Se dúvidas ainda houvesse... quem manda em Portugal é a FPF

Alguém achou uma ótima ideia receber no Porto um jogo de futebol entre dois clubes ingleses, com mais de 12 mil adeptos no estádio e muitos outros no exterior, em pleno "estado de calamidade". A Alemanha, entretanto, proibia a entrada de ingleses no seu território em virtude de as vacinas covid-19 poderem não ser eficazes ou serem-no em grau inferior em relação à nova variante indiana da doença, cada vez mais relevante no Reino Unido (e também em Portugal). Esta proibição alemã ocorreu no mesmo dia, aliás, em que Portugal levantava todas as restrições à entrada de viajantes provindos do Reino Unido. Mesmo sabendo da irresistível atração que muitos portugueses sentem por virar frangos a cinco euros a britânicos e pelo imaginário disseminado por Zezé Camarinha, é obra. Ironia suprema: tanto quisemos turistas britânicos que o Reino Unido acaba de retirar Portugal da sua "lista verde" de destinos, obrigando a dez dias de quarentena e dois testes PCR no regresso...

Nas diversas imagens que as televisões passaram, confesso que não vi um único adepto inglês a cumprir quaisquer das regras em vigor que se impõem a todos os demais que por este prado se apascentam. Pode-se discordar destas regras - não se deveria era aceitar subservientemente o seu desprezar. O que vi foram os impostos dos contribuintes portugueses a escorrer Ribeira abaixo para pagar muitas horas extraordinárias a polícias, cantoneiros e afins e para se fingir que se controlava o que era obviamente impossível de controlar. Pessoas em êxtase libertário após um ano de privações, numa terra barata e sem lei, o único país da Europa para onde podem viajar. Só posso dizer: que inveja! Andaram muito mal as autoridades: se me tivessem avisado com mais tempo, teria ido comprar um cachecol do Manchester City, poria o meu melhor sotaque nortenho (britânico nortenho, bem entendido) e abalava para o Porto ou para o Algarve, um dos primeiros da fila. Ainda irei a tempo? Não posso ser inglês em Portugal (e prometo que pago os 80 cêntimos da cerveja!)?

A Portugal, que é a presidência da União Europeia em exercício, não lhe custou nada agora a absoluta aleatoriedade e discrepância de regras sanitárias para países terceiros na entrada no espaço Schengen, quando há pouco tempo carpia a sua desuniformidade? A Portugal não lhe custou nada ver que há regras, em "estado de calamidade", essa coisa pomposa e supostamente séria que decretou, aqui para o rebanho, mas que são irrelevantes quando vem um britânico disposto a pedir dois finos?

O problema maior até não é o jogo com público (o único!), nem o aparente caos na cidade, nem o risco sanitário acrescido, nem o incumprimento flagrante da lei sem qualquer consequência.

O problema maior, se alguém o quiser ver, é o que isso diz a quem por aqui fica depois do jogo. A nós, que somos os apanha-bolas, por vezes também chamados de portugueses. Nós que ouvimos uma conversa absurda (e também ilegal, já agora, esse detalhe...) de que "virão charters" diretamente para o estádio e voltarão logo a seguir ao jogo para a sua terra (e portanto não vêm cá fazer nada...). Só faltava dizer que ainda seriam ungidos, pouco antes do regresso, pelo senhor cardeal-patriarca e levariam todos ordeiramente com um folheto promocional, bem enroladinho, enfiado na ilharga baixa, a dizer "Portugal is beautiful", na boa tradição evangélico-parola nacional.

Estado de calamidade? Quando um polícia me vier falar de máscaras, eu mando a coima para o professor Marcelo e para o Dr. Costa. Devia portanto o governo ter assumido algum falhanço, nem que seja o de mandar uma coisa e ser feita outra. Fica bem assumir responsabilidades e os eleitores até apreciam a honestidade. A bola é como o tal mundo por nós "descoberto": redonda. Temos, aliás, todos o sabemos, uma bola na nossa bandeira. Dará só para achatar ligeiramente os polos com um pouco de bom senso?

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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