PSD e TAP, TAP-TAP TAPTAPTAPTAPTAP

Espremida, a crise política centrar-se-á na TAP. A campanha eleitoral desaguará ali. Porque a TAP pesa. Imenso. Lembram-se de 2009? Era o TGV. Agora os aviões. TAP porquê e para quê?

A TAP era considerada estratégica. Um fortíssimo agregador de valor acrescentado nacional através de mão-de-obra nacional. Caríssima, claro, como todas as companhias aéreas de bandeira, do tempo em que os direitos sociais somam salários com anos de casa e direitos acumulados. Até chegarem as low-cost. Ou seja, a tecnologia mudou: não a de voo - as dos direitos e flexibilidades laborais comparativas entre companhias históricas e as Ryanair, Easyjet, etc..

A TAP tem outro problema-base: é curta para se estender igualmente pelo país. É profundamente desigual para Faro, Açores e Madeira. No Porto tentou uma ponte aérea que, entretanto, foi praticamente anulada. Mesmo em Lisboa, se a TAP desaparecesse não acontecia nada de transcendente (exceto nos voos para São Tomé). Que eleitorado defende a TAP? O PSD vai explorar isto fortemente, sobretudo no Norte.

O turismo pode argumentar que a TAP traz clientes extra. Só que o argumento cai por terra se as slots da Portela forem rapidamente ocupadas, como quer, por exemplo a Ryanair. Lisboa tem mais procura que slots disponíveis no aeroporto.

O resultado disto está à vista: quem quer defender a TAP por razões económicas? Que o Bloco e o PCP fiquem do lado dos trabalhadores, faz parte do cardápio. O PS, entretanto, está entalado: quer salvá-la porque achou que valia a pena. E passa o cheque. O cheque é astronómico: sempre a deslizar dos três para os quatro mil milhões. E é impossível saber-se onde acaba a conta.

Dito isto, o PSD só precisa de repetir pelo país todo que a TAP custa mais que "isto e aquilo". Como disse Durão Barroso em 2002, quando era primeiro-ministro, "não será construído nenhum novo aeroporto enquanto houver crianças de três anos à espera de serem operadas". Isto é a TAP, 20 anos depois. Ou o novo aeroporto. Ou Sines.

Os portugueses gostam de usufruir do investimento público, mas detestam pagá-lo. O argumento da dívida rende muitos votos. Salazar sobreviveu tantos anos por causa das contas certas. A PAF, de Passos e Portas, teve 38% do país e ganhou a grande maioria dos distritos do Norte e Centro, mesmo depois de quatro anos de troika. As pessoas sabem que tudo se paga. Com impostos.

Há, entretanto, este pequeno intervalo de campanha interna laranja. Entre um velho estilo e um novo rumo, a máquina PSD meteu moedas e já mexe. Como disse Alberto João Jardim, Rio seria mais eficaz como primeiro-ministro do que enquanto líder da oposição. Mas Rangel traz uma geração renovada à liderança do PSD, com a abertura de horizontes de quem viveu muitos anos em Bruxelas apesar da inexperiência em cargos executivos (tal como Passos Coelho antes de ser primeiro-ministro).

Independentemente do ardor da campanha, as nuances de liderança no PSD não obstaculizarão a questão essencial com que António Costa está confrontado: o passeio acabou. E aqui chegados, sobra então a questão para o Bloco de Esquerda e PCP: derrubar o Governo é coerente? É. E o resultado prático será...? Deixo o meu contributo: a TAP. Jerónimo de Sousa e Catarina Martins assinarão o fim da companhia. Ou, repetindo o título do texto que escrevi em Julho de 2020, "A TAP é o princípio do fim de António Costa".

Jornalista

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