Portugal no mundo (I)

Portugal é um "país improvável". Tem uma dimensão territorial terrestre limitada - embora tenha uma dimensão marítima significativa -, tem apenas 10 milhões de habitantes e, que saibamos, não tem acesso a recursos naturais significativos. E, no entanto, avançamos para os 900 anos de independência com uma das fronteiras mais estáveis da Europa, temos uma unidade política e social invejáveis, não conhecemos qualquer tensão internacional que só a nós diga respeito e estamos no terço superior do desenvolvimento dos países da ONU. Temos razões para sermos coletivamente mais otimistas e mais ambiciosos.

Externamente, Portugal é um defensor entusiasta das soluções multilaterais e de um mundo baseado na cooperação, no primado da lei, nas negociações e na busca de consensos. Somos uma voz constante na promoção e na defesa de um sistema partilhado e vivemos confortavelmente nos princípios da Carta das Nações Unidas, do Conselho da Europa e da União Europeia. E de outra forma não poderia ser, pois não temos capacidade para impor a nossa vontade ou defender os nossos interesses estratégicos num ambiente internacional anárquico.

Ao mesmo tempo, a língua, a cultura, a história e também os interesses políticos e económicos que unem os Estados e os milhões de pessoas que falam português em África, na América do Sul, na Ásia e na Europa têm um potencial que deverá ser aprofundado, não só no quadro das suas preocupações próprias mas igualmente na CPLP.

Refira-se ainda que Portugal tem vindo a contribuir de forma crescente e consistente para as operações de paz nos quadros da ONU, da NATO e da UE, com presença de forças militares, militarizadas ou de segurança na República Centro-Africana, no Mali, na Colômbia, na Somália, no Iraque, em Moçambique, no Mediterrâneo, no golfo da Guiné e ao largo do Corno de África, entre outros.

Nada disto é novo ou remotamente surpreendente. O que será interessante é a forma como Portugal tem conseguido transformar as limitações da sua capacidade de projeção de poder num dos seus principais instrumentos de relações internacionais: um negociador honesto e empenhado, que procura nos mecanismos da cooperação internacional contribuir para encontrar soluções para as aflições do mundo. Não seremos os únicos mas temos uma característica histórica, essa sim mais singular, que reforça o nosso papel: poucos serão os Estados que tenham um passado e um presente tão universal, que nos vem da história, da diáspora, dos negócios, da cultura e da política.

Foi assim que Portugal se bateu, tantas vezes incompreendido e quase sempre sozinho, pela autodeterminação de Timor-Leste. E foi através dos mecanismos internacionais e de pacientes negociações que contribuímos para que os timorenses - responsáveis últimos do seu próprio destino - pudessem escolher o futuro que desejavam. Timor-Leste mostra que um negociador honesto pode fazer a diferença num quadro multilateral.

Portugal encontrou o seu lugar no concerto das nações, colocando as suas características de negociador honesto ao serviço de uma agenda que reflete o nosso interesse nacional: uma comunidade internacional baseada no multilateralismo e na procura de soluções partilhadas, onde ninguém imponha nada a ninguém. Mas o multilateralismo é reconhecidamente imperfeito...

Investigador associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa
​​​​​​​bicruz.dn@gmail.com

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