Seca: estamos a tempo de mudar?

Em 2018 as autoridades sul-africanas proclamaram o Estado de Catástrofe Natural em todo o país devido à seca histórica que assolou o território desde 2015, nomeadamente na Cidade do Cabo, que estava ameaçada de ficar sem água potável. O "Dia Zero", momento em que as torneiras deixariam de dar água na Cidade do Cabo, foi anunciado e o uso foi limitado de forma decrescente até aos 25 litros diários de água por pessoa, com coimas reais a quem ultrapassasse este limite. Note-se que de acordo com a ONU, cada pessoa precisa de 110 litros de água por dia e que o consumo médio em Portugal é cerca de 124 litros por dia.

Já não há dúvidas de que o aumento das temperaturas e dos níveis do mar, a alteração dos padrões de precipitação e condições meteorológicas mais extremas ameaçam a saúde humana, a segurança alimentar e hídrica, assim como o desenvolvimento socioeconómico.

As consequências desta realidade sentem-se todos os dias. Continuando no exemplo da Cidade do Cabo, o preço da água potável disparou existindo agora tarifas punitivas para consumos elevados e foram tomadas medidas para usos de novas origens de água, nomeadamente na agricultura e usos urbanos. Resultados: os consumos reduziram para perto dos 50 litros/pessoa e a agricultura retomou a produção recorrendo à inovação nos métodos de rega utilizados e a origens alternativas à água potável, tendo recuperado a maioria das 30 mil situações de desemprego no setor que se registaram em 2018.

Em Portugal estamos a tempo de mudar. Claro que existem medidas estruturais que exigem mais do que uma geração para darem os resultados esperados, mas algumas estão mesmo à nossa frente e não vale a pena passar por uma crise grave para evoluirmos numa eficiência consequente. Temos um rumo de mudança em prol do desafio climático que interessa acelerar e dar um apoio global para se aplicarem as medidas necessárias com rapidez, com foco nos objetivos, simplificando e não criando obstáculos estéreis de egos pessoais.

Temos de saber explicar com humildade e disseminar a importância de mudar os nossos hábitos, antes que sejamos (mais) punidos pela mãe. E a forma é simples, e utilizo uma afirmação recente do ministro do Ambiente e da Ação Climática: "A água tem de ser usada com parcimónia, em casa, nos campos e nas fábricas. Tem de ser preservada nas suas fontes. E tem de ser reutilizada, para finalidades que não exijam a sua potabilidade".

Até 2030, o governo tem metas claras de generalizar o princípio da reutilização de água, usando até 20% da capacidade das nossas "Fábricas de Água". O governo anunciou, inclusivamente, a simplificação dos procedimentos ambientais, tornando mais fácil o licenciamento e o uso da água reciclada. Está também a adotar medidas de fundo (e investimento) onde o stress hídrico tem sido mais elevado, nomeadamente no Algarve e Alentejo, através de Planos de Eficiência Hídrica.

As entidades gestoras da água ajudam, apoiam e investem, mas a responsabilidade é "nossa", em mudar os hábitos pessoais e o planeamento empresarial, rumando a novos equilíbrios socioeconómicos sustentáveis e evitar medidas punitivas e reduções de consumo forçadas. Afinal, hoje na Cidade do Cabo vive-se bem usando metade da água por pessoa.

Membro do Fórum de Energia e Clima
e vice-presidente do conselho de administração da Águas Tejo-Atlântico

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