O que fará Rui Rio?

Rui riu. Como é que um presidente do PSD se aguentou após três derrotas eleitorais - europeias, legislativas e autárquicas -, quatro anos de oposição itinerante, hegemonia socialista e uma direita fragmentada, é uma questão cuja resposta raia o milagre. Mas Rui riu. Riu porque os 20% das europeias foram encabeçados pelo melhor homem para lhe suceder. Riu porque ganhou internamente, e em duas voltas, mesmo depois de ser vencido por Costa em 2019. Riu porque a sua derrota autárquica sabe a vitória - ou à possibilidade de voltar ao poder após seis anos de socialismo. Riu porque nunca teve uma maioria exatamente sua no Conselho Nacional do seu partido, mas nunca se conseguiu uma maioria contra ele no órgão maior do PSD. Rui, é verdade, riu. Riu porque estava morto e uma crise política onde não tem qualquer influência ou responsabilidade o ligou à máquina, devolvendo-lhe esperança de vida. Riu porque, caso o Orçamento não passe e o governo caia, é ele que está à frente do maior partido da oposição, com uma base local reforçada e um PS em queda. Riu porque o crescimento do Chega à direita lhe permite investir no espaço ao centro. Riu porque a insatisfação desse espaço com o Partido Socialista começou, finalmente, a surgir. Riu porque, mesmo tendo o partido perdido, está na invulgar situação de, de repente, ainda poder disputar o país. Rui riu. Não por último, mas certamente melhor.

Esta quinta-feira à noite, os conselheiros nacionais do PSD deslocam-se ao hotel Sana, em Lisboa, onde se realizará a reunião que decidirá o futuro do partido. Se Rio fica ou sai. Se se demite ou se agarra à incerteza da conjuntura para matar a certeza da sua saída. Se adia o congresso ou se clarifica antes das legislativas, quer elas apareçam, quer não, sendo curioso que os horizontes do país dependam de uma sala cheia de figuras que a maioria dos portugueses desconhece. Mas não é a primeira vez que tal sucede, como sabemos.

Rio, de certo, ri. Sempre subestimado, sempre quase isolado, sempre imprevisível. Se o Orçamento do Estado for chumbado na generalidade, no final deste mês, há legislativas em janeiro, como Marcelo Rebelo de Sousa veio a público anunciar. Se for chumbado na especialidade, a ida às urnas ocorrerá em fevereiro de 2022, havendo mais do que tempo para os sociais-democratas se resolverem e reencontrarem frescura. Se o OE for aprovado, Rio dificilmente tem espaço para ir a votos no PSD sem arriscar uma humilhação. Porto, Braga, Lisboa, Gaia e uma parte surpreendente de Aveiro não repetirão o apoio ao incumbente. Rio aposta todas as fichas na crise política do Orçamento por essa razão. E o croupier da parada será o Conselho Nacional do PSD.

Com paciência e gestão de silêncios, os seus adversários internos podem evitar a tradicional vitimização de Rio. Se a Assembleia for, de facto, dissolvida, não há nada que formalmente o impeça de ser candidato a primeiro-ministro. Politicamente, porém, há tudo. Os portugueses confiarão o país a alguém que não assume ser recandidato ao seu partido? E se assumir que é recandidato ao partido tem condições para ir a legislativas sem estar legitimado pelos seus militantes? Nenhuma das hipóteses é boa. Rui riu. Já não ri.

Estamos, no fundo, a discutir o grau de esgotamento de duas coisas - a liderança de Rui Rio no PSD, a solução das esquerdas no parlamento - e a distância entre o fim de ambas. Rio pode ser recordado como o homem que deixou a direita à porta de regressar à governação ou como o político que acorrentou o partido à sua sobrevivência pessoal.

Eu sei o que um estadista faria. Não sei o que fará Rio.

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