Por que é que as crianças não devem andar nuas em locais públicos?

Está calor e as crianças estão de férias, o que equivale a falar em piscina, praia e afins. Espaços públicos onde, muito frequentemente, nos deparamos com crianças nuas ou seminuas. Hoje refletimos sobre a exposição do corpo das crianças e porque esta deverá ser evitada.

Importa salientar que é essencial que as crianças estabeleçam uma relação saudável com o seu corpo e se sintam bem na sua pele, sendo a aparência física uma dimensão muito importante da sua autoestima. Assim, os riscos de que falaremos em seguida não devem ser confundidos com necessidade de esconder o corpo, por vergonha ou embaraço, mas sim com necessidade de proteção.

As crianças devem ser familiarizadas com os conceitos de partes privadas ou partes íntimas que, dito de uma forma muito simples (que até uma criança mais pequena compreende), são as partes do corpo que tapamos com a roupa interior. Falamos, naturalmente, dos órgãos genitais e do rabo e, nas raparigas, das mamas.

E por que é tão importante que as crianças aprendam desde cedo este conceito de partes privadas?

Porque estas partes do corpo não devem ser expostas ou tocadas de qualquer forma, por qualquer pessoa ou em qualquer contexto. A partir dos três anos de idade, as crianças conseguem já identificar as partes privadas do seu corpo e distinguir os diferentes tipos de toque, que associam a diferentes emoções, e devem desde logo ser ensinadas a reconhecer potenciais situações de risco ou perigo e a pedir ajuda a um adulto de confiança.

É muito fácil pegar num telemóvel e fotografar ou filmar uma criança que brinca descontraída à beira mar. E o que acontece depois a essas imagens?

Ou seja, devemos ensinar as crianças a proteger as suas partes privadas em determinados contextos, não as expondo de qualquer forma ou perante qualquer pessoa. Devemos transmitir-lhes a ideia de que apenas algumas pessoas podem ver ou tocar as suas partes privadas, nomeadamente, num contexto de saúde (p. ex., uma ida ao médico) ou de higiene (p. ex., o banho).

Assim, se despirmos as crianças na praia ou na piscina, deixando-as brincar livremente sob o olhar de tantas pessoas que não integram o seu círculo de confiança, estamos exatamente a contrariar aquela que deverá ser a mensagem principal: "O corpo é meu e deve ser protegido".

Para muitas pessoas, esta é uma preocupação que parece estranha, tendo em conta que o corpo das crianças, pré-púbere, não deve ser relacionado com qualquer tipo de excitação sexual. No entanto, sabemos que assim não é. Para muitos agressores (homens e mulheres), a excitação sexual advém exatamente do facto de ser um corpo pueril, sem carateres sexuais secundários. E por isso, em locais públicos, existe um risco acrescido, não apenas de a criança ser alvo de olhares ou comentários desadequados, mas ainda de poder haver lugar à captação da sua imagem. É muito fácil pegar num telemóvel e fotografar ou filmar uma criança que brinca descontraída à beira mar. E o que acontece depois a essas imagens? Por quem são visualizadas? São partilhadas no mundo digital? Com que fins? Não sabemos.

Não se pretende, de forma alguma, diabolizar o corpo ou a nudez, mas tão-somente ajudar as crianças a crescer com a noção de que o corpo lhes pertence e é o seu maior tesouro. E aqui fica uma lengalenga que as crianças podem aprender:

"É tão bom aprender coisas que nos podem proteger!
O meu corpo é só meu e cada um tem o seu!
Só lhe pode tocar quem eu quiser!
Se alguém abusar, a uma pessoa amiga tenho de contar!
Pedir ajuda é importante e faz-me sentir confiante.
E devo dizer que não, sempre que sentir uma aflição."
*

*In Alexandre, J., Agulhas, R., & Lopes, C. (2017). Picos e Avelã à descoberta da floresta do tesouro. Lisboa: Ideias com História.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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