Pontal: nostalgia do Passismo ou visão de futuro?

O regresso à atividade política, depois da breve pausa de verão é, normalmente, ocasião para os partidos apresentarem novas ideias, projetarem o ano político que recomeça, ao mesmo tempo que tentam marcar a agenda mediática.

As propostas de Luís Montenegro para responder ao impacto social da inflação - apesar de algumas redundâncias e evidentes sobreposições com medidas já avançadas pelo governo - sugerem moderação e um compromisso com a histórica matriz social-democrata do seu partido.

Mas, precisamente por isso, ainda mais surpreendeu tanto destaque a Pedro Passos Coelho na festa do Pontal. O antigo primeiro-ministro é o rosto de uma direita sem sensibilidade social, que, é sempre importante recordar, fez da austeridade e dos cortes nas pensões e salários uma bandeira política, que quis ir além da troika e mandou os portugueses emigrar.

Apesar de ter sido parte do "núcleo duro" da liderança passista, Montenegro tinha a oportunidade de descolar definitivamente desse legado neoliberal e, portanto, de começar a trilhar o seu próprio caminho. No entanto, ao insistir na proximidade a Pedro Passos Coelho, o líder do PSD parece vacilar entre assumir uma trajetória de moderação ou manter-se como depositário e continuador da linha mais troikista do que a troika.

É verdade que a aplicação do programa de ajustamento dependia de atores externos - o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Mas é também verdade que, entre todos os envolvidos, só mesmo a direita portuguesa ainda hoje continua a não reconhecer erros e a defender os méritos da austeridade excessiva a que sujeitou os portugueses.

Importa relembrar como o resultado prático da política de cortes foi flagrantemente negativo: recessão profunda, perda de rendimentos, aumento brutal do desemprego, défice orçamental (todos os anos acima do limite dos 3%) e consequente aumento da dívida pública. A estratégia falhou em toda a linha - só o PSD hoje rejeita admitir.

Luís Montenegro começa o seu mandato de forma ambígua. Será o rosto de uma alternativa política moderada? Reconhecerá que a austeridade cega só nos trouxe empobrecimento e aumento das desigualdades? Ou será um porta-estandarte temporário, que aguarda ansiosamente pela neblina matinal da profecia sebastiânica do regresso de Pedro Passos Coelho ao ativo?

Para Portugal, o primeiro seria melhor. Mas suspeito que o PSD possa preferir este último, na tentação de recuperar os votos liberais.

As propostas apresentadas por Montenegro, com custos estimados e alguma preocupação social, são exatamente o contrário do que o PSD ofereceu a Portugal quando teve oportunidade de governar. Só que, em vez de acompanhadas por novas caras e uma visão para o futuro, a direita democrática ainda parece vacilar sobre qual é o lado do Pontal que prefere: a nostalgia de Passos Coelho ou um país com futuro. Aguardemos.

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