de extrema-direita em Portugal apresentasse um discurso antissemita, não tinha o embaixador de Israel toda a legitimidade para o condenar? Se um partido de extrema-direita em Portugal promovesse uma perseguição à comunidade sino-portuguesa, culpando-a pela pandemia e que mais, o embaixador da China não viria imediatamente a público?

A nossa solidariedade nacional para com o povo ucraniano inclui o seu direito à indignação. Caso contrário, não seria solidariedade de todo. E o povo ucraniano tem todo o direito a estar indignado com o PCP.


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