Rio: razão sem raciocínio

De todos os traços e características que definem a personalidade de Rui Rio e que marcaram o seu mandato há um que os seus adversários nunca atacaram e que a imprensa nunca expôs.
Rio, em suma, é um bon vivant. É um diletante, não intelectual, mas político.

Gosta da sua vida, dos seus hábitos, das suas companhias. E isso, no mundo de hoje, com a política de hoje e a velocidade de informação de hoje, não é a maior das vantagens para um líder partidário. Rio tem ou tinha gozo em estar na política, mas não permitia que ela se sobrepusesse à sua rotina. Tinha uma enorme confiança nas suas capacidades, mas uma profunda preguiça em pô-las em prática.
Os almoços, frequentemente no mesmo sítio e sem gente que não íntima. Os fins-de-semana, longe das televisões e do ciclo noticioso, deixando muitas vezes a reação do PSD para segunda ou mesmo terça-feira. O gabinete de presidente, montado na sede distrital do Porto, longe da capital mas perto da sua casa de praia. O verão, propício a crises de Proteção Civil, mas sagrado por ser período de férias do então presidente do partido. Os debates, tantas vezes sem preparação prévia, onde respondia por nariz ou instinto a cada interlocutor, muitas vezes de forma incoerente; longe dos porta-vozes que instituiu e até do seu programa eleitoral, que nunca leu na íntegra.

Rio delegava protagonismo em quem julgava credível (Justino, Mota Pinto, Miranda Sarmento) sem nunca ceder na sua posição liderante e na palavra final. A revisão constitucional? Entregue a outrem. Os estatutos do partido? A um grupo de trabalho. O Conselho Estratégico Nacional, que serviu de think-tank social-democrata durante quatro anos? Não usou em público uma única proposta que daí viesse.
O tempo de Rui Rio à frente do PSD é indissociável desse paradoxo: nunca, no PSD, se produziram tantas propostas; e nunca, no PSD, se ouviram tão poucas propostas. Rio, nas suas idiossincrasias, estava muitas vezes correto nos diagnósticos que fazia, mas tardava em levar as soluções para esses problemas aos ouvidos dos portugueses. Na ideologia, fez tudo por dizer que o PSD "é do centro" e que ele próprio "é mais de centro-esquerda" sem Sá Carneiro "seria talvez do PS", mas nada fez para que se entendesse em quê (ou por quê) é que o PSD era de centro. Na Justiça, denunciou energicamente o que entende como falhas ou defeitos mas, à exceção da democratização do Conselho Superior da Magistratura, a sua mensagem não chegou ao eleitorado.

Rio, que sai do PSD sem perder a sua reputação de seriedade entre os eleitores, fez pouco por usá-la enquanto líder do PSD. Ele, que se fez valer várias vezes dessa reputação nas disputas internas que venceu, não conseguiu mobilizá-la para uma adesão popular, isto é, para ganhar eleições no país. E não o conseguiu porque isso, em suma, implica trabalhar. Implica iniciativa política. Implica noites sem dormir. Implica risco. Implica Rio não ser Rio.

Por mais erros que tenha cometido ao longo do seu mandato, uma análise séria não pode deixar de reconhecer: Rui Rio tinha uma ligação ao país com valor político. Pode não ter sabido aproveitá-la, mas essa era uma ligação sua. E com equipa (que teve, mas não usou), com energia (que não teve nem procurou) e com inteligência (que sobre o Chega tanto faltou), não teria certamente havido maioria absoluta de António Costa ao fim de seis anos de governação.

Nem tudo foi mau, é preciso reconhecê-lo, mas facilmente poderia ser melhor, e é preciso não escondê-lo.

A estratégia inicial de Rui Rio, quando chegou à liderança em 2018, estava certa. Os acordos "em nome do interesse nacional" com o governo do PS para a descentralização e para os fundos europeus tiveram uma consequência nula mas um propósito útil: reconciliar o PSD com a normalidade política, depois de ciclos excessivamente polarizadores como o da troika e o da formação da "geringonça". Rui Rio, através da tal credibilidade que incrivelmente não perdeu, conseguiu o início de uma reconciliação do PSD com a sociedade. A questão, mais uma vez, é que não a aproveitou, não a concretizou, não a preencheu com nada. Porque isso, mais uma vez, teria dado um imenso trabalho.

Nos rostos que promoveu, e a verdade é que promoveu uma mão cheias deles, escolheu jovens, cabeças-de-lista com menos de 30 anos em grandes distritos nas legislativas, e académicos reconhecidos como Miranda Sarmento ou Moreira de Sá. O problema, mais uma vez, é que não fez caso deles. O inner circle de Rio, se é que lhe podemos chamar isso, não contou com eles nem com outras caras novas, a quem entregou cargos, é certo, mas não voz.

Nas eleições locais do ano passado, deu início a uma remontada autárquica após os desaires de 2013 e 2017, ganhando capitais de distrito e recuperando território abaixo de Tejo determinante para o PSD vir a disputar eleições nacionais no futuro. Pragmaticamente, recrutou candidatos ou apoiou movimentos independentes muitas vezes distantes do PSD, mas próximos da possibilidade de ganhar. Na contagem dos votos, esses movimentos contaram como vitórias do PSD de Rui Rio. Mas entre as autárquicas e as legislativas, o partido não conseguiu cimentar-se junto das populações que dele não fugiram nessas eleições locais. Mais uma vez, Rio falhou em dar consequência a um propósito bem direcionado. E o resultado conheceu-se em janeiro: uma maioria absoluta do PS depois de seis anos de poder; uma explosão de grupos parlamentares à direita do PSD.

Da saúde financeira do partido, que de nada serve se este não tiver futuro, às táticas eleitorais, passando pela seleção de protagonistas, Rui Rio foi um líder disruptivo na decisão mas transversalmente imóvel na ação. Racional nas bandeiras, mas sem raciocínio nas propostas. Isso fez dele, como o próprio sempre disse sobre si próprio, um político diferente dos outros. Mas, sobretudo, tremendamente mal-sucedido.


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