Quem se mete com o PS leva!

Quanto mais a luta aquece, mais força tem o PS". O slogan vem dos tempos do PREC e de uma maioria silenciosa que teve de opor-se a uma minoria ruidosa.

O PS forjou-se assim, na clandestinidade, primeiro, na luta política, depois, a servir de charneira quando a democracia era ainda frágil, imatura, idealista e extremista. Numa altura em que foi preciso tomar decisões, escolher o lado certo da barricada, enfrentar na rua, às vezes corpo a corpo, as tentativas de contrarrevolução que apareceram, à direita e à esquerda.

E, claro, quanto mais a luta aquecia, mais forte se sentia o PS para afirmar o seu espaço, o - em Portugal - chamado socialismo democrático, na Alemanha e noutros lugares, a social-democracia.

Nessa altura, como hoje, socialistas democráticos e sociais-democratas portugueses representaram, a par, o espaço da moderação e da modernidade, da afirmação do regime democrático, da luta contra os extremismos, da construção europeia e do sonho de um país livre e igual, sem amarras nem jugos.

Soares e Sá Carneiro, primeiro, Soares e Balsemão, depois, Soares e Mota Pinto, no governo do Bloco Central, travaram essas lutas lado a lado, como adversários e não como inimigos, convergindo no essencial e adornando o acessório, marcando diferenças programáticas mas mantendo, sempre, a ideia desse "centrão" que, tantas vezes foi criticado como sendo pantanoso e volátil, mas que sempre existiu e representou uma imensa maioria. Os portugueses sempre souberam escolher, em cada momento, o caminho que deviam trilhar, com sabedoria, paciência e discrição.

Depois da quase maioria de Guterres, a que se colou a maioria de Sócrates, com dois anos e meio de interregno, Jorge Coelho, que começou revolucionário e acabou moderado, criou um novo slogan. Habituado ao poder, o PS tornou-se burguês e engordou. A luta já não era pela consolidação da democracia nem do regime, o tempo era de expansão do aparelho, de domínio do Estado e de um singular sentimento de posse e impunidade. De domínio absoluto, de uma "ditadura da maioria", expressão que Soares inventou para desgastar Cavaco, e que acabou a cair-lhe em cima.

Dizia Jorge Coelho, num excesso de campanha, que "quem se mete com o PS leva". Levava troco, claro, em palavras duras, furiosas, às vezes sem filtro e sem razão. Também foi nesse tempo que um agora ministro temperado e diplomata confessou que a sua atividade preferida era "malhar na direita". Talvez inspirado num "animal feroz" que andava, ao tempo, à solta e ferido por uma maioria que se tornou minoria e uma minoria que se tornou derrota.

Se até aqui, embora beligerante, a linguagem de campanha eleitoral tinha excessos e imagens demasiado gráficas, o novo slogan que marca o início dos anos 20 do século XXI é bem mais perigoso. A nova ordem socialista é para "dar uma lição" a quem não se portou "bem", sendo que o critério de quem se porta bem é definido pelo secretário-geral que, acabada a campanha, tratará de pôr em prática o devido corretivo aos infratores. E, assim, se passa de uma luta que empolga e aquece para o aviso de porrada política aos adversários até à ameaça de retaliação e vingança contra os considerados malcomportados que, no caso, são parceiros do Estado na administração de uma empresa. Honestamente, prefiro a primeira rima e um regresso às origens da democracia. Às vezes, vale a pena voltar atrás para perceber como tudo começou. E recomeçar.

Jornalista

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