Repitam connosco: "O nacionalismo vacinal não ajuda ninguém a não ser o vírus"

A 20 de Março de 1925, na Westminster Abbey, em Londres, o padre Frederick Lewis Donaldson criou um código moral que vedava certos pecados sociais, incluindo ciência sem humanidade e política sem princípios. Disponíveis que estão algumas das muitas vacinas em desenvolvimento contra a covid-19, é difícil não lembrar o código moral de Donaldson. É que os líderes mundiais têm a clara possibilidade (em sede de investimento, aquisição e distribuição das mesmas) de não defender meramente a sua nação e de optar por uma abordagem assente em princípios de solidariedade, cooperação e assistência a nível mundial.

De forma não surpreendente, os Estados mais afluentes têm pendido para o chamado nacionalismo vacinal, recorrendo a acordos bilaterais com a indústria farmacêutica e contratando a aquisição de biliões de doses vacinais contra a covid-19, a fim de garantir a protecção da respectiva população. Trata-se de uma postura que à primeira vista faz sentido sob um ponto de vista darwinista, contudo sucumbe perante escrutínio atento. Senão vejamos.

A prevalência dada ao nacionalismo vacinal é moralmente repreensível, dado o cenário de iniquidade que cria no que toca ao acesso à vacina, todavia sabemos sobejamente que a invocação de um argumento ético em prol da cooperação internacional não é suficientemente convincente no âmbito do processo decisório que releva.

Avancemos, então, outro argumento, um de foro económico, pois o custo do nacionalismo vacinal uma vez examinado tem necessariamente de pesar. E usemos, para tal, dados colhidos pela RAND Europa, segundo a qual o custo do nacionalismo vacinal pode montar a 1,2 triliões de dólares por ano, globalmente, em termos de PIB.

De facto, enquanto a imunização for parcial e não global, continuará a haver um custo económico associado à covid-19. Por exemplo: a União Europeia perderá por ano cerca de 40 biliões de dólares, os EUA 16 biliões e o Reino Unido entre dois e dez biliões. A verdade é que embora a tragédia causada pela covid-19 seja na sua génese uma feroz crise de saúde pública, as suas repercussões económicas têm sido atrozes.

Ora, se o acesso à vacina for determinado por considerações ditadas pelo nacionalismo vacinal, ainda que o vírus seja controlado em certos pontos do globo, não o será noutros. Daí decorre que perdurarão medidas, em múltiplos países, que oscilarão entre o distanciamento físico e o confinamento, consoante a gravidade da situação local, e que continuarão a afectar sectores cruciais da economia, cadeias de abastecimento e a procura. Acresce que o risco de ocorrência de variantes do SARS-CoV-2 em resultado da sua replicação mantida nas zonas desprotegidas põe em causa a eficácia das vacinas e ameaça um novo ressurgimento global da doença.

Chegamos finalmente aos benefícios económicos da cooperação internacional vacinal, e esses, como diria Sherlock Holmes, são elementares. Estima a Oxfam International que o preço de aquisição e distribuição de uma vacina segura e eficaz para os países mais pobres do mundo seja de cerca de 25 biliões de dólares. Tendo em conta essa estimativa, o dispêndio na vacina configura-se (como sempre) como um investimento e não como um custo. Investir no acesso rápido, justo, equitativo e global às vacinas contra a covid-19 representa uma estratégia não despicienda de interesse para as nações mais abastadas, permitindo um retorno aproximado de 4,8 dólares por cada dólar investido (segundo a RAND Europa). Ou seja, há que implementar uma solução para a grave situação pandémica que vivemos que tenha em conta a floresta e não apenas as árvores, porque, como os dados acima revelam, o "nacionalismo vacinal só ajuda o vírus" (Tedros Adhanom Ghebreyesus, OMS).

Qualquer estratégia adoptada neste contexto, bem como a concepção e a precisa implementação de métodos, planos e tácticas devem ser alicerçadas numa visão global e não parcial do todo, com base em dados e informação rigorosos e no conhecimento e na experiência de quem sabe. Curiosamente, se tal suceder, sob uma perspectiva quimérica, a ciência servirá toda a humanidade e a política emergirá dotada de princípios (seguindo o código moral de Donaldson). Se quisermos ser pragmáticos, notemos, como Bill Gates, que ajudar os outros países não é só uma questão de altruísmo, mas também de inteligência.


Patricia Akester é fundadora do Gabinete de Propriedade Intelectual/Intellectual Property Office da Universidade de Cambridge.

Filipe Froes é pneumologista, consultor da Direcção-Geral da Saúde, coordenador do Gabinete de Crise Covid-19 da Ordem dos Médicos e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública.

Escrito de acordo com a antiga ortografia.

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