"Quem viu Goa..."

"Quem viu Goa não precisa ver Lisboa". Assim se dizia no século XVI, perante a maravilhosa cidade do Índico, singular encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente. Porto, onde havia "grande trato de muitas mercadorias de todo o Malabar, Chaul e Dabul, do grande reino de Cambaia...", no dizer do cronista. A memória de Afonso de Albuquerque, de Garcia de Orta, de Camões, de Francisco Xavier ou de Fernão Mendes Pinto, e as tradições ancestrais dos povos do território preenchem a realidade multifacetada de um património cultural singular, que constitui uma identidade própria, complementar das várias referências que lhe deram origem. Assim se compreende como a herança, a memória e a cultura têm características próprias múltiplas que não podem confundir-se com qualquer ilusão unificadora ou autossuficiente. O Museu de Arte Cristã de Goa, criado em 1994, celebrou 29 anos de existência numa cerimónia inolvidável. É um projeto da Arquidiocese de Goa e Damão e a sua constituição deve-se à convergência de vontades entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Indian National Trust for Art and Cultural Heritage de Nova Deli. Apresenta-se a arte indo-portuguesa em todo o seu esplendor, reunindo uma coleção única de Arte Cristã de influência indiana. São cerca de cem obras de arte icónicas, que identificam de modo muito especial uma identidade religiosa própria, abrangendo pinturas, esculturas em madeira e marfim, têxteis, livros, metais preciosos e mobiliário. E não esquecemos o trabalho realizado por Maria Helena Mendes Pinto, de saudosa memória. O Museu encontra-se agora melhorado e enriquecido, como fica demonstrado no magnífico catálogo, coordenado por Natasha Fernandes, com textos de Nascimento de Souza, Avinash Rebelo, Maria Fernanda Matias, Walter Rossa, Jason Keith Fernandes e Ranjit Hoskote. Como afirmou o Cardeal D. Filipe Neri Ferrão, o projeto de reorganização e de valorização museográfica do Museu de Arte Cristã deveu-se a uma cooperação inédita entre o Ministérios da Cultura da República da Índia e de Portugal e da Fundação Calouste Gulbenkian - instituição que acompanhou o Museu ao longo da sua existência, especialmente nos momentos-chave da sua vida e do seu crescimento.

O Museu nasceu em Rachol, em Salcete, nas margens do rio Zuari, e aí esteve até 2001, tendo sido transferido para Convento de Santa Mónica, edificação marcante que assume uma posição particular no contexto da arquitetura religiosa de Goa por ter sido o único convento feminino do território. O monumento de grandes dimensões localiza-se na bela encosta norte do Monte Santo, no lado ocidental de Velha Goa, perto do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, sobranceiro ao Rio Mandovi e à estrada que liga Pangim à velha cidade. A Igreja de Santa Maria, que está contígua a Santa Mónica, é um exemplo único no panorama da arquitetura religiosa cristã de Goa, como igreja de um convento feminino. O convento impressiona pelas suas dimensões e grandiosidade, tanto mais que é dos poucos de Velha Goa que se mantêm em boa parte intacto. Na sequência da visita do então Presidente Emílio Rui Vilar, em 2005, e da disponibilidade de apoio técnico, a Fundação Calouste Gulbenkian elaborou e ofereceu ao Museu, em 2015, o projeto de renovação que incluiu arquitetura, museologia e museografia, seguindo as mais recentes orientações internacionais na matéria. Deu-se assim continuidade a uma cooperação antiga, realizada em nome da salvaguarda de um património cultural de grande valor civilizacional. É um maravilhoso conjunto de peças, avultando o monumental tabernáculo proveniente da Catedral de Nova Goa com a representação de um pelicano que significa o sacrifício de Cristo no Calvário. Cada uma das peças que aqui se apresentam constitui exemplo de um fecundo encontro da arte e da sensibilidade de culturas diferentes, que se completam, numa memória viva e numa síntese de memorável significado.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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